Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Adriana Souza e Silva

JUSTIÇA vs. SÉRGIO MALLANDRO

"Farsa do malandro", copyright IstoÉ, 4/03/02

"O programa Festa do Mallandro, transmitido todos os sábados pela TV Gazeta, está longe de ser a atração favorita do procurador da República do Distrito Federal Brasilino Pereira dos Santos. Contudo, não fosse sua estadia num hotel de São Paulo sem TV a cabo, no último fim de semana, ele não conheceria a incrível e triste história das brasileiras agenciadas para trabalhar em boates no Exterior. Na noite do dia 23, Sérgio Mallandro entrevistou duas mães das vítimas. Sua equipe de reportagem conseguiu localizar o cafetão e colocá-lo na frente das iradas senhoras. Deu-se, então, uma sequência de insultos. Ora as mulheres culpavam o dono da agência pelo sumiço das filhas no Japão, ora eram obrigadas a ouvir que as meninas viraram prostitutas porque assim desejaram. ?Isso aqui não é brincadeira, não é novela?, bradava o apresentador. Inconformado com a explícita demonstração de tráfico internacional de garotas, o procurador ligou para o plantão da Polícia Federal. Era quase meia-noite.

A delegada Silvia Candido Correia decidiu acompanhá-lo para autuar o agenciador em flagrante. Com a demora da chegada da viatura e o chá de cadeira dado pelos seguranças da emissora na avenida Paulista, os dois foram descobrir na madrugada de domingo que o programa fora gravado dias antes. A informação veio da advogada da TV Gazeta, que, por telefone, entendeu a preocupação da polícia e prometera entregar uma cópia da reportagem. Para surpresa de Brasilino e dos milhares de espectadores que compartilharam daquele suspense, tudo não passava de uma farsa, uma encenação com atores contratados.

O procurador soube disso na segunda-feira 25, horas antes de a fita ser entregue pelos advogados da Gazeta. Já os demais espectadores tiveram de se esforçar para captar a mensagem do Mallandro no programa do sábado 2. Durante a gravação, acompanhada por ISTOÉ na quarta 27, não houve sequer o pedido de desculpas pelo fato de exibir uma história forjada. ?Recebemos muitos telefonemas nos parabenizando pela simulação da semana passada?, repetia o malandro, como se todos soubessem o que ele queria dizer com a palavra ?simulação?. Essa explicação seria fundamental, pois na suposta reportagem uma mulher da equipe simula estar interessada em trabalhar no Exterior para entrar na agência com uma câmera escondida.

Segundo o diretor da Festa do Mallandro, José de Almeida, o aviso de que se tratava de uma montagem não foi feito antes para que as cenas causassem maior impacto ao público. ?Iríamos contar tudo no sábado seguinte?, diz, negando que a revelação só tenha ocorrido devido às pressões do procurador. O especialista na Lei de Imprensa Luís Francisco Carvalho explica que a única punição garantida à emissora é a perda de audiência pela falta de credibilidade. Para o procurador Brasilino, que mobilizou a Polícia Federal e foi dormir de madrugada por causa da farsa, há uma grande injustiça no momento em que a suposta mãe disse já ter procurado as autoridades e nada havia sido feito. ?Tanto isso é mentira que, quando a história foi ao ar, as autoridades agiram imediatamente?, completa."

 

SÍTIO DO PICAPAU AMARELO

"Pó de pirlimpimpim", copyright IstoÉ, 4/03/02

"Emília, a boneca de pano que fala pelos cotovelos, segundo os especialistas é o alter ego de seu criador, o paulista Monteiro Lobato (1882-1948). Centro das atenções dos livros cujas histórias acontecem ou partem do Sítio do Picapau Amarelo, ela também é apontada como precursora do feminismo, tamanha a independência com que seu perfil foi costurado pelo escritor na década de 20. Intrometida, alpinista social, pois casou-se com o Marquês de Rabicó só para ter título de marquesa, ardilosa, malcriada, abusada, inteligente e muito divertida, Emília e outros deliciosos personagens que compõem a obra voltam a encantar o Brasil pela televisão na quarta versão do programa Sítio do Picapau Amarelo. No ar desde outubro do ano passado, a atração se firma como uma das melhores produções televisivas do momento. Igualmente se coloca como verdadeira mania nacional, refrescando com folclore brasileiro, fantasia e cultura a cabeça da garotada, normalmente lotada de desenhos animados histéricos e de tatibitatis de apresentadoras louras.

