Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Bernardo Ajzenberg

FOLHA DE S.PAULO

"Guerra de informações", copyright Folha de S.Paulo, 30/3/03

"Os primeiros dias da invasão do Iraque pela coalizão anglo-americana têm revelado um paradoxo: ao mesmo tempo em que nunca numa guerra tantas informações foram geradas a partir do teatro das operações, poucas vezes se viram tantas contradições, tanta pista falsa ou tentativas de manipulação.

George W. Bush enfrenta forte oposição internacional. Saddam Hussein não é, nem de longe, um governante bem-visto pelo resto do mundo. Ambos, assim, são obrigados a travar, ao lado da guerra propriamente dita, um cruel embate de informações para ganhar ?corações e mentes? dentro e fora de seus países.

No centro, obviamente, está a mídia ?e seu desafio é apresentar os dados do modo mais objetivo e isento possível.

Até agora a Folha manteve uma cobertura que contempla a existência dessa guerra de informações ?para o que contribui, decisivamente, o fato de ter dois enviados especiais a Bagdá.

Em busca de equilíbrio, vem publicando, além disso, análises, entrevistas e artigos de especialistas com visões divergentes.

As poucas queixas que recebi sobre a questão da isenção jornalística (ou da falta dela) se referem a aspectos pontuais.

Alguns pontos, porém, merecem reflexão.

O primeiro foi a edição no alto da capa de domingo ?em parte dos exemplares- da foto de uma criança com o corpo queimado apresentada como vítima da coalizão.

Vários leitores, mesmo contrários à guerra, acharam essa opção grotesca, apelativa, sensacionalista. Mais do que informar, o jornal os ?agredia?. Concordo com eles. A foto poderia ter saído em página interna.

O equívoco ganhou maior proporção, depois, com a avaliação de especialistas, a partir da imagem, de que na verdade a criança sofrera as queimaduras antes da invasão, tendo sido usada, portanto, como peça de propaganda enganosa por Bagdá.

Em prol da Folha, registre-se que no domingo tomou a precaução de atribuir a informação sobre a criança ao governo iraquiano, além de ter publicado na segunda a avaliação dos especialistas (embora com menos destaque do que o necessário).

O jornal também demorou para bem ?explorar? a existência de seus enviados especiais.

Na quarta-feira, por exemplo, veículos concorrentes, mesmo sem gente em Bagdá, deram material mais denso e detalhado (com base em jornais estrangeiros) sobre eventos da capital ?além das informações pasteurizadas das agências de notícia.

Só na sexta o ?Diário de Bagdá? (material exclusivo) ganhou o nobre espaço da contracapa do caderno sobre a guerra.

Em dois momentos a