Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A guerra da contra-informação

NOVIDADES NA FRENTE

Vera Chaia (*)

A qualquer momento em que ligamos a televisão podemos acompanhar "ao vivo" as ações da guerra e, também, as declarações de porta-vozes de todas as forças envolvidas no conflito militar. O que mais tem caracterizado esta guerra são os desencontros das informações, daí podermos afirmar que esta é uma guerra da contra-informação.

Esta situação se reflete na cobertura jornalística da imprensa brasileira. Nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S.Paulo, as matérias se preocupam em veicular as informações sobre a guerra, confrontando-as e dando pistas para o leitor desconfiar das notícias. Como exemplo podemos citar a edição do Estado de S.Paulo de 26 de março de 2003, que traz na página A 19 do caderno especial sobre a guerra a foto de uma criança andando sobre destroços de um prédio. E a legenda diz: "Crianças caminham por edifício que, segundo as autoridades de Bagdá, foi destruído pelo bombardeiro". Este cuidado do texto apontando possível dubiedade do autor da ação se faz com um produto do fotógrafo Faleh Kheiber, da agência de notícias Reuters.

Outro exemplo de dúvidas lançadas sobre as informações de guerra encontra-se na cobertura diária da Folha de S.Paulo. Ao fornecer dados sobre as baixas de civis e militares, este veículo diferencia a visão anglo-americana da iraquiana, apontando discrepâncias acerca dos números gerados pelos dois lados num quadro cujo título é "Guerra de informação".

Apesar das dificuldades enfrentadas em discernir a veracidade das informações, partes da imprensa brasileira e da internacional querem transmitir todos os lados da questão, e é exatamente este esforço da imprensa escrita que assegura matérias e artigos de jornalistas e especialistas compondo e aprofundando os diversos ângulos da guerra contra o Iraque.

Imagens confundem…

Também vale considerar que estas informações discrepantes fornecidas por autoridades dos dois lados são propositais, utilizadas como arma para confundir o inimigo. Trata-se da manipulação como estratégia da guerra da contra-informação. As coletivas e entrevistas dos principais atores políticos envolvidos no conflito fazem parte deste processo da guerra. A presença de Tony Blair, George W. Bush, do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, de porta-vozes do Pentágono e outros, servem para tentar convencer-nos da veracidade de suas falas. O mesmo pretendem as declarações dos militares iraquianos com suas entrevistas e declarações sobre o desenrolar da guerra.

As informações que circulam na mídia não batem. Os atores produzem, muitas vezes, dados desconexos, sem especificações. Às vezes as entrevistas transmitidas pelas emissoras de televisão são interrompidas abruptamente, sem maiores explicações. Esta estratégia da contra-informação vem sendo utilizada pelas autodenominadas forças de coalizão, e foi estabelecida, previamente, antes da invasão do Iraque.

No jornal O Estado de S.Paulo, em artigo assinado por Gabriele Chwallek, a jornalista afirma que os "EUA montam estratégia especial para a imprensa", mostrando a preocupação dos EUA com o fato de os meios de comunicação precisarem se "abastecer" nas "fontes corretas", difundindo a "verdade". As embaixadas americanas também recebem "informações apropriadas" do Centro de Informações alocado em Washington, Londres e Paquistão e devem reproduzir certas informações veiculadas por este centro.

No artigo de Robert Fisk "Como as notícias serão censuradas nesta guerra", publicado por The Independent em 2/3/03, o correspondente afirma que os "empresários americanos de mídia" aprovaram a participação de jornalistas que trabalham para os grandes veículos de informação nas zonas de guerra. Esses jornalistas foram incorporados aos "marines e à infantaria" americana para cobrir a guerra, obedecendo às resoluções do Pentágono e transformando-se em porta-vozes da Casa Branca e do Pentágono. O jornalista cita o documento "Memorando da política de aprovação do original" (Reminder of Script Approval Policy), da CNN, instrumento para aprovar todas as matérias e as imagens, antes de estas irem ao ar.

