Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Batalha fora da guerra

ENTREVISTA DISPUTADA

Embora o front da "guerra contra o terror" seja bem distante dos Estados Unidos, jornalistas americanos parecem estar pisando em campo minado. Após os ataques de 11 de setembro, as emissoras de TV, por exemplo, estão aprendendo que os entrevistados agora querem divulgar sua mensagem, o que deixa os jornalistas em maus lençóis.

O Prime Time Tuesday, da ABC News, foi o último programa a enfrentar o problema, pelo menos até 29 de outubro. Na semana retrasada, transmitiu uma longa entrevista com Carmen bin Laden, cunhada distante do terrorista Osama bin Laden. A exclusiva levou a ABC superar em audiência o 60 Minutes II, da CBS News, no último minuto.

Inicialmente, Philippe Grumbach, advogado de Carmen, ofereceu a entrevista a duas emissoras, e fez exigência e impôs condições, inclusive o direito de assistir às imagens antes e fazer modificações. Tanto ABC quanto CBS recusaram. Grumbach, então, decidiu dar a entrevista à ABC porque, segundo ele, Carmen preferia os jornalistas desta emissora. A cunhada do terrorista árabe foi entrevistada por Diane Sawyer.

De acordo com Elizabeth Jensen [The Los Angeles Times, 29/10/01], Grumbach até pedira à CBS, por escrito, que qualquer entrevista incluísse a "condenação incondicional de Carmen às atrocidades bárbaras ocorridas em 11 de setembro".

A entrevista seguiu-se ao acordo entre CNN e bin Laden, pelo qual a emissora enviaria perguntas para uma entrevista por escrito, por intermédio da emissora árabe al-Jazira, recebendo as respostas em vídeo. Executivos da CNN, que na semana retrasada já se conformavam com a possibilidade de nunca receberem a fita com as respostas, disseram que valia a pena ouvir o que bin Laden tem a dizer.

CNN & AL-JAZIRA

Mais de uma semana após ter enviado suas perguntas a Osama bin Laden, nem CNN nem al-Jazira obtiveram resposta ou aviso de que algum retorno estaria a caminho. As emissoras enviaram suas perguntas após receberem convite de pessoas que se identificavam como representantes da al-Qaeda, organização terrorista liderada por bin Laden.

A CNN enviou seis perguntas no dia 16 de outubro; entre elas, se bin Laden ou seus seguidores tinham armas de destruição em massa e, se sim, se planejavam usá-las. Mais confiante e ambiciosa, a al-Jazira enviou 25 perguntas na mesma semana, alguns dias depois, segundo informações de Bill Carter [The New York Times, 27/10/01].

A comunicação com os representantes da al-Qaeda tem sido complicada. Mohammad Jassim el-Ali, diretor administrativo da al-Jazira, afirmou que "não foi estipulado horário ou data para o recebimento da fita". Ibrahim Helal, editor-chefe da emissora árabe, acha que é possível que a al-Qaeda não tenha gostado das perguntas. "Talvez não pretendam responder porque as perguntas foram muito duras", disse.

Entre outras coisas, a al-Jazira pedia informações sobre se bin Laden de fato participara dos ataques aos EUA. Helal afirmou que sua emissora deixou claro não estar mais disposta a transmitir declarações prolongadas de bin Laden que não sejam as respostas ao questionário. O editor-chefe disse, ainda, que a al-Qaeda poderia estar impedida de responder. "Estão enfrentando bombardeios todos os dias. Talvez não possam gravar vídeos no momento." A emissora, entretanto, não cumpriu a promessa: no último sábado, divulgou novo vídeo com a cantilena tradicional de ameaças do terrorista saudita aos Estados Unidos.

Eason Jordan, executivo-chefe da CNN, é mais cético. "Não me surpreende a demora. E se nunca recebermos uma resposta, não ficarei chocado", disse.

O magnata da mídia Rupert Murdoch, dono da News Corp., pediu desculpas à Christiane Amanpour, correspondente internacional da rede CNN, por uma coluna recentemente publicada no New York Post. Escrita por Andréa Peyser, a coluna de 21/10 se referiu à jornalista como "prostituta de guerra da CNN". Peyser também a acusou de preconceito e questionou o que os parentes judeus da repórter estariam pensando.

Jason Gay [The New York Observer, 5/11/01] conta que Christiane, atualmente no Paquistão, escreveu aborrecida uma carta a Murdoch. Em resposta, o magnata lamentou a coluna, mas argumentou que não controla o que a equipe do Post escreve. A carta também mencionava que Murdoch já foi chamado de "coisas piores" por Ted Turner, fundador da CNN.

Christiane confirmou o recebimento da carta de desculpas. "Apesar de não querer revelar detalhes de minha correspondência com Murdoch, direi que estou totalmente satisfeita com sua reação à linguagem vulgar e inadequada que Peyser usou para me descrever." A jornalista confessou, no entanto, que achou "hilariante" a frase do empresário sobre Turner.

A cada noite da semana, a CNN transmite o CNN Newsroom, um pacote de meia hora de notícias sem comerciais. O programa, lançado em 1989, é gravado por professores de 18 mil escolas americanas para ser usado em sala de aula, e tem como objetivo promover a marca da rede e dar a crianças uma perspectiva global.

Matt Kempner [The Atlanta Journal-Constitution, 30/10/01] revela que CNN Newsroom, um dos favoritos de Ted Turner, nunca deu lucro ? o que não era um problema enquanto Turner era o chefão da rede. Agora que ele não é mais, os programas da unidade Turner Learning têm seu futuro ameaçado a não ser que parem de perder dinheiro.

Neste ano, a AOL Time Warner fechou a Turner Environmental Division, que produzia programas sobre meio ambiente e o desenho Capitão Planeta, além de ter cortado mais de 4 mil empregos, incluindo 500 na Turner Broadcasting e na CNN. Comenta-se também a possível eliminação do Goodwill Games (Jogos da Boa Vontade), evento esportivo sem fins lucrativos também fundado por Ted Turner.

Brad Turell, porta-voz da Turner Broadcasting, explica a nova política da empresa: se for lucrativo ou não tiver lucro nem perda, o programa será mantido. "Mas se for perder muito dinheiro, deveríamos sustentá-lo? Acho que a economia atual ordena que se responda à esta questão."

John Richards, adminstrador da Turner Learning, disse que a unidade está tentando diminuir as perdas anuais, mas que não há planos de suspender o programa ou acrescentar comerciais. Recentemente, uma equipe foi criada para desenvolver iniciativas que dêem lucro.

    
                         
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