Thursday, 22 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

A mulher de César não fuma maconha

CASO SONINHA

Paulo José Cunha (*)

Um apresentador de televisão não é apenas um suporte para a transmissão de informação, como pode parecer à primeira vista. Um apresentador de televisão é a própria informação, um modelo de comportamento, uma referência. Seu valor de mercado é medido pelo que simboliza do ponto de vista de sua credibilidade. Daí porque faz sentido, embora seja polêmica, a decisão da TV Cultura em demitir Sonia Francine, a Soninha, apresentadora do programa RG, que reconheceu publicamente na revista Época o uso eventual de maconha.

Antes que gabeiras, joões boscos, max fivelinhas, cissas e astrids fontenelles caiam de pau em mim (que, particularmente, sou a favor da descriminação da canabis e contra a discriminação de quem fuma), é salutar um exame da questão de forma absolutamente isenta. Em primeiro lugar, é preciso não confundir opinião com ação. Todo jornalista tem o legítimo e constitucional direito – como, de resto, qualquer cidadão brasileiro – de ser contra ou a favor da maconha, do aborto, da eutanásia. Pode manifestar essa opinião publicamente, expressando ponto de vista pessoal ou da empresa em que trabalha. Até aqui estamos no terreno da opinião.

Agora, vamos à ação. Até prova em contrário, o uso da maconha e a prática do aborto ou da eutanásia são crimes capitulados na legislação vigente. Portanto, antes que a lei seja revogada ou modificada, qualquer usuário de maconha ou praticante de aborto ou de eutanásia está sujeito às punições previstas na legislação. Absurdo? Pode até ser, mas é a lei, e lei a gente cumpre. Se discordar, luta pra derrubar, pra modificar mas, enquanto está em vigência, a lei deve ser obedecida, sob pena de se jogar para o alto todo o equilíbrio dos poderes constituídos e terminarmos no anarquismo (que, aliás, é uma).

Um apresentador de televisão não é um ventríloquo. Parece mais um outdoor. Informa tanto pelo que afirma como pelo que veste, pela forma como se penteia, como pronuncia as palavras, pela escolha dos adereços que usa. Por isso, a não ser em nichos específicos ? programas para jovens ?, encontram-se apresentadores de telejornais usando piercings ou, sei lá eu, o cabelo pintado de vermelho, por exemplo. O Bóris Casoy, o William Bonner, o Heródoto Barbeiro, o Hermano Henning, ou até mesmo a Hebe, o Faustão ou a Marília Gabriela se vestem, falam e se penteiam daquele jeito meio caretão porque têm de parecer sóbrios, condição essencial para a sua emissora atingir a maior fatia de público e gozar de cre-di-bi-li-da-de, primeiro atributo exigido pela audiência e pelos anunciantes. Portanto, não podem estar atrelados a partidos políticos ou causas polêmicas. Não podem estar envolvidos em escândalos. Suas vidas particulares, sobretudo no caso da televisão, onde impera o regime do star-system, estão regidas pelas mesmas regras que vigem na sua atividade profissional, uma vez que tudo o que dizem ou fazem fora da tela tem implicações diretas na imagem que transmitem quando estão dentro dela. Têm função pública, exercem influência pelo poder de que desfrutam.

Cerceamento de liberdade? Sim, mas é uma exigência da função. Assim como a um enólogo não é permitido fumar, mesmo que o uso do fumo seja liberado. Embora este cerceamento pareça uma outra espécie de crime, é bom saber que ninguém é obrigado a ser apresentador de televisão. Se resolve ser precisa obedecer às regras, inclusive as que incidem sobre o comportamento que deve ter fora do ar.

Quando Marshall McLuhan escreveu que o meio é a mensagem pensava principalmente na televisão, onde forma e conteúdo se confundem. Onde "quem" fala é tão ou mais importante do que "o que" e "como" se fala. O meio, a mensagem e seu emissor, embora não sejam, "aparentam" ser a mesma coisa. Não foi por outra razão que a Xuxa correu a retirar das prateleiras antigos filmes semipornôs em que atuou na juventude quando decidiu ser apresentadora de programa infantil. Podia até nem ser, mas precisava parecer a Mulher de César.

Pedir divórcio

Por todas essas razões, a decisão da direção da Cultura não deveria surpreender. Está perfeitamente enquadrada no que, contratualmente ou não, é permitido ou proibido a um profissional de vida pública. O único aspecto que ainda comporta discussão é a dose da punição, não suas razões. O deputado Barreto Pinto não foi cassado por ter defendido o uso de cuecas em público, mas sim por ter-se deixado fotografar de cuecas pela revista O Cruzeiro. O deputado Fernando Gabeira, bravo defensor da legalização da maconha, sentou a lenha na direção da Cultura, ameaçando até ir buscar apoio com o presidente e Dona Ruth para que Soninha seja readmitida na emissora. É capaz de ter sucesso.

Mas ele próprio não é bobo de se deixar filmar ou fotografar fumando um baseado, pois sabe perfeitamente que, se o fizer, estará sujeito a processo por perda de decoro parlamentar. Das figuras públicas, mesmo em ações particulares, exige-se comportamento condizente com a função exercida.

Apresentador de televisão, político ou quem quer que exerça função de natureza pública é como a mulher de César. Se quer continuar como primeira-dama, deve obedecer às regras. Se não quiser, é só pedir o divórcio.

(*) Jornalista, pesquisador, professor de Telejornalismo, diretor do Centro de Produção de Cinema e Televisão da Universidade de Brasília. Este artigo é parte do projeto acadêmico “Telejornalismo em Close”, coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <upj@persocom.com.br>