Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Antonio Albino Canelas Rubim

FUROS & VAZAMENTOS

"Dos abusos midiáticos", copyright Correio Braziliense, 10/03/02

"Mais uma vez a polêmica se institui. Novamente volta à cena a questão dos abusos da mídia e, em especial, da sua atuação como um tribunal. O tema no mundo e no Brasil tem sido recorrente. No país, a história recente tem sido pródiga em episódios. Para lembrar apenas alguns: o caso da Escola Base em São Paulo; as denúncias das bicicletas com o ex-ministro Alceni Guerra; a recente e leviana afirmação de Cássia Eller como mais uma vítima das drogas, depois negada pelos laudos médicos; e agora o caso Murad.

Estes e outros exemplos possíveis demonstram, antes de tudo, como a presença e a atuação da mídia aparecem como um problema essencial da sociedade contemporânea. Aliás, a origem e o desenvolvimento dos estudos de Comunicação devem muito às demandas da sociedade para compreender o impacto, o papel, a atuação e os efeitos da mídia na contemporaneidade.

Apesar de ampla bibliografia publicada, principalmente no exterior, acerca da temática, não se pode afirmar que existe uma convergência de interpretações a respeito do assunto. Muito pelo contrário, a diversidade de visões é marcante. Ela aponta, sem mais, para a complexidade e a importância adquiridas pelo tema na atualidade. De qualquer modo, apesar da multiplicidade de concepções, pode-se afirmar que a presença e a atuação da mídia aparecem como uma das características mais marcantes da contemporaneidade. Ou melhor, da experiência de vida que se nomeia como contemporânea, pois ela se conforma como uma singular conjunção entre convivências – vivências acontecidas em presença e em espaços geográficos – e televivências – vivências de acontecimentos distantes mediadas por signos, em especial que transitam na mídia.

Essa nova circunstância societária, na qual a vivência mediada adquire importância crescente e potente estatuto de realidade, inscreve a mídia no cerne do tecido social. Pode-se falar então em uma sociedade ambientada pela mídia, em uma verdadeira Idade Mídia. Neste panorama, o poder e a atuação da mídia tornam-se problemas de intensa relevância. E não resta dúvida que o Brasil já se encontra instalado em uma situação de Idade Mídia, para o mal e/ou para o bem.

Na atualidade, a mídia configura-se como um poderoso lugar social de poder, pois concentra e potencializa o poder de publicizar e de silenciar os acontecimentos sociais, antes disperso pelos diversos campos da sociedade. Tal poder tende a tornar-se invasivo. Em diversas conjunturas, a mídia, por exemplo, avança e disputa o poder de representar com o campo da política. Um exemplo emblemático disso: sem mandato, vários apresentadores de programas populares-assistencialistas de televisão e de rádio assumem o lugar de ?porta-vozes?, que julgam ?representar? setores da população, em especial os excluídos. Nada surpreendente que muitos deles transitem para a política com tanta facilidade.

Assim, a transformação da mídia em tribunal, competindo com as atribuições precípuas do Poder Judiciário, não pode ser considerada uma ocorrência singular. Ela é mais uma manifestação da capacidade da mídia de invadir todo o tecido social e de seu poder de tentar submeter atribuições e formatações de outros campos sociais à sua dinâmica de funcionamento. O ritmo de rito judiciário, obrigatoriamente lento para possibilitar um julgamento fundamentado e consistente, com ampla defesa do acusado, é virtualmente atropelado por um dispositivo sociotecnológico regido pela velocidade dos acontecimentos e por seu necessário apego à atualidade. A desigualdade dos ritmos certamente conduz a dificuldades expressivas nas coberturas midiáticas e, mais especialmente, na possibilidade de a mídia invadir e assumir o papel de tribunal, ao pretender julgar acontecimentos e atores sociais.

A temporalidade excessivamente longa dos procedimentos judiciários no Brasil – que não implica nenhuma melhoria dos julgamentos, mas, pelo contrário, alimenta uma forte convicção social de impunidade e ineficácia do Poder Judiciário – aparece como um dos possíveis estímulos sociais a essa pretensão de julgamento da mídia. Onde as instituições sociais não funcionam, a mídia torna-se ainda mais virótica. No entanto, é o poder adquirido pela mídia na sociedade atual e na brasileira, em particular, que alimenta no fundamental essa ambição de invadir e de julgar.

