Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Anatomia da paranóia

Rafael Evangelista (*)

Com o intuito de mostrar quem são os ricos brasileiros, o que pensam e como gastam, a revista Veja (nº 1657, 12/7/00) fez uma das reportagens mais ofensivas àqueles que têm um conhecimento mínimo sobre os problemas sociais brasileiros e suas origens históricas. Como é de costume, em se tratando de Veja, a reportagem é um misto de arrogância, preconceito, achismo e desprezo por qualquer tipo de conhecimento científico sobre a sociedade.

Com a desculpa de ocupar uma hipotética lacuna criada pela ausência de trabalhos de pesquisa sobre quem são e o que pensam os ricos do Brasil, a revista afirma ter extraído, a partir de dados da Receita Federal, "uma fotografia fiel dos ricos brasileiros que pagam impostos". Sua "fotografia fiel" é apenas um elogio ao trabalho como única forma de possível ascensão social e que considera o pobre como o único culpado pela sua pobreza. Um discurso que a própria revista afirma ser o das elites, mas que ela reproduz.

Para legitimar a reportagem, Veja retira do contexto alguns trabalhos de sociologia e economia e usa-os da maneira como lhe interessa. Logo no texto de abertura, busca um trecho do texto A ética protestante e o espírito do capitalismo, do sociólogo alemão Max Weber, para dizer que "a riqueza, como empreendimento de um dever vocacional não é apenas moralmente permissível, como diretamente recomendada". Entretanto, quando Weber escreveu esta frase não fazia um julgamento sobre a riqueza de uma maneira geral, mas falava especificamente de como ela era entendida pela ética protestante. Apesar do crescimento espantoso das religiões protestantes no Brasil, o catolicismo – em que a pobreza é elogiada, já que os pobres vão para o céu – ainda é a maior religião do país, e certamente está muito mais ligado à nossa cultura. Ou seja: a frase de Weber certamente não se aplica para explicar a nossa realidade.

Outro autor clássico que Veja cita é Adam Smith, o pai do liberalismo econômico, autor bastante adequado para referendar as opiniões neoliberais repetidas na reportagem.

Solene desconhecimento

Um dos – "pouquíssimos", como qualifica a revista – trabalhos acadêmicos contemporâneos existentes sobre os ricos no Brasil é o da pesquisadora Elisa P. Reis, da UFRJ, intitulado "Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade" [veja remissão abaixo].

É um trabalho sério, fruto de entrevistas realizadas com membros da elite brasileira e comparadas a entrevistas com elites da África do Sul e Bangladesh. No entanto, Veja só utiliza a pesquisa da professora Elisa Reis para afirmar que a elite não se sente responsável pelo problema da pobreza e da desigualdade, transferindo esta culpa ao Estado. A pesquisa da professora tem outros dados muito interessantes, como o resultado de entrevistas realizadas com mais de 300 membros da elite brasileira, que respondem a questões como "quais são os principais problemas nacionais?" e "quais devem ser as políticas prioritárias no combate à desigualdade?". Veja não menciona esses dados, talvez porque a reforma agrária seja citada, pelas próprias elites, como uma política prioritária no combate à desigualdade.

Para saber o que a elite pensa, Veja preferiu encomendar entrevistas com ricos a um instituto de pesquisa privado. Aqueles teriam que ter ganhado dinheiro apenas por seu esforço pessoal. Dado o recorte encomendado, as respostas são previsíveis e se pautam pela caracterização do pobre brasileiro como conformista, negligente, indolente e acomodado. Quando faz este recorte Veja se esquece de que ninguém nasce com condições iguais no capitalismo, ainda mais no Brasil.

Ao fazer seu trabalho de sociologia amadora, a única coisa que Veja consegue provar é que seu texto reproduz o discurso de nossa elite neoliberal. A crítica ao tamanho do Estado, a visão do capitalismo como sistema justo que premia o mais esforçado, o deslumbramento com os Estados Unidos e o anticomunismo que condena todas as experiências socialistas são os elementos integrantes do discurso. A isso somam-se a arrogância e os julgamentos de valor usuais da revista, que nesta reportagem a fazem desprezar anos de pensamento da história, da sociologia e da economia.

(*) Antropólogo.

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