Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A melhor do mundo?

TV BRITÂNICA

Beatriz Singer

Sete jornalistas estrangeiros que vivem na Inglaterra foram chamados para comentar a TV britânica e compará-la com a TV produzida em seus países de origem. O resultado, publicado no Guardian de 19 de novembro, reúne a opinião de jornalistas do Brasil, EUA, Serra Leoa, Índia, Austrália, Japão e França.

Dois comentários se destacam por apresentar um abismo incomensurável entre a TV do país de origem e a britânica. Em Serra Leoa há apenas um canal, o Sistema de Transmissão de Serra Leoa, que pertence ao Estado. O noticiário, de acordo com Ibrahim Shaw, editor do Expotimes.net, sítio que cobre a Serra Leoa e a África, é muito parecido com o britânico.

"O que me surpreendeu quando vi a televisão britânica pela primeira vez foi a quantidade de assuntos correntes em comparação com os da TV de meu país", afirma Shaw. Além disso, o jornalista elogia o destaque dado a notícias internacionais e o nível dos documentários. "Enquanto os do Reino Unido falam bastante de assuntos históricos e sociais, os documentários da emissora de Serra Leoa quase só mostram os horrores da guerra."

Há uma década, a situação de Serra Leoa seria a mesma na Índia. Mas recém-libertada do monopólio estatal do canal Doordarshan e da taxa de licença que sustentava esse monopólio, a indústria da TV na Índia cresceu na última década. Apesar disso, Doordarshan permanece à frente como a maior emissora nacional e, diferentemente da BBC, não dá de ombros à guerra comercial, uma vez que se viu forçada a mudar de postura por causa de canais independentes.

Prem Prakash, correspondente da Asian News International, diz que seu povo tem um grande poder de distinção entre notícias e propaganda política, devido à longa experiência originada nos tempos coloniais. "Hoje, a Doordarshan não é mais a única fonte", diz. "O canal estatal teve de mudar para mostrar uma abertura maior em seu noticiário e em seus programas de atualidades."

De qualquer forma, o jornalista se diz impressionado com a excelência da TV britânica na cobertura de eventos ao vivo e em shows que demandam participação do público. Pelo menos a TV da Índia, com democracia em crescimento, terá chance de se desenvolver de forma saudável. E se for para adotar um padrão, que seja o de sua ex-metrópole.

O Brasil responde

Para representar o público brasileiro, o Guardian convidou Gianni Carta, correspondente da CartaCapital na Europa. "Diga a um brasileiro que alguns críticos têm afirmado que a TV britânica está baixando seu nível e ele vai rir", afirma Carta. "É preciso ?baixar muito mais o nível?, dirá."

Está além da capacidade de qualquer brasileiro, segundo Carta, compreender como documentários sobre história e natureza possam ocupar o horário das 21h na BBC1 e na ITV1. "Os brasileiros deveriam aprender com os britânicos, particularmente com a BBC, como transmitir notícias", diz o jornalista.

Comparar a TV britânica com a brasileira é pôr um Rolls Royce ao lado de um Trabant. "Quando era correspondente de Londres para a CBS Telenotícias, meu editor de Miami costumava dizer que ninguém faz TV como os britânicos", conta Carta. E quando se fala de noticiário e documentário, os ingleses são imbatíveis, deixando os americanos no chinelo. Carta conta que trabalhou com americanos de 1996 a 1999 e, durante esse tempo, percebeu quão patrióticos podem ser. "É só ver como âncoras e repórteres dos EUA estão envolvidos na cobertura da guerra no Afeganistão. Parecem comentaristas de futebol brasileiros."

Mas nem só de elogios à TV britânica se ateve o jornalista brasileiro. "O horário nobre parece quase morto neste país. O Channel 4, por exemplo, não exibe mais Família Soprano e The West Wing [transmitidos, no Brasil, pela HBO e pela Warner, respectivamente] nos horários de pico", afirma.

Visão patriótica, olhos cegos

Embora a maioria dos comentaristas tenha dito que o grande problema atual da TV britânica é a americanização que sistematicamente vem sofrendo, o único jornalista convidado a escrever ao Guardian que prefere a TV de seu país de origem é, ironicamente, americano. Trata-se da jornalista Sarah Lyall, correspondente em Londres do New York Times.

"Considere as opções da TV inglesa às 20h em uma sexta-feira, período de grande audiência após uma semana cheia e cansativa", diz Sarah. "Após zapear inutilmente de estação em estação, desligamos a TV". A americana diz que talvez a TV não sirva para pessoas como ela hoje em dia.

Claro que não serve. E isso é muito bom. Se o padrão máximo de uma emissora for pautado pela televisão com a qual americanos estão acostumados, o Brasil está quase no topo ? e sabemos que isso está longe de ser verdade no mundo real. Sarah, como muitos brasileiros, assiste à TV britânica e acha tudo muito "chato", "parado". Está acostumada com o ritmo frenético e videoclíptico de Hollywood. Gosta do enlatado sem surpresas. Pensa em chegar em casa na sexta-feira, jogar-se no sofá com um "TV-dinner" no colo e assistir a um programa que já sabe exatamente como terminará e que em algumas horas terá se perdido nos poços do esquecimento. Por isso desliga a TV, com a mesma irreverência e o mesmo tédio de uma criança de 10 anos que desiste, em minutos, de ler Marguerite Duras. A diferença é que a criança ainda pode ser educada…

"As pessoas sempre me falam que a TV britânica costumava ser boa, mas não é mais. Não sei se isso é verdade, mas surpreende-me que este país de ótima cultura e erudição apresente atrações na TV tão baratas e sem sentido", diz Sarah. Em primeiro lugar, há um equívoco fortemente embutido na cultura americana e difundido por suas "colônias", entre elas o Brasil: o de que programas baratos são ruins. A valorização das superproduções é tipicamente hollywoodiana e ganhou adeptos por aí, inclusive Sarah. Quanto maior for o investimento em um programa, quanto mais trabalho de produção exigir, melhor ele é. "Não que a TV em minha terra seja muito melhor. Estou ótima longe daquelas sitcoms americanas, dos filmes produzidos para TV e de comerciais escandalosos", afirma Sarah. O problema, diz, é que não há opções suficientes. "Nos EUA, com tantos canais, só alguém de temperamento muito ruim não acharia algo a que assistir."