Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A crise da falta de opinião

TV ASSÉPTICA

Paulo José Cunha (*)

Neste momento, se você quiser saber qual é a opinião dos principais jornalistas que atuam nos jornais, nas revistas, na internet, nas emissoras de rádio e de televisão dos Estados Unidos e da Europa sobre a guerra Bush x Saddam é só acessar alguns sites. Você pode até discordar, pode até se irritar com uma posição mais conservadora ou mais radical, uma opinião mais ou menos moralista, mais ou menos liberal, mais ou menos xenófoba, mais ou menos comprometida com tal ou qual grupo de poder. Mas a opinião existe e é publicamente disponibilizada porque, na América e na Europa, os chamados "líderes de opinião" fazem jus ao título. Não apenas têm opinião formada, como a expressam efetiva e publicamente, saltando da posição de líderes para a de "formadores" de opinião.

Neste patamar, o jornalista exerce a sua mais importante função pois deixa de ser um captador e retransmissor de informações para se transformar num profissional de elevadíssima responsabilidade, passando a influir decisivamente na formação do pensamento público. Torna-se peça-chave no balizamento de tendências, na construção do imaginário e, portanto, na tomada de decisão, seja em relação ao voto do eleitor, seja em relação à política econômica do governo. Assume a mais nobre de todas as funções dentro da profissão: embora sem mandato popular conquistado nas urnas exerce o papel de "agente público", um funcionário do leitorado ou da audiência, um consultor bem informado. E assim se parece bastante com um vereador, um deputado, um senador.

No Brasil, o quadro é bem diverso. É até possível, pelos antecedentes, supor a posição de jornalistas de renome embora, raramente, esses jornalistas, sobretudo os apresentadores de televisão ? únicos que podem de fato ser chamados de "líderes" de opinião, no caso do Brasil ? expressem publicamente suas convicções. No máximo, são "analistas" políticos, nacionais ou internacionais. Raramente são detentores de opinião. Fora do âmbito restrito dos coleguinhas ou da roda do boteco, dificilmente emitem essa opinião. Num país como o Brasil, onde os níveis de escolaridade beiram a calamidade pública, é, no mínimo estranho que não possamos contar, ressalvadas as exceções conhecidas, com jornalistas de opinião ? sobretudo na tevê, o veículo preferido por 9 entre dez estrelas da audiência e do leitorado. O quadro se altera substancialmente na imprensa escrita. Ali, as páginas de opinião são bem mais incisivas, claras, diretas. Poucos são os analistas que também não exercem seu direito à opinião. Alguns o exercem em sua plenitude, com segurança e responsabilidade, como José Nêumanne, no JT. Ou Villas-Bôas e Augusto Nunes, no JB. Ou Clóvis Rossi na Folha, só pra ficar em quatro exemplos.

Bonner, contra ou a favor

Mas, e na tevê? Fora as colunas até inteligentes de Jabor, os "isto é uma vergonha" de Casoy e as análises políticas de Franklin Martins, onde se esconde a opinião? A indagação não é minha. É de um motorista de táxi, o Amadeu, amigo velho e arguto observador da TV. Assiste com olhos críticos a tudo o que passa pela sua frente. E não há quem o faça entender como um homem com o poder de um Sílvio Santos não tenha ou não manifeste opinião sobre coisa alguma. Ou mesmo o William Bonner. Ou a Ana Paula Padrão. Ou o Alexandre Garcia. Ou o Renato Machado. Essa turma aí.

Culpa deles? Não. Esta ausência de opinião em nossas "estrelas" do telejornalismo resulta provavelmente do velho hábito, adquirido no tempo da ditadura, de os editores orientarem suas estrelas para manterem as barbas de molho de forma permanente, para evitar problemas com os generais de plantão. O hábito teria virado vício, do qual não nos livramos até hoje. Pior: em nome de uma pretensa neutralidade editorial, os veículos preferem manter prudente distância da opinião para evitar ferir os interesses das partes atingidas negativamente. Pior ainda: acreditam que a simples enunciação dos fatos, passados pela peneira dos filtros da edição e das conveniências editoriais, seja capaz de permitir uma avaliação e a conseqüente tomada de posição, função última da notícia.

O fato é que, no país onde mais se precisa de opinião abalizada, mais ela se esconde nos veículos de menor alcance, como os jornais. Ou é exercida apenas pelos "paladinos da justiça" nos programas policiais ou sensacionalistas. E o Amadeu ali, doido pra saber se o Bonner é a favor ou contra o Bush. Aquela assepsia editorial que ele exibe ao lado da patroa, na bancada do JN, até que é bacana. A gente sabe o estrago que uma opinião abertamente expressa por ele causaria numa audiência daquele tamanho. Mas que o Amadeu gostaria de saber o que ele pensa sobre os grandes temas nacionais depois do "boa noite" do Jornal Nacional, no aconchego do lar, com os trigêmeos no colo… ah, como gostaria. O Amadeu me garante que está disposto até a dar um pequeno desconto na corrida para o Bonner, quando ele vier a Brasília uma hora dessas, só pra saber se ele é contra ou a favor do Bush. É pegar ou largar.

(*) Jornalista, pesquisador, professor da professor da Faculdade de Comunicação da UnB. Este artigo é parte do projeto acadêmico "Telejornalismo em Close", coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <pjcunha@unb.br>