Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A febre das consultorias

HORA DA VERDADE ? 2

Alberto Dines

Trecho de conferência "O papel do jornal" proferida por Alberto Dines (Brasília, agosto de 1994) na abertura do primeiro primeiro evento conjunto ANJ-FENAJ. O título fora escolhido a propósito do livro homônimo, do mesmo autor, cuja primeira edição havia sido lançada 20 anos antes. Da mesma sessão participava um professor da Universidade de Navarra. O excerto abaixo trata da ação dessa universidade na disseminação de consultorias estrambóticas que tanto prejuízo trouxeram aos padrões de qualidade que vinham se consolidando na imprensa brasileira. O problema, portanto, é antigo.

(…) Nunca importaram-se tantos santos milagreiros como agora. E nunca os nossos jornais e revistas estiveram tão distantes dos seus próprios modelos e fórmulas inspiradoras como agora. E aqui chegamos ao caso de Navarra, conforme prometi. Serei breve e ameno para que não se confunda o exercício crítico indispensável ao jornalismo com a imperiosa cortesia que se deve aos visitantes.

Como se fosse uma revelação divina, de repente, surgiu o culto a Navarra. Digo Navarra mas poderia dizer empresa de consultoria Inovación Periodística ou Pointer Institute, que até hoje não sei se Navarra está em Navarra ou deslocou-se para Miami, onde começa uma e acaba outra. Navarra passou a ser uma varinha mágica, um partido político, um country club, uma maçonaria. Navarra é a própria alquimia: contratam-se consultores e os problemas ficam magicamente resolvidos. Navarra converteu a Zero Hora de Porto Alegre em gêmeo do Diário de Notícias, de Lisboa; o vetusto Estado de S.Paulo igual ao popular O Dia, do Rio. Há um colunista mediático que representa Navarra, há um fluxo turístico Brasil-Navarra e há muita gente ganhando muito dinheiro com Navarra. Menos os jornalistas brasileiros, menos o jornalismo brasileiro.

Antes que me acusem de xenófobo deixem-me dizer que considero extremamente oportuno este encontro com o nosso colega de Navarra, o professor Giner, pois assim podemos conhecê-lo pessoalmente e ouvir as suas opiniões. Tenho a certeza de que é um profissional conhecedor do seu métier. Mas no Brasil, se não temos melhores, com certeza temos alguns iguais a ele, com a mesma experiência internacional. Com a vantagem nada desprezível de conhecerem a realidade brasileira e estarem vitalmente comprometidos com a melhoria intelectual do povo brasileiro. Para que fique bem claro que nós brasileiros não fechamos as portas àqueles que vêm de fora ? como acontece hoje na fortaleza chamada Europa ? quero dizer que li recentemente uma entrevista que o nosso ilustre colega de Navarra concedeu em maio à Notícias, de Buenos Aires, em que faz contundentes críticas ao jornalismo contemporâneo que subscrevo inteiramente, especialmente quando afirma que 35% do faturamento de uma empresa jornalística devem ser investidos na redação.

Mas o fenômeno Navarra é uma decorrência das nossas próprias falhas. As nossas escolas de jornalismo transformam-se em fins em si mesmas. O objetivo acadêmico é um só ? fornecer um diploma, habilitar legalmente os formandos ao exercício do jornalismo. Não estão minimamente interessados em habilitá-los tecnicamente. Quando falo em técnica não defendo o empirismo nem me restrinjo aos aspectos mecânicos da profissão: a técnica em jornal pressupõe a ética, acrescida de uma vasta soma de conhecimentos que permitem ao jornalista agir como agente cultural. Nossas escolas são centros teóricos para a formação de teóricos. Há exceções, mas são insignificantes e algumas prejudicadas pela ênfase que dão à politização do currículo. Nossas escolas deveriam ter os seus gabinetes de estudos avançados onde a industria da informação nacional iria buscar projetos para velhos e novos veículos, e onde os profissionais teriam oportunidade para reciclar a sua experiência. Espero que os recém-criados Labjor da Unicamp e o Observatório da Imprensa, de Lisboa, venham a fazê-lo de modo que possamos continuar gozando o privilégio de ter o professor Giner como nosso hóspede mas não Navarra como nosso modelo. (…)

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