O presidente da ABC News David Westin, num artigo de Jim Rutenberg publicado no Estado de S. Paulo (21/3/03), afirmou que "(…) imagens às vezes podem confundir. Na verdade, podem superestimar uma história assim como subestimar". Portanto, a autocensura das emissoras e dos veículos de comunicação americanos já estavam preparados para cobrir a guerra contra o Iraque ao seu modo, preservando a imagem das forças aliadas e não divulgando informações que pudessem prejudicar o moral das tropas e do povo americano.

al-Jazira atacada

Para compensar esta dificuldade em obter informações mais objetivas e mais isentas nesta guerra, deve-se procurar acessar outras fontes. A internet surge como um campo de informações mais abrangente, porque nela circulam desde sites que pregam a guerra e defendem a política norte-americana, até ONGs pacifistas que pregam a não-violência e veiculam artigos contra a guerra, com denúncias de abusos feitos por militares de ambos os lados .

A internet permite acesso direto aos acontecimentos nas áreas de conflito. Podemos assistir online aos problemas enfrentados pelos iraquianos e pelas tropas anglo-americanas. Caso queiramos acompanhar 24 horas por dia, é só buscar alguns sites em que veremos os soldados em conflito e os mísseis sendo lançados. Conforme já observado por alguns analistas, esta guerra se transformou em verdadeiro reality show.

A internet, enquanto espaço virtual, ou ciberespaço, também nos permite acompanhar e participar de manifestações, engrossar abaixo-assinados, protestar contra a guerra e saber os horários das passeatas organizadas por comitês pela paz. É um espaço aberto a todas as manifestações, inclusive com a atuação de hackers que invadem sites e introduzem informações incorretas, além de inviabilizar o acesso a determinadas páginas. Foi o que aconteceu com os sítios em árabe e inglês da televisão al-Jazira, do Catar, que teve seu domínio invadido e retirado do ar.

Milhões negligenciados

O uso intensificado da internet por parte da sociedade é uma das novidades deste conflito, pois na Guerra do Golfo de 1991 a internet não era acessível a boa parte dos atuais internautas. Naquele ano, as únicas fontes disponíveis eram da CNN, que tinha um posto de transmissão no Iraque e no Kuwait, e era detentora das imagens televisivas; pela sua lente e sua edição é que o mundo acompanhava as reportagens dos jornalistas Peter Arnett e Bernard Shaw.

Agora, nesta nova guerra, a hegemonia jornalística da CNN foi quebrada. Os países árabes investiram muito em tecnologia para abrir espaço para que suas vozes e suas imagens fossem captadas, via satélite, em várias partes do planeta. As redes de televisão árabes trouxeram algo de novo a este conflito. Além da al-Jazira, ainda a maior rede do mundo árabe, também se destacam as emissora al-Manar, do grupo Hesbollah libanês, a LBC, canal libanês captado via satélite, a Nile Sat, canal egípcio estatal por satélite, al-Arabyia, canal saudita por satélite com redação central em Londres, al-Alam, canal iraniano em árabe, e Abu DabiTV, a TV dos Emirados Árabes que se tornou a segunda em influência no mundo árabe.

Quando os repórteres da CNN foram expulsos do Iraque, logo após os primeiros bombardeios a Bagdá, a cobertura da guerra ganhou outro ritmo, e os logotipos das emissoras árabes passaram a ser vistos pela televisão ocidental. As imagens de soldados americanos mortos e capturados pelas forças iraquianas foram transmitidas pela TV do Iraque e posteriormente pela al-Jazira que as mostrou, via satélite, ao mundo todo.

A veiculação destas imagens provocou reação das autoridades americanas, que apelaram ao respeito às resoluções da Convenção de Genebra e também "solicitaram" que as emissoras americanas não transmitissem as cenas, para não chocar a opinião pública americana. Prontamente as emissoras obedeceram e incorporaram, mais uma vez, a necessidade da cobertura patriótica, exaltando os feitos dos soldados americanos e reforçando a aprovação da guerra e do governo de George W. Bush.

