Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

A armadilha do consenso

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

ENTREVISTA / EUGÊNIO BUCCI

Sobre ética e imprensa, de Eugênio Bucci. Companhia das Letras, São Paulo, 2000. Capa de Raul Loureiro. Preço: R$ 23,00 – 256 pp.

A Companhia das Letras iniciou a publicação de uma coleção cujo intuito é tomar a ética como ponto de vista para pensar campos do conhecimento ou de atuação profissional. O jornalista Eugênio Bucci, com seu livro Sobre ética e imprensa, abre a série. Aos 42 anos, o autor é secretário editorial da Editora Abril. Foi articulista da Folha de S. Paulo e colunista de O Estado de São Paulo e Veja. Publicou Brasil em tempo de TV (Boitempo, 1996) e outros.

Sobre o livro agora lançado, a editora informa o seguinte:

"Conseqüência do monopólio dos meios de comunicação, da pressa inerente ao jornalismo, da briga acirrada e diária pela notícia exclusiva ou da guerra pela audiência, o fato é que os jornalistas e seus patrões muitas vezes se afastam da conduta ética e oferecem ao público uma informação de má qualidade. […] Neste momento em que a lógica do espetáculo e do entretenimento contamina os veículos jornalísticos, em que as megafusões de empresas de comunicação aumentam como nunca o poder da mídia em todo o mundo, Sobre ética e imprensa traz uma reflexão de primeira necessidade."

Abaixo, entrevista de Eugênio Bucci a Luiz Egypto, do Observatório da Imprensa.

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O jornalismo é uma atividade que naturalmente corre contra o tempo. As derrapadas éticas da imprensa podem ser explicadas em função dessa pressa atávica?

Eugênio Bucci – A natureza veloz do jornalismo deve ser bem compreendida para que não façamos julgamentos indevidos. Nisso, a sua pergunta é muito bem-posta. A pressa não é um fator indesejável no jornalismo: é parte de sua constituição. O bom jornalismo não é bom "apesar" dos prazos exíguos. Ele é bom justamente porque sai-se bem dentro desses prazos exíguos. Fazer jornalismo é correr. Mais rápido do que tudo. O tempo, portanto, não pode servir de justificativa para erros éticos. Pessoalmente, penso que o tempo escasso é um dado da profissão, não deve ser transformado em desculpa.

Há um jornalismo "entra" na redação e outro que dela "sai". Isto é, existe um processo de manipulação técnica na seleção, organização e formatação do material que finalmente chega ao público. Onde residem os maiores desvios éticos da imprensa? Na apuração ou na edição?

E.B. – Jornalismo ético é jornalismo de qualidade. Jornalismo de qualidade é jornalismo ético. Uma apuração malfeita conduz a desvios éticos, do mesmo modo que a edição malfeita. E aí nem estamos falando de más intenções, mas apenas das exigências técnicas da profissão que, é bom saber, constituem também exigências éticas. Na apuração, por exemplo, é um imperativo tanto ético quanto técnico ouvir todos os lados envolvidos e ser fiel aos diversos pontos de vista no momento de registrá-los. Na edição, é preciso dar o peso devido a cada um dos aspectos que fazem parte da história, um peso que reflita o peso que eles têm na realidade e que ajude o leitor, o telespectador, o ouvinte ou o internauta a
formar uma visão equilibrada do que se relata. Quanto à má-fé, ela pode se manifestar na apuração e na edição. Normalmente, porém, quando se fala de manipulações, estas geralmente acontecem na edição: uma manchete maldosa e distorcida, uma foto artificialmente desfavorável de um personagem e que é escolhida pelo editor com intenções de prejudicar esse personagem, a omissão de detalhes ou de fatos relevantes para obter vantagens econômicas ou políticas. A manipulação é um desvio ético flagrante e conhecido, e se materializa, sem dúvida, na edição e na chefia de reportagem. Mas não é o desvio mais importante, ao menos na minha opinião. Hoje, para mim, o mais preocupante é aquilo que passa à margem das intenções dos editores. O advento dos grandes conglomerados da
mídia, por exemplo, transforma os veículos de informação, que antes eram empresas independentes, em departamentos dentro das megacorporações. Esses departamentos convivem com outros negócios, como o entretenimento, e, por meios sutis, são muitas vezes estimulados a contribuir com reportagens para o sucesso de outros negócios da mesma empresa. Também me preocupa o que vem sendo chamado de "pensamento único". A imprensa acaba, ocasionalmente, desistindo de oferecer ao público uma visão crítica dos acontecimentos e embarca em canoas ideológicas da moda. A maioria não entra nessa por má intenção, mas porque não parou para refletir sobre a leitura de mundo que está passando adiante. Há pouca pluralidade de opiniões no jornalismo, há pouco debate. Formam-se grandes consensos sem maiores problematizações, e isso pode conduzir a um empobrecimento da informação.

