Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Acordo nada ortodoxo

CONTROLE ANTITRUSTE

O Departamento de Justiça americano assumiu o controle antitruste de empresas de mídia e entretenimento em nível federal. A instituição deixa, portanto, de dividir a função com a Comissão Federal de Comércio (FTC), devido a acordo firmado entre os dois. Pela lei, a obrigação é de ambos. Segundo Nicholas Kulish [The Wall Street Journal, 6/3/03], as opiniões divergem: uns acham que será bom, por acelerar a avaliação das transações; outros temem o desgaste do mecanismo. O democrata Mozelle Thompson, da FTC, argumenta que os indicados pelo governo Bush para o Departamento de Justiça provavelmente não impedirão fusões questionáveis, como o faria a comissão, uma agência independente.

O presidente da Comissão de Comércio do Senado, o democrata Ernest Hollings, que em janeiro impediu tal acordo, protesta. "Estávamos em meio à discussão sobre o assunto, e eles simplesmente resolveram as coisas sozinhos", reclama, classificando de trapaça a fuga ao crivo do Legislativo. "Mas nós também temos nossos truques", ameaça. Hollings é presidente de um subcomitê que aprova o orçamento do Departamento de Justiça.

TV CABUL

Com a queda do Talibã, a única emissora da capital afegã voltou à ativa. Mas se engana quem imagina o canal como o que se vê no Ocidente. Na entrada do edifício da TV, sobre o qual está uma parabólica destruída por bombas, ficam quatro guardas armados. Numa sala reservada, uma senhora revista as mulheres visitantes, como conta Teresa Wiltz [Washington Post, 3/3/02].

Com uma antena transmissora e duas câmeras, a TV Cabul, estatal, atinge apenas uma parte da cidade com sua bagunçada programação de cinco horas diárias. "Você não pode comparar sua comunidade com a nossa", lembra o jornalista Mohamad Kabir, que produz notícias para o telejornal da emissora. O programa é apresentado por Roya Muhabat, de 22 anos, e Safi Danshyar, de 25. Eles encarnam a empolgação da volta da TV ao país, vestidos em roupas elegantes, lendo as novidades do dia. Roya, na condição de mulher, ficou os anos do regime talibã presa dentro de casa, saindo à rua raramente, coberta pela burca. Quando soube que a TV reabriria, logo imaginou que contratariam mulheres para apresentar os programas e se candidatou.

"Sou como um carpinteiro, trabalho a madeira e eles levam a fama", brinca Kabir, referindo-se aos apresentadores. Ele trabalha na sala onde funciona a redação, a alguns lances de escada do estúdio. O jornalista começou sua carreira na TV Kandahar. Quando o Talibã dominou a cidade, Kabir fugiu para a capital, e passou a trabalhar na TV Cabul, até que esta também caiu nas mãos dos fundamentalistas, dos quais era inimigo declarado. Foi preso e mantido num contêiner de metal por 20 dias, com direito a pão, água e surras diárias, e lembra que ficou feliz ao ser demitido. "Sabia que se continuasse fazendo reportagens voltaria a ser preso, e deste modo pude ficar longe do Talibã".

Quando os primeiros aviões americanos chegaram a Cabul, Kabir fez uma festa com os amigos. Pouco tempo depois já estava de volta à televisão. Hoje, apesar das mudanças, ainda sofre restrições. A TV Cabul transmite estritamente o que é de agrado do governo. "Temos problemas, não somos livres."