Acionar e esperar que a ética – da mídia ou dos profissionais – resolva a questão da imprensa-tribunal certamente é algo demasiado. Não resta dúvida que a questão também se inscreve no campo da ética coletiva ou individual, mas ela não pode deixar de ser formulada como problema político da maior relevância hoje, inclusive para a possibilidade de uma sociedade radicalmente democrática: como a sociedade irá regulamentar democraticamente essa nova dimensão pública (midiatizada) da sociabilidade contemporânea e quais as normas sociais que a sociedade vai imaginar para governar e ordenar democraticamente essa dimensão, assegurando assim uma atuação responsável da mídia, de seus proprietários, dos patrocinadores, dos profissionais de imprensa e do público?

Antonio Albino Canelas Rubim é diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador do CNPq. Autor de Comunicação e Política (Hacker), Mídia e Eleições 98 (Universitária-UFPB/Facom-UFBA) e Mídia e Política no Brasil (Universitária-UFPB)."

 

"A fúria do furo", copyright Correio Braziliense, 10/03/02

"Se a notícia é matéria preciosa do jornalista, notícia exclusiva é a proximidade da plenitude da profissão. ?Sair na frente da concorrência? é uma frase quase vulgar para quem vive o jornalismo como missão de serviço público e nem tanto como disputa de mercado. Porém, não há incompatibilidade entre negócios e filosofias quando se trata de empresa jornalística.

Se não vende, a empresa acaba e aí o tal ?espaço público supremo?, ideal, altruístico, termina. E é aí que o furo estratégico entra como a mola propulsora do espetáculo (o famoso ?circo da mídia?). O saque rápido, sem apuração, sem avaliar contrapontos, sem pesar os lados envolvidos para que a informação esteja enriquecida pelo seu contexto e não, apenas, seja um resíduo supérfluo do declaratório.

Claro que se for possível ?sair na frente?, com todas as honras de uma reportagem apurada, é a glória de uma profissão cujo dever é abrir caminhos para o acesso público da informação. É a diferença entre furo e furor. Em uma economia de mercado sob sérias pressões pela mercadoria vendável, imediata, pode sair pela culatra. Um furo forjado é má-fé. Põe em risco o maior capital de uma empresa de comunicação: a credibilidade.

É desse misto de credibilidade, obsessão pelo investigar, sintonia cidadã, coragem em se expor e o talento para temperar que se consegue extrair um veículo de notícias – no papel, na imagem ou na voz.

A banalização do furo – estratégico em seu furor pela manchete a qualquer preço – chega a tocar na indústria das ações judiciais que ?prendem?, deixando flanco para a imediata liminar de soltura. O que só desmoraliza a Justiça e reforça a frase ?a lei nasceu para todos… todos os que possuem ótimos advogados?. O que só desmoraliza a eficácia da instituição e aumenta o desconforto civil, dos já excluídos, frustrados, ao sentirem-se figurantes e penetras nas ?festinhas oficiais?. Na verdade, seriam protagonistas e sujeitos da história.

A conivência das redações com o fulgor de um sucesso fácil, quando desmascarada, terá o amargo retorno pela irresponsabilidade da denúncia vazia. O famoso tiro no pé. Aí, o próprio profissional pode cair na armadilha da proposta indecorosa que o levará a discutível fama. A que preço? Entrar na roda do escândalo se este for plantado é entrar na rota da cumplicidade. A mídia consegue potencializar uma suspeita a tal nível, sob tal grau de massificação e maquiagem, que o indício vira suplício e a suspeita vira verdade. Não foi por acaso a afirmação do ministro de propaganda nazista, Goebbels: ?Mil repetições fazem uma verdade?. A diferença é que a mentira não se sustenta por mais de mil dias – o tempo em que ruiu a miséria do Reich que esperava reinar mil anos. Um veículo ou um jornalista manipuladores sobe e desce em menos tempo. O povo não é bobo. Embora façam tudo – até alguns furos – para que se acredite nisso."