Friday, 24 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

A Fô pen que é fó

Ivanir Yazbeck (*)

Nunca foi tão fácil fazer jornal. A estrutura tecnológica das redações permite soluções editoriais inacreditáveis há uma dúzia de anos. E quanto mais se recua no tempo, a realidade de hoje soará aos ouvidos dos velhos jornalistas como ficção científica tão ou mais fantástica quanto os contos de Júlio Verne a seus contemporâneos.

Um exemplo para ilustrar a afirmação: durante os jogos da Copa do Mundo, na França, fotos dos gols em diversos ângulos ou das disputas mais plásticas pela posse da bola, registradas pelos fotógrafos ao redor do campo, eram enviadas do próprio estádio, via satélite, e aportavam na tela dos computadores da editoria de Esportes antes de o jogo terminar. E um minuto após o apito final os números da partida (chutes a gol, faltas, impedimentos etc., um balanço que os locutores da Sportv preferem bobamente chamar de scouts) já estavam contabilizados pelas agências internacionais, à disposição do editor, ao mesmo tempo em que um redator punha o ponto final no texto sobre o jogo, outro encerrava o quadro sobre a atuação individual dos jogadores e outros finalizavam a edição das páginas com títulos e legendas. Em 10 minutos, se muito, as páginas destinadas à cobertura da partida eram finalizadas nas telas dos diagramadores, prontas para seguirem seu curso até a rotativa.

Corta para um flashback até a Copa do Mundo de 82, na Espanha. (Podia ser a de 78, 74, 70 ou a de 66, para lembrar apenas das que participei como diagramador da editoria de esportes do JB, mas não vamos nos distanciar tanto.) Na Copa de 82, os computadores começavam a dar o ar de sua graça nas oficinas dos jornais, fornecendo as fotocomposições em substituição à composição a chumbo, produto das jurássicas linotipos. Mas nas redações, a aposentadoria das velhas Remingtons e Olivettis pelas telinhas mágicas ainda era uma projeção tão distante quanto a Lua para Gagárin.

Eis a brutal diferença: em 82, somente umas três horas depois do encerramento dos jogos chegavam umas duas radiofotos, e olhe lá, em p/b, imagens precárias, necessitando retoques a mão. E era unicamente com elas que a gente tinha de se virar para fechar as páginas. Em 98, eram dezenas de fotos, a cores, tecnicamente magnífícas, à mão dos editores, enquanto o jogo ainda corria solto nos campos franceses.

Contraste espantoso

Deixemos a editoria de Esportes e vamos para outra área: a da cobertura política. No mesmo ano de 1982, O Globo mobilizou cerca de 500 pessoas, entre seu quadro efetivo e estagiários contratados temporariamente para a cobertura da apuração dos votos para a eleição de governador, senadores e deputados. A equipe gigantesca foi distribuída pelas várias seções de apuração, de onde os números eram enviados a central na redação, que por sua vez os atualizava em tabelas quilométricas. Uma empresa chamada Proconsult foi contratada pela TV Globo e pelo jornal O Globo para auxiliá-los nessa maratona de números, mas os seus computadores começaram a projetar um quadro maroto, antes que a contagem tradicional, manual, voto a voto, tivesse se encerrado, contrariando os prognósticos óbvios. A lembrança do episódio provoca até hoje urticária em Evandro Carlos de Andrade, diretor de Jornalismo da Globo e na época diretor de redação do Globo.

Fora o mico da Proconsult, anote apenas este número impressionante: 500 jornalistas mobilizados para a cobertura de apuração de votos no Rio e em todo o Brasil, em 1982. (O JB, a Folha e o Estadão não ficaram muito atrás).

Corta para eleições gerais de 1998: redação de um jornal chamado Extra. Apenas um, repito, um repórter sentado diante de seu computador é o responsável pela conferência e a atualização de todos os números das apurações nacionais, estaduais e municipais, que o editor necessita para fechar suas páginas sobre as eleições.

“Como é que está o resultado em Rondônia e no Piauí?” Imediatamente, o solitário repórter acessa à página do TSE na internet, e um minuto depois repassa a informação exata.

É admirável e espantoso o contraste entre as duas cenas: a da redação do Globo, onde centenas de pessoas somam, multiplicam, anotam números que chegam pelo telefone, conferem e atualizam tabelas, batendo cabeça, enquanto o editor cobra não só a precisão dos números como o horário no fechamento das páginas, em confronto com a do repórter entediado, diante do computador ligado à internet, fornecendo-lhe o balanço dos números atualizados minuto a minuto – e, ainda por cima, confiáveis.

