Thursday, 22 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

A supervalorização do ninguém

CONFETE & SERPENTINA

Nelson Hoineff (*)

Quando um artista importante como Gerald Thomas utiliza sua coluna inteira do Jornal do Brasil para desancar uma promoter que negou para seu amigo um convite para o camarote da Brahma, no desfile das escolas de samba do Rio, então há alguma coisa de errado. Errado com Gerald, errado com a promoter. Mas errado sobretudo com o que torna possível uma inversão tão grande de posições.

É difícil acreditar que os leitores não se espantem com o tipo de cobertura que a imprensa passou a dispensar a esses guetos de artistas de novela e jogadores de futebol emoldurados por modelos e aspirantes às três coisas. Isso não pode ser tão importante a ponto de ocupar tantas colunas (exceto as mais sérias) de virtualmente todos os jornais.

O quadro não tem, nem de longe, a alegria de uma escola de samba. Quando se depara com um punhado de pessoas, as mesmas pessoas, de nariz empinado, expostas em tantas páginas inteiras, full color, é quase impossível acreditar que não se trate de um movimento de paródia coletiva. Um Monty Pyton, um Saturday Night Live temperado pelo samba. Quem são essas pessoas, o que querem dizer essas legendas, qual a importância que isso pode ter para o leitor?

O destaque dado às autoridades, aos grandes empresários, esse é tradicional num tipo de colunismo forjado para atender aos interesses diretos dos donos dos veículos ? e que na maioria das vezes nem se reporta à redação, mas ao segundo andar. Isso é legítimo, tem feito grandes colunistas e é possivelmente tão antigo quanto os próprios jornais: representa uma espécie de reserva especial para a reverência que, por esse mecanismo, fica bem longe do miolo editorial. Melhor assim. O leitor sabe onde vai encontrar a informação e o personagem sabe onde vai encontrar sua fotografia. As vaidades e os agrados estão resolvidos e estamos conversados.

A transformação de camarotes de carnaval em centros de recebimento de empresários é fato relativamente novo e igualmente legítimo. Foi desenvolvido por um empresário atento, Mauricio Mattos, que fez fortunas com seu Rio, Carnaval e Samba e certamente gerou negócios dezenas de vezes maiores que o dinheiro que ganhou. Muitos outros empresários utilizam os seus serviços ou fazem o mesmo em escala menor, transformando a atração das escolas de samba numa atraente oportunidade de negócios. Isso é bom para todo mundo.

Poderes extraordinários

A intermediação exacerbada do colunismo é que, no nível em que está colocada, subverte tanto os valores do carnaval quanto a função dos jornais. No primeiro caso porque, morfologicamente, fotos lambe-lambe de socialites ou ilustres desconhecidos com camisetas de cervejarias acabaram tendo mais espaço nos jornais do que as escolas de samba do segundo e terceiro grupo e os blocos de rua, tudo junto. No segundo, porque ao se afinar tão intimamente com ações de marketing das grandes empresas os jornais acabam estabelecendo com os promotores e interessados nestas ações um tipo de relação que não se pode considerar exatamente saudável.

O desfile das escolas de samba é certamente o mais belo espetáculo que se produz neste país. É até muito bom, para toda a cidade, que ele tenha absorvido e substituído o carnaval de rua. Em contrapartida, a exibição das escolas tornou-se, nos últimos anos, um espetáculo feito para as elites ? voltado para os camarotes e não para as arquibancadas da Marquês de Sapucaí. Não se pode contestar uma situação de fato com essa força, assim como não se pode ir contra a evidência de que o futebol, outra grande expressão cultural brasileira, transformou-se em produção de conteúdo para a televisão.

Assistir a esse notável espetáculo em camarotes com ar condicionado, comida farta, chope gelado em alguns casos e champanhe em outros, é um prazer extraordinário. Tive eu mesmo esse privilégio, e na própria Brahma. Desfrutando de sua cerveja, vi belas modelos passarem ao meu lado, encontrei muitos amigos do cinema e conversei com vários colegas da televisão. E, no entanto, nem por um momento tive dúvida de que o grande espetáculo não estava lá dentro, mas do lado de fora.

Pessoas extremamente inteligentes, como Gerald Thomas, parecem ter tido essa dúvida, assim como várias outras que acabaram estimuladas pela polêmica que ele criou. Durante algum tempo, um punhado de modelos e as promoters que convidavam para um chope gelado passaram não apenas a ter mais importância que um teatrólogo reconhecido internacionalmente, como também eram muito mais relevantes que os milhares de sambistas que produziam um show único em todo o mundo.

A notícia ruim é que a inversão de valores que gera a supervalorização do ninguém, em oposição ao espetáculo das escolas, foi em grande parte patrocinada por um tipo de imprensa que extrapolou sua função de servir aos interesses comerciais dos veículos para conferir poderes extraordinários à nobre profissão de divulgador ? que esperava tudo, menos ser elevada à condição de grande destaque do carnaval.

(*) Jornalista, escritor e diretor de TV