Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Angola, uma saga em ondas curtas

LIGUE O RÁDIO

Célio Romais (*)

Seguramente o dia 22 de fevereiro ficará marcado como um dos mais importantes para a República Popular de Angola desde a sua independência de Portugal, há 27 anos. Neste dia, as Forças Armadas abateram, na província de Moxico, o líder da Unita, Jonas Cidônio Malheiro Savimbi.

A imprensa brasileira fez a sua parte: publicou relatos das agências internacionais. Sempre elas!

De acordo com o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), em entrevista à revista Caros Amigos, "70% das notícias mundiais passam pelos Estados Unidos". Nossa mídia deixou a desejar, uma vez que Angola tem o português como idioma e o Brasil foi a primeira nação a reconhecer sua independência. Os comentaristas não abriram a boca. Como bons generalistas, muitos jornalistas sabem de tudo, mas falham quando deveriam aprofundar o debate em relação a certos temas. A situação de Angola é um exemplo.

O rádio em ondas curtas despertou meu interesse por Angola. Há algum tempo venho acompanhando, quase que diariamente, a programação das rádios Nacional e Ecclésia, ambas com estúdios em Luanda, capital daquele país. Na madrugada seguinte ao dia da morte de Jonas Savimbi, procurei informações nas tais emissoras. Depois, fui comparar com os veículos que publicaram a notícia, baseada nas mesmas agências. Resultado da comparação: nos jornais, nas emissoras de TV e nas rádios locais, notícias semelhantes e superficiais. A pauta era a mesma de sempre: o ano de fundação da Unita, a formação intelectual de Savimbi e assim por diante.

A escuta da Rádio Nacional já continha novas informações, especialmente depoimentos de dirigentes do governo angolano. O porta-voz do presidente José Eduardo dos Santos informava: "Savimbi morreu por teimosia, já que, nos últimos tempos, foi procurado para reatar o acordo de paz, com a mediação da ONU". O acordo a que se refere é o Protocolo de Lusaka, assinado em 1994 e não honrado por Savimbi. Vale ressaltar que a programação de uma emissora como a Nacional, mesmo sendo parcial, por ser estatal, deve ser levada em conta pelo simples fato de que a mídia tradicional ignora pautas sobre governos que não têm influência econômica.

Tudo sobre a Unita

Como fica a nova conjuntura política de Angola sem Savimbi? Uma tentativa de resposta foi dada pela Rádio Ecclésia, no programa Debate Informativo, comandado por João Pinto, no sábado, 23 de fevereiro, entre 16h e 18h30, na freqüência de 13.810 kHz, na onda curta de 22 metros. Participaram do programa representantes da Unita, do governo e do Fórum Português Pela Paz, além dos ouvintes, pelos telefones da emissora: 44 3041 e 446105.

O grande destaque ficou por conta dos ouvintes: muito bem preparados e com bom poder de convencimento. A maioria queria que a negociação pela paz ficasse, de agora em diante, nas mãos dos angolanos. Pediram a saída de Portugal e Estados Unidos das conversas. No entender do ouvinte Paulo, "os Estados Unidos só fazem alguma coisa por interesse". O ouvinte Campos Neto defendeu a supervisão da paz por um país que não tenha interesse comercial em Angola. Já o participante Vicente de Andrade, pró-governo de Angola, disse que o governo americano está mais preocupado, no momento, em combater o terrorismo mundial e revitalizar sua indústria de armamentos.

Por sua vez, o representante da Unita informou que a entidade convocará congresso, nos próximos dias, para decidir quem será o substituto de Savimbi. A Unita funciona como um partido político: tem até bancada de deputados. Por isso, um ouvinte lamentou a morte de Savimbi, que "perdeu um lugar na história, pois poderia disputar vaga no parlamento ou almejar a presidência do país". Angola terá eleições presidenciais ainda em 2002.

Saiba mais sobre o país-irmão

Outro ouvinte relembrou um pouco da biografia do líder da Unita, que a grande mídia internacional pouco divulga: "Todo mundo sabe que ele fez a luta armada contra o colonialismo, aliou-se ao apartheid [da África do Sul pré-governo Mandela] e foi um homem extremamente duro até nas suas hostes: ele julgou os filhos da Unita, afastados e fuzilados!" A intervenção foi feita logo depois que a representante do Fórum Português Pela Paz, Maria Lemos, classificou Savimbi como "patriota". Outro ouvinte fez inflamada intervenção: "A senhora sabe que Savimbi ordenou a matança de 300 pessoas de uma só vez? Que queimou pessoas vivas? A senhora sabia que ele bombardeou Kuito durante seis meses? Pelo amor de Deus, a senhora chegou de Portugal há seis dias para defender uma organização terrorista? A senhora chamaria de patriota alguém que mandaria matar em Portugal?"

E a paz? Quando chegará a Angola? "A morte de Savimbi não trará a paz a curto prazo", disse Vicente de Andrade. Ele questiona o futuro da ala militar da Unita: "Qual o destino de Paulo Gato?" Paulo Gato e Antônio Dembo são outros dois líderes militares da guerrilha. Entretanto, ressaltou que "o governo de Angola passa a ser o grande responsável pela busca da paz!"

Acompanhe a saga do povo angolano pelas ondas curtas. A Rádio Nacional pode ser facilmente sintonizada, no Brasil, após à meia-noite, na freqüência de 4.950 kHz, em 60 metros. Já a Rádio Ecclésia tem emissão diária, entre duas e três da manhã, em 11.795 kHz, em 25 metros. Aos sábados, apresenta o Debate Informativo, das 16h às 18h30, em 13.810 kHz, em 22 metros. Ligue o rádio em ondas curtas e aprofunde seus conhecimentos sobre Angola.

(*) Jornalista e radioescuta; e-mail <romais@terra.com.br>