Miados aos milhões

Vamos, agora, dar um pulinho à redação da Folha de S. Paulo, mais especificamente na editoria de Economia, onde a parafernália eletrônica, que ditou o tom de deslumbramento nas linhas acima, é uma rotina – como de resto em todos os jornais do mundo. Os computadores e seus programas maravilhosos estão ao alcance de qualquer jornaleco do interior dos Estados Unidos, do Brasil ou do Burundi. Editar jornal, hoje em dia, é muito fácil em qualquer parte do mundo – desde que se tenham os dólares necessários para se adquirir os programas de paginação e imagens, cada vez mais acessíveis. Entretanto, com todas as facilidades que essas geringonças cibernéticas proporcionam a editores e diagramadores, ainda assim nunca se fizeram jornais tão mal-acabados, editorial e graficamente, como atualmente. E é justamente a Folha de S. Paulo que vai corroborar esta idéia de jornalismo imponente, superior e arrogante mal-acabado.

Vamos lá: por absoluta falta de criatividade e estreiteza de idéias em resolver problemas de edição seculares, como fazer títulos obedecendo a um determinado limite de batidas (ou toques ou caracteres), o jornal passou a emitir sons (isso mesmo: sons na letra impressa!) estranhíssimos, numa linguagem felina. Não entenderam? Então confiram na edição de hoje, ou de ontem ou de qualquer outra recente da Folha. Lá estarão uns miados engraçados, ponteando uma linguagem econômica (valem os dois sentidos) em suas páginas: quando eles – os editores e redatores – querem dizer “milhões”, eles dizem “mi”. Uma cifra de digamos R$ 2 milhões eles dizem (escrevem) R$ 2 mi – os lhões restantes foram à merda. E o leitor que entenda que o tal de mi significa milhões, como poderia perfeitamente ser entendido como um mil capenga, do qual amputaram o ele final.

Os velhos copidesques (lembram-se deles?) dirão, com um sorriso de galhofa e desprezo, que esta foi a única fórmula encontrada para resolver o problema da titulagem com o número de batidas limitado. Mas, bolas, dispondo de computadores – voltemos a eles – capazes de solucionar o inacreditável há alguns anos, violentar o vernáculo para resolver um impasse que o editor e o redator não conseguiram torna-se um crime maior. Em nenhum dicionário consta que mi seja abreviatura de milhões. Assim sendo, a Folha incorre diariamente em um atentado que a ABI (ou seria a ABL?) deveria punir severamente, assim como um açougueiro é punido por não seguir as normas da higiene pública.

Dois agravantes: o crime não se dá apenas nos títulos, espremidos em espaços limitados, mas no texto, onde a liberdade espacial é muito maior. Pois peguem lá, vez ou outra está nas colunas o tal de mi substituindo os milhões. Vão ser econômicos assim na p.q.p.! E, o que é o pior, a praga do mi está se disseminando por outros jornais. A Gazeta Mercantil assimilou a linguagem do miado sem nenhuma cerimônia. Jornalecos do interior que acreditam que a Folha é a bíblia do jornalismo moderno, assim como o JB (ah, o velho e bom JB…) um dia o foi, também acreditam que estão acompanhando a modernidade abreviando os milhões para mi. E não só os jornais, mas a televisão também já aderiu à bobagem. A tal da Bloomberg, que exibe diversas informações ao mesmo tempo – um(a) narrador(a) narra uma notícia que não tem nada a ver com o que se exibe na tela abaixo e ao lado –, que não enfrenta problemas de limitação de espaço para justificar os miados, é uma delas.

Manchetes do futuro

E se essa licença jornalística (vamos chamá-la assim com um pouquinho de boa vontade) acabar se impondo como uma nova linguagem na imprensa? Vamos ter jornais redigidos no mesmo tom da poesia de Jorge Ben, nos tempos do Patropi: Mó num pa tro pi/ Abençoá por De/ E boní por naturê/Em feverê, tem carná/ Ten um fus e um viô/ Sou Flamen, ten uma nê chamá Terê…

Nesse caso, vamos ver como seriam algumas manchetes da Folha num futuro breve:

Ita cham FH de mentiro

Palm ven Corin de golea

Aciden ma cin na Via Du

(*) Jornalista e escritor