Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Bernardo Ajzenberg

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A VOZ DOS OUVIDORES


FOLHA DE S. PAULO

"Viagens perigosas", copyright Folha de S. Paulo, 25/3/01

"Como um raio em céu azul, caiu no jornal domingo passado reportagem sobre o projeto Calha Norte. Para quem não se lembra, é um programa criado em 1985 para povoar as fronteiras do Brasil na Amazônia. Título do texto: ?Quintão quer elevar verba do Calha Norte?.

A abertura diz: ?O ministro da Defesa, Geraldo Quintão, fará nesta semana uma visita a nove unidades militares na Amazônia. O objetivo é coletar informações para propor um aumento do orçamento do Projeto…?.

De imediato senti que havia algo estranho. O assunto, corretamente ou não, estava fora da mídia havia tempo; a Folha não tem por hábito fornecer tanto detalhe quanto se lia nesse texto sobre viagens a serem feitas por ministros. Mais: o título e o sobretítulo -?Objetivo do projeto é a ocupação de uma das regiões menos habitadas do país, com apenas 1,2% da população?- resvalavam em tom oficioso.

O mal-estar cresceu na quarta, quando nova reportagem, no mesmo diapasão, foi publicada. Título: ?Defesa da fronteira recebe menos verba que em 2000?.

Com poucas alterações -mais precisão em dados de investimentos e de verbas-, o texto era quase reprodução do primeiro. A informação que lhe deu o título, sintomaticamente, já constava da reportagem do domingo.

Ao pé, uma explicação: ?O jornalista Fernando Rodrigues viajou ao Amazonas e a Roraima a convite do Ministério da Defesa. Nos trechos em que havia vôos comerciais disponíveis, a Folha arcou com as despesas?.

Ou seja: o primeiro texto, na prática, tivera como função ?vender? a viagem do ministro para a qual a Folha havia sido convidada.

Outra matéria foi publicada quinta-feira, dando conta de declarações de Quintão contrárias à demarcação contínua de terras indígenas. Ele também negava haver abuso sexual de índias por parte de militares em Roraima. À diferença dos iniciais, esse texto se cobriu de outros, com posições contrárias às do ministro.

Pauta terceirizada

O repórter Fernando Rodrigues, um dos mais experientes da Folha, considera ?praxe do jornal? fazer a apresentação de eventos -no caso, a viagem do ministro. ?Na cobertura de uma viagem?, acrescenta, ?é normal mandar o máximo de matérias, até para não tomar furo do concorrente (no caso, o ?Estado de S.Paulo?, também convidado)?.

Sem dúvida, a Folha está certa e é transparente ao dizer que o jornalista viajou a convite (o que o concorrente, diga-se, não fez). Mas a questão é outra: não fosse a viagem a convite do ministro, daria o jornal tamanho espaço ao assunto?

É ao leitor que interessa tanto o tema Calha Norte, a ponto de este merecer três reportagens grandes em cinco dias, ou elas só existiram porque o Ministério da Defesa tomou a iniciativa?

Como escrevi na crítica interna na quarta-feira, ?o registro de que o repórter viajou a convite do governo, embora importante, não compensa… a aparência de uso do jornal por uma espécie de lobby do ministro da Defesa… em sua batalha por mais verba?. Com tais coberturas em cascata, propiciadas por viagens a convite, o que se faz é abrir a possibilidade de que a pauta do jornal seja determinada por agentes outros que não o interesse público ou o do leitor."

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"Sem direito à informação", copyright Folha de S. Paulo, 25/3/01

"Não passou um dia da semana sem que o jornal ?O Globo? gastasse ao menos uma página com uma série de reportagens sobre irregularidades atribuídas à Legião da Boa Vontade (LBV).

As acusações envolvem desvio de dinheiro para uso pessoal de seu diretor-presidente, dívidas com o INSS, falta de recolhimento do FGTS, desaparecimento de crianças de creches da entidade filantrópica.

O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, anunciou abertura de inquérito. O presidente do Superior Tribunal de Justiça, Paulo Costa Leite, disse que as acusações devem ser investigadas. Assim também o ministro José Gregori (Justiça). O INSS decidiu abrir apuração, além da que já está em curso.

Houve, acredito, exagero de ?O Globo?. Mas o que interessa destacar, aqui, é que o leitor da Folha não ficou sabendo de nada. O jornal simplesmente ignorou o assunto.

A leitora Sueli Francischetti se queixa em e-mail: ?Eu, por exemplo, tenho recorrido à Internet para ler as notícias que o jornal do qual sou assinante nem sequer comenta?.

O Manual da Redação afirma que ?a Folha não deixa de publicar informação que outro jornal, revista, emissora de rádio ou TV já tenha noticiado com exclusividade?.

O que aconteceu, então? Paula Cesarino Costa, secretária de Redação, ouvida pelo ombudsman, afirma que ?houve uma falha? do jornal. E anuncia que ele deverá fazer reportagens sobre a questão."

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"De pesos e medidas", copyright Folha de S. Paulo, 25/3/01

"O foneticista Ricardo Molina foi demitido do cargo de coordenador de Fonética Forense da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) no dia 22 de fevereiro.

A notícia veio à luz no dia 27, data na qual a Folha lhe dedicou um texto de duas colunas e parte de outro texto, maior, que tratava do fato de que Molina recebera pedido para periciar a famigerada fita cassete da conversa entre o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e procuradores da República.

Na edição de 1? de março, o jornal deu cinco colunas ao caso da demissão de Molina.

Trazia o ponto de vista do demitido (?Para perito, demissão foi decisão política?) e o ?outro lado?: ?Reitoria da Unicamp e presidente de comissão negam as acusações?.

Além desse ?outro lado?, a mesma edição abrigava na nobre seção ?Tendências/Debates?, à página A3, um artigo do presidente da Comissão de Perícias da Unicamp, o professor de filosofia Roberto Romano, em que este expunha, mais uma vez, os motivos da demissão de Molina.

?Unicamp registra queixa policial contra perito que foi demitido?, afirma título de três colunas no dia seguinte (2 de março), com o sobretítulo ?Molina teria levado dados e fitas de perícias?.

Na último dia 21, uma nota de apenas seis linhas, espremida entre a coluna de Janio de Freitas e um anúncio, informava: ?A Justiça concedeu liminar que determina a reintegração do foneticista Ricardo Molina à Unicamp?. Só na edição regional da Folha que vai para Campinas a liminar teve abre de página."

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