As manifestações contra a guerra ocorridas em todas as partes do mundo não foram amplamente veiculadas pelas emissoras americanas. Tive oportunidade de acompanhar em Madri uma grande passeata contra a guerra, realizada em 15 de fevereiro, e que contou com a presença de mais de 1 milhão de pessoas. A TVE, emissora estatal, mostrou poucas imagens da passeata, enquanto uma televisão privada transmitiu e acompanhou todas as movimentações do evento político. Em diferentes oportunidades, os espanhóis se posicionaram contra a guerra e criticaram abertamente o primeiro-ministro José Maria Aznar, que apoiou a guerra contra o Iraque, colocando-se ao lado de Bush e Tony Blair. A passeata foi organizada por vários setores da sociedade, englobando artistas, ONGs, partidos políticos, centrais sindicais e organizações estudantis. A última fileira da passeata era formada por jornalistas espanhóis, que criticaram a participação da Espanha na guerra.

Jornalistas "embedded"

Outro aspecto novo nesta guerra: o jornalista Gilles Lapouge ? correspondente do Estado de S.Paulo, em artigo intitulado "Velhos generais tomam de assalto as telas das televisões francesas" (26/03/03), descreveu um fato inusitado na França: velhos militares, participantes da Segunda Guerra Mundial e de outros conflitos, entrevistados pelas emissoras, afirmam o óbvio e reproduzem, segundo o jornalista, "despachos das agências internacionais". Ironicamente, Gilles Lapouge interpreta que a presença destes militares os deixa felizes.

Também podemos notar, no caso da cobertura brasileira, a presença de militares da ativa e reformados, entrevistados por várias emissoras de televisão, como "estrategistas militares". Podemos destacar a cobertura da Globo News que, além de especialistas em relações internacionais, convida militares para esclarecerem estratégias e táticas utilizadas pelas tropas iraquianas e pelas tropas anglo-americanas. Alguns convidados: o general reformado Leônidas Pires Gonçalves, ministro do regime militar, que abordou a estratégia militar na guerra; o tenente-coronel André Luis Novaes, ainda na ativa, faz parte de um grupo de estudos da Escola de Comando do Estado Maior do Exército (Eceme); o comandante Adalberto Souza Filho, especialista em planejamento estratégico da Escola Superior de Guerra (ESG) que, além de analisar a Guerra do Golfo e apontar erros estratégicos, disse, perguntado por uma âncora da emissora, que a questão da Amazônia é crucial para o Brasil; o general Sérgio Morgado, consultor do Centro de Estudos Estratégicos da Eceme, também analisou as estratégias das forças de coalizão. Os militares entrevistados se posicionaram claramente contra a guerra e contra as forças de coalizão por terem desrespeitado as resoluções da ONU.

O que mais impressionou nestas entrevistas foi a manifestação de posições claramente nacionalistas, apesar das ligações históricas com os EUA. A formação de boa parte de nossos militares se deveu aos americanos, que treinaram oficiais em escola mantida pelos EUA, até pouco tempo atrás, no Panamá [criada em 1946, a Escola das Américas está hoje no Fort Benning, em Columbus, Geórgia]. A doutrina americana da contra-insurreição foi amplamente absorvida pelos militares latino-americanos para combaterem a esquerda, nos regimes militares. Uma missão de assistência americana ajudou na criação e na formatação da própria ESG.

Para concluir, podemos afirmar que a cobertura desta guerra traz algumas novidades, como a presença da internet enquanto fonte alternativa de informações, a presença das emissoras árabes de televisão, os jornalistas americanos incorporados ("embbeded") às forças americanas, os militares brasileiros entrevistados pelos meios de comunicação como estrategistas, a guerra da informação e especialmente a contra-informação como característica marcante, que diferencia esta da 1? Guerra do Golfo.

(*) Professora do Departamento de Política e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp) da PUC-SP