Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

A fogueira de vaidades

Rafael Evangelista (*)

Na terça-feira, 8 de agosto, a Folha de S.Paulo publicou um texto de seu articulista, o ex-cineasta Arnaldo Jabor, intitulado "Síndrome de São Paulo cultiva política do bode preto". Nele, Jabor fala sobre o que chama de síndrome de São Paulo, uma corrente ideológica que nasceria do caos urbano paulistano e se alastraria pelos intelectuais do país, consistindo em um "negativismo crônico" e faria com que estes ignorassem "qualquer melhoria no país e no mundo".

Quem leu o artigo de Tom Wolfe, publicado na mesma Folha de S. Paulo no dia 16 do mês anterior, com o título "O império do marxismo rococó", espanta-se com a simples transposição de idéias que Jabor faz. Em seu artigo, Wolfe critica aos intelectuais da esquerda norte-americana, que não reconheceriam ter sido o século XX o século americano. O cidadão comum norte-americano teria alcançado um padrão de vida nunca antes imaginado e a esquerda insistiria em tomá-los como vítimas do capitalismo. Segundo Wolfe, para ser um intelectual nos Estados Unidos bastaria falar mal de tudo sem entender de nada, opinar sobre todos os assuntos menos sobre sua área de atuação. Algo parecido com o negativismo crônico de que fala Jabor.

O irônico é que, quando pensamos em alguém que faça esse papel no Brasil, a primeira figura que vem a mente é a de Arnaldo Jabor. Jabor foi um cineasta produtivo nos anos 70 e 80, mas que se aposentou nos anos 90, junto com a Embrafilme. Nesse período, passou a dedicar-se ao "jornalismo", falando sobre qualquer assunto e defendendo as "reformas" de FHC na Rede Globo e na Folha de S.Paulo.

Para provar seu argumento, Tom Wolfe recorreu a diversas incorreções na interpretação da história do século 20. Jabor, por sua vez, recupera, de maneira distorcida, um pensamento sociológico muito propagado no início do século, que atribui o nosso subdesenvolvimento à herança cultural ibérica e deslumbra-se com a eficiência da ética protestante. Vale a pena recuperar aqui alguns trechos do artigo de Jabor para melhor analisá-lo.

Logo no início, São Paulo, local de nascimento do que chama de "política do bode preto", é descrita como cidade com "falta de uma cultura popular rica, de um proletariado sem raiz, mera mão-de-obra sem tradição, [..] de uma educação superior desenvolvida, mas sem o tempero da vida, sem o jogo de cintura que baianos e cariocas têm…". Nessa caracterização, Jabor opõe cariocas e baianos a paulistas, retomando a construção de um caráter nacional cheio de ginga e alegria de viver, bastante trabalhado durante o Estado Novo e posteriormente durante o regime militar. Logo em seguida, afirma que os paulistas têm um "preconceito desconstrutivo e desconfiado com relação ao resto do país". A afirmação de que em São Paulo não há uma "cultura popular rica", mistura o enaltecimento do samba a um legado amorfo da Escola de Frankfurt, fazendo a oposição de uma cultura popular rica/erudita a outra pobre/popular.

Em seguida, ao criticar o desejo, que estaria presente nos intelectuais, de que a crise se aprofunde para que tenhamos um "marco zero político", Jabor repete o discurso que é exaustivamente veiculado desde a queda do muro de Berlim: "não há mais a luta de classes – a burguesia internacional venceu". O que ele ignora, por praticar a sociologia simplista que critica, é que a luta de classes é algo inerente ao capitalismo e que ela não significa uma briga acontecendo na rua entre burgueses e proletários, mas a existência de interesses antagônicos. Para entender Marx, não basta fazer citações esparsas ao longo do texto, como Jabor o faz, esbanjando uma erudição de manual.

O pessimismo e a desesperança que Jabor vê no pensamento dos intelectuais está presente em seu próprio texto, disfarçado de pragmatismo e cheio de sentimento de inferioridade. Para ele, o Brasil perdeu a chance de ser autônomo no século XIX e agora só restaria uma possível "interdependência digna". No entanto, acreditar em interdependência é ingenuidade (para não dizer pior). Não há interdependência possível, só há dependência. Para Jabor, restaria espaço apenas para projetos "nacionais, administrativos, técnicos possíveis", ingenuidade típica de quem acredita que a tecnocracia é uma esfera apolítica e desinteressada.

O imaginário da inferioridade do Brasil perante outros países, que se manifesta no Jabor, aparece mais claramente no seguinte trecho: "A globalização tem um lado bom, pois provoca uma invasão bem-vinda: um pouco da ética anglo-saxônica para combater as bases sórdidas da herança portuguesa". Na verdade, Jabor clama por branqueamento para esse povo preguiçoso – como ele mesmo qualifica na frase seguinte –, assim como fizeram alguns intelectuais no início do século.

Ao contrário da tese de Jabor, o problema não está naqueles que mantém uma atitude de permanente ceticismo e desconfiança com os ‘rumos maravilhosos’ que vem tomando o processo de globalização. Os intelectuais poderiam contribuir muito mais para a definição de um caminho mais favorável para o Brasil se suas vozes não fossem tão fracas perante o discurso dominante da junção governo/mídia.

Quando Paulo Francis morreu, em meados da década de 1990, a Folha de S.Paulo e a Rede Globo parecem ter procurado um substituto para sua figura polêmica e provocativa. Arnaldo Jabor acabou ocupando esse espaço com as intervenções no "Jornal da Globo", a coluna na Folha de S. Paulo e a participação no "Manhattan Connection". Talvez neste artigo Jabor esteja elegendo Tom Wolfe para ocupar a posição que era de Gore Vidal para Francis. Com a diferença de que o último nunca se apropriou de textos alheios e escrevia com muito mais auto-ironia, erudição e senso crítico.

(*) Antropólogo, e-mail: rae34@uol.com.br

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