A que você atribui a crescente espetacularização da produção jornalística? A indústria do entretenimento definitivamente ganhou os corações e as mentes dos jornalistas e do público?

E.B. – O jornalismo sempre dialogou com as emoções de seu público. Não há nada de errado com isso. Grandes reportagens podem ser lidas como peças literárias. Têm um valor estético que ultrapassa seu valor informativo. Recentemente, porém, as referências estéticas do jornalismo já não são a literatura (ou o cinema e a pintura para o fotojornalismo) mas a chamada cultura pop. Canções do rádio, filmes policiais, personagens de videogames acabam emprestando seus nomes, seus versos, suas frases e seus trejeitos para o repertório discursivo do jornalismo. Ao mesmo tempo, é preciso competir pela atenção de uma platéia cada vez mais bombardeada e monopolizada pela indústria do espetáculo. Basta ver o que se passa com o telejornalismo. Se ele não for capaz de emocionar e, mais que isso, de seduzir, de chocar, de estarrecer o telespectador, pode perder audiência para a novela do outro canal. As imagens impactantes convertem-se em critério de relevância de um acontecimento. Então, eu atribuo a espetacularização da notícia a esses dois fatores combinados: o estreitamento da cultura na linguagem do entretenimento e o predomínio do espetáculo sobre o comportamento do público. O pânico que o jornalismo tem da chatice é reflexo disso. Ser reflexivo é ser chato, o que é uma pena. Explorar as nuances e fugir do maniqueísmo é ser confuso, o que também é uma pena. Hoje, os mais vetustos diários precisam estampar nas primeiras páginas de suas edições dominicais as fotos de raparigas seminuas sob pretexto de mostrar um dia de sol na praia. Isso não é uma pena. É apenas um sintoma.

Em artigo publicado há alguns anos na revista The Spectator, o escritor inglês Paul Johnson listou o que chamou de "sete pecados capitais da imprensa". Você também propõe uma lista?

E.B. – Eu não fiz nenhuma lista. Não precisava. Já existem várias, e todas são basicamente iguais. Cito algumas no meu livro. Mas, para expor os principais problemas da imprensa contemporânea, acabei adotando como grade a lista criada por Paul Johnson, que é colunista de The Spectator, e que foi publicada no Brasil pelo Jornal da Tarde, em 1993, numa série sobre imprensa, muito boa por sinal. Minha intenção não é, claro, apontar pecados na imprensa nem pecadores entre os jornalistas. Isso, a propósito, foi um cuidado que procurei em todas as passagens do meu livro. Ele não está aí para julgar ninguém, mas para fornecer, aos interessados no assunto, elementos que ajudem a montar equações éticas, isto é, ajudem a estabelecer critérios para solucionar dilemas éticos típicos da profissão. Por meio da listagem de Johnson, e dando a ela novas significações, procuro apresentar vários desses problemas e desses dilemas.

Os cidadãos podem acreditar na imprensa?

E. B. – Há pesquisas que apontam uma queda nos índices de credibilidade da imprensa. Em vários países. Acho que a pergunta deveria ser refeita: a imprensa tem merecido a confiança dos cidadãos? Espero, com toda a humildade, contribuir para que sim. Mas a situação não é boa. De todo modo, sem uma imprensa confiável, sólida, de qualidade, não há democracia. Num país em que a imprensa não merece confiança, a democracia corre perigo.

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