A primeira adaptação da obra de Lobato aconteceu na extinta TV Tupi de São Paulo, entre 1951 e 1963, ainda em preto-e-branco e ao vivo. Depois, a turma rumou para a Rede Bandeirantes em versão colorida, entre 1968 e 1969. Na Rede Globo, ficou no ar de 1977 a 1986. Ao retornar às manhãs globais, o Sítio antes passou por um processo de atualização que deixou muita gente preocupada. Afinal, como seria a doce avó Dona Benta usando e-mail ou a Tia Nastácia trocando o fogão a lenha pelo microondas? Parecia demais para a telúrica história de Monteiro Lobato. Mas as adaptações não chegam a comprometer. Luciana Sandroni, uma das roteiristas do programa, cita como exemplo o personagem Pedrinho. ?Ele sempre foi mais urbano, só que hoje fala gírias, tem uma câmera digital, joga videogame. Ao mesmo tempo, adora passear no Pangaré, pescar, ouvir histórias, se aventurar na mata com o Saci?, diz ela.

As maiores mudanças aconteceram com Emília. Nas versões anteriores, ela era interpretada por atrizes adultas, entre as quais Dirce Migliaccio. Agora, quem a encarna é a graciosa Isabelle Drummond, sete anos. Para a escritora Tatiana Belinky, 83 anos, roteirista da primeira versão dirigida e produzida pelo falecido marido Júlio de Gouveia, uma criança não dá conta da complexidade da personagem, embora elogie o talento de Isabelle. ?A Emília de Lobato é muito forte. A atual é uma menina maravilhosa brincando de Emília?, explica a escritora, que conheceu Lobato pessoalmente e aponta a pioneira Lúcia Lambertini como a intérprete imbatível do papel. Especialista em Sítio, ela aplaude a nova produção, mas faz algumas críticas. ?A Cuca virar perua e com cara de jacaré não dá. E ela aparece demais. No original, quase não tem destaque.? Apesar da licença de estilo, Tatiana ressalta a importância de se oferecer um programa do gênero à criançada de hoje em dia. Nicette Bruno, que interpreta a Dona Benta, concorda. ?Este trabalho tem função social. É um prazer especial enaltecer a boa literatura.?

Reconhecimento não falta. A creche e pré-escola Miraflores, em Laranjeiras, na zona sul carioca, aproveitou o interesse das crianças pelo programa e instituiu a obra de Monteiro Lobato como tema de trabalho para o ano todo. Segundo a vice-diretora Regina Rocha Lima, é surpreendente a afinidade dos pequenos com a história e seus personagens. ?Outro dia, veio uma garota vestida de Emília conversar com as crianças. Elas perguntavam coisas do tipo: ?Por que você se casou com o Rabicó, que é porco?? Queriam entender.? No Carnaval, a escola fez o Baile do Sítio do Picapau Amarelo e a boneca Emília foi a fantasia de quase todas as meninas. O sucesso se repetiu em outros bailes carnavalescos Brasil afora e, evidentemente, na indústria de brinquedos. Lojas populares como Magal e Americanas esgotaram no Natal o estoque de bonecas Emília, em versões pequena, média e grande, com preços de R$ 20 a R$ 100.

Assim como o bruxinho Harry Potter, a turma do Sítio também está em mochilas, jogos, cadernos, roupas e vários tipos de brinquedos. Dhu Moraes, a Tia Nastácia, vê na aceitação um resgate importante da infância. Para ela, não há mistério porque criança sempre gostou de coisas simples e naturais. A sofisticação pertence ao adulto. ?Eu nasci num sítio, perto de Itaboraí, interior do Rio. É maravilhoso esse universo de bichos e da roça.? Dhu – uma das integrantes originais do grupo As Frenéticas, que volta a fazer turnê nacional com o show Pra salvar a Terra – se diz encantada em trabalhar com crianças. ?Todos são atores natos e me impressiona como conseguem decorar aqueles textos enormes.? Deve ser o pó de pirlimpimpim, que, segundo Monteiro Lobato, é a viagem fantástica que só existe para quem quer."