Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

A crise de um jornal engajado

L?HUMANITÉ

Leneide Duarte-Plon, de Paris

Há quem o leia por achá-lo fundamental. Há quem o leia por hábito; outros, ainda, por razões sentimentais. Seja por que motivo for, a leitura do jornal L?Humanité, que já foi o "órgão central do Partido Comunista Francês" continua sendo uma necessidade para alguns franceses.

E o jornal responde à expectativa de seus leitores: engaja-se em todas as boas causas da esquerda, seja contra a "ameaça Le Pen" ou contra a guerra no Iraque. Para denunciar a submissão e opressão da mulher sob o regime dos talebãs, o jornal pediu a cem intelectuais, artistas e líderes sindicais para escreverem cartas às mulheres afegãs e publicou-as durante mais de um mês, duas a três por dia. As cartas foram depois lançadas em forma de livro. O jornal deu também a primeira petição em defesa da jovem nigeriana ameaçada de lapidação por adultério e esteve à frente da marcha pela paz no conflito que opõe israelenses e palestinos. Para o L?Humanité e seus leitores não há jornalismo que não seja engajado politicamente. A diferença entre ele e outros é que quase todos disfarçam seu engajamento sob o manto diáfano do jornalismo "imparcial".

É bem verdade que os leitores já foram mais numerosos. Em 1980, o jornal vendia 138 mil exemplares diários ? hoje vende pouco menos de 50 mil. Mas os eleitores do Partido Comunista Francês também já foram mais numerosos. A cada eleição presidencial ou legislativa, o PCF perde um pouco mais de votos: Robert Hue fez pouco mais de 3% no primeiro turno das eleições presidenciais de abril do ano passado, enquanto Le Pen ia disputar o segundo turno com Chirac tirando Jospin da disputa e causando um verdadeiro terremoto na história recente da França.

Anúncio rejeitado

O jornal, como o partido, não pára de perder adeptos. A palavra é essa mesma: adeptos. O leitor do L?Huma, como é conhecido entre os franceses, não é como outro qualquer. É um fiel, que sustenta o jornal com o ato de comprá-lo diariamente mas também com campanhas de cotizações feitas de vez em quando.

Logo depois da queda da União Soviética, quando a maioria dos partidos comunistas mudaram de nome, o jornal tirou a foice e o martelo do logotipo impresso na primeira página. Desde 15 de março de 1999, deixou de ser o órgão oficial do Partido Comunista Francês. Hoje, o PCF detém apenas 40% do diário. Do restante, 20% foram vendidos em maio de 2001 a grupos privados como a estação de TV TF1, ao grupo Hachette (capital da família Lagardère) e às Caisses d?Épargne. Isso para a tristeza dos comunistas mais duros, que vêem o jornal cair nas mãos de capitalistas e os novos jornalistas serem contratados mais pelo talento profissional do que pelo fato de pertencerem ao Partido.

Agora mesmo, o jornal acaba de fazer uma campanha de subscrição entre seus leitores comunistas para salvar o órgão fundado por Jean Jaurès ? que completa 100 anos no dia 18 de abril de 2004 e tem uma história que honra o jornalismo e a esquerda franceses. O próprio endereço do jornal fala de sua história: ele fica no número 32 da Rua Jean-Jaurès, logo atrás do Boulevard Lenin, em Saint-Denis, tradicional subúrbio "vermelho" de Paris, que conseguiu manter a prefeitura nas mãos dos comunistas.

Na edição de 5 de fevereiro deste ano, L?Huma lançou uma campanha de subscri&ccedilccedil;ão "O futuro do L?Humanité é você" ("L?avenir de L?Humanité c?est vous", o que em francês é um jogo de palavras pois "a humanidade" ou "o Humanité" se escrevem da mesma forma). A ação visa melhorar o conteúdo, a apresentação gráfica e enfrentar um déficit de 1,8 milhão de euros. Até o fim de fevereiro, as doações haviam atingido 114.342 euros, segundo o diretor do jornal Patrick Le Hyaric. O jornal também pediu ao governo que dobre a ajuda aos cotidianos de fracos recursos publicitários. Ao mesmo tempo, fiel ao seu engajamento, L?Huma se recusou a publicar um anúncio do governo que explicava o projeto de reforma das aposentadorias por discordar radicalmente da proposta oficial. Esse tipo de posição firme e clara é exatamente o que o leitor do L?Humanité espera do seu jornal. É assim que ele se distingue dos outros que aceitaram publicar o anúncio governamental sobre a reforma da previdência.

Projeto estratégico

"Não é preciso ser comunista para saber que a paisagem da imprensa francesa seria empobrecida se o L?Humanité desaparecesse" diz Henri Malberg, de 70 anos, presidente da Sociedade dos Leitores do L?Humanité, que tem 16 mil membros e detém 20% do capital do jornal. Ele começou a ler o jornal aos 14 anos, na época da Libertação de Paris, e logo em seguida inscreveu-se na Juventude Comunista. "L?Humanité historicamente é um jornal que, de certa forma, pertence a seus leitores e esse é um sentimento que não existe em outros veículos da imprensa. A relação do jornal com seus leitores é passional, resultado de uma longa história de combates, de amor e de sofrimento", acrescenta Malberg.

O jornal começou a viver uma situação delicada com a perda progressiva do número de leitores e a queda da publicidade ? até chegar ao número de 46.862 mil exemplares vendidos por dia, segundo o órgão que controla a circulação de jornais na França. Para fiéis leitores como Lise London, de 85 anos, "L?Humanité é absolutamente necessário para que a classe operária, parte importante da população, possa ser ouvida".

"O calcanhar de Aquiles da imprensa militante está no estado sempre precário das finanças, resultado da falta de publicidade e de uma permanente erosão das vendas. Fora curtos períodos como os de 1936 a 1939 e de 1945 a 1947, nos quais a tiragem elevada permitia pagar todas as despesas da redação e da impressão, o L?Humanité tem vivido um declínio de vendas permanente", constata Patrick Éveno, historiador da mídia.

Apesar de tudo, L?Humanité é o segundo jornal preferido pelos jovens franceses entre 15 e 24 anos, depois do Le Monde, à frente do Libération e do Figaro, segundo Alain Nicolas, diretor de comunicação do jornal.

Numa reunião no fim de janeiro com o Conselho de Administração da Sociedade dos Leitores, chamada a tornar-se mais participante na vida do jornal, o diretor Patrick Le Hyaric garantiu que todos os empregados do diário, assim como os acionistas, estão associados no projeto estratégico de desenvolvimento traçado para os próximos dois anos. Entre as últimas realizações da Associação de Amigos do L?Humanité (Amis de L?Huma) está o site www.amis-humanite.com criado em maio do ano passado.

O centenário do diário de Jean Jaurès no ano que vem será uma grande festa para os comunistas franceses como a anual "Fête de L?Huma", uma tradição no calendário parisiense desde 1930.

(*) Jornalista

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