Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

A opinião é mesmo pública?

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NÚMERO-NOTÍCIA

Muniz Sodré (*)

Mais uma vez, a imprensa diária apresenta ao público os resultados de uma última pesquisa de opinião sobre a popularidade do presidente da República. E pelo visto, o nosso chefe do Governo pode respirar alguma melhora: uma porcentagenzinha a mais. Mas que importância real tem esse tipo de aferição da opinião "pública", cada vez mais rotineiro nas tecnodemocracias ocidentais? Não seria esse tipo de inquérito um abstrato fenômeno de mídia?

Bem, o fato é que, seja à esquerda ou à direita, a adesão consciente do cidadão à normatividade da Ordem é, como se sabe, decisiva para a estabilização das formas contemporâneas de poder. E a mídia assume aí um lugar estratégico. Capitaneada pela televisão, move-se no quadro de um "democratismo" de escolhas binárias (o sim e o não das sondagens ou pesquisas de opinião), influindo normativa e sensorialmente no que diz respeito a costumes, hábitos e juízos de valor circulantes num grupo social determinado.

A ela articulam-se as pesquisas de opinião, reforçando um campo imaginário (com foros de ciência política) denominado "opinião pública", que tendencialmente substitui o discurso político-representativo tradicional por outro de natureza plebiscitária, afim a uma suposta democracia direta.

Não é nada novo o conceito de opinião pública ? produto ideológico direto da Revolução Francesa. Resultado totalizante das opiniões individuais da cidadania, ele legitimava-se como uma espécie de substrato ético e apresentava-se como uma entidade moral e fiscalizadora dos três poderes institucionais da República. Mas só a partir dos anos 30 no século 20 é que os franceses introduzem este conceito no discurso da ciência política, dando margem ao surgimento da medida estatística do substrato coletivo, administrada por institutos de pesquisa. A disseminação dos métodos de modelagem matemática da opinião é, no entanto, um fenômeno norte-americano.

"Fantasia desejável"

Essa "opinião" é instrumento de um novo regime de visibilidade pública e, portanto, um novo tipo de controle. Tende a não ser mais do que pura imagem ou objeto inexistente: "(…) Na realidade, o que existe não é a ?opinião pública? ou mesmo ?a opinião avaliada pelas sondagens de opinião?, mas, de fato, um novo espaço social dominado por um certo número de agentes ? profissionais das sondagens, cientistas políticos, conselheiros em comunicação e marketing político, jornalistas etc. ? que utilizam tecnologias modernas como a pesquisa por sondagem, computadores, rádio, televisão etc.; é através destas que dão existência política autônoma a uma ?opinião pública? fabricada por eles próprios, limitando-se a analisá-la e manipulá-la e, em conseqüência, transformando profundamente a atividade política tal como é apresentada na televisão e pode ser vivida pelos próprios políticos" [Champagne, Patrick. Formar a Opinião ? o novo jogo político, Vozes, 1988, pág. 32.]

Isso que se vem chamando de "novo" jogo político já existe há bastante tempo. "Há mais de 70 anos, Walter Lippmann, um importante jornalista de seu tempo, em seu livro Public Opinion, desconfiava das afirmações de que os cidadãos baseiam suas decisões políticas e sociais no estudo objetivo dos fatos pertinentes. A maioria das nossas decisões se baseia no que ele chamou de ?imagens em nossas cabeças?, isto é, percepções e preconceitos estanques. A idéia de uma opinião pública informada decidindo questões e ações, disse ele, é, em grande parte, uma fantasia desejável; a tarefa de dirigir o país é realizada pelas elites", comenta Dizard [Dizard Jr., Wilson. A Nova Mídia ? a comunicação de massa na era da informação, Zahar, 1998, pág. 51-52].

Isto significa que "a opinião pública não existe", conforme têm sustentado sociólogos como Pierre Bourdieu, Patrick Champagne e outros? O que dizer então da convicção de sérios analistas da política norte-americana de que o impeachment do presidente Bill Clinton, em virtude do escândalo sexual com uma estagiária da Casa Branca, teria sido evitado apenas pelo peso da opinião pública?

Vontades individuais

É por demais complexa e obscura a trama dos acontecimentos, mas pode-se levar principalmente em consideração as afirmações de outra linha séria de analistas (dentre os quais a própria primeira-dama do país) no sentido de que a tentativa de impeachment foi de fato um quase golpe de Estado manobrado por facções direitistas. Assim como no caso do término da guerra do Vietnã, as determinantes do resultado final ocorreram nos bastidores do poder, na forma dos velhos arcana imperii ou segredos de Estado.

Na verdade, o controle estatístico da cidadania pelas sondagens (a organização do questionário para as entrevistas induz respostas e produz um pseudo-fenômeno político), canaliza e orienta certas disposições preexistentes ou latentes (um ethos; uma atmosfera afetiva e moral, portanto) convertendo-as virtualmente em opinião "política".

Não há dúvida de que a "opinião pública" existe, mas como uma estratégia de buscar o que de algum modo já se tem. E nas campanhas políticas, o eleitoralismo resultante termina levando à convicção de que democracia seria pura soma de vontades individuais ? a exemplo da escolha "democrática" na esfera do consumo ? em vez do equilíbrio real de forças entre interesses de grupos divergentes.

Oscilação espasmódica

Hoje, de fato, a política (progressivamente autonomizada em face de outras práticas sociais e dissociada da antiga esfera pública) tende a ser vivida virtualmente ou de modo espasmódico pelos cidadãos, ao sabor de gostos e humores idiossincráticos, como fato de mentalidade e costume, sem que as causas ou as questões públicas tenham maiores conseqüências para a sociedade como um todo. Tecnicamente, tudo isso redunda numa espécie de know-how que os especialistas chamam de "americanização das campanhas": o predomínio das aparências políticas criadas por um marketing que não dispensa radiodifusão, internet, editoração eletrônica e softwares de gerência de bases de dados. A palavra-chave é, aqui, "foco político" ? transformar o candidato na imagem e na mensagem que os eleitores adorariam "consumir".

O que na esfera política se experimenta como puro ethos é absorvido por todas as técnicas de consenso e controle que confluem para a mídia. O que a imprensa escrita poderia realmente dizer a seus leitores é que o resultado da pesquisa sobre a popularidade do presidente pode refletir apenas uma oscilação espasmódica ou momentânea do gosto (mais estético do que ético ou político) da amostragem da pesquisa, assim como as cotações da Bolsa podem oscilar devido a rumores ou boatos, sem ligação real com o estado da economia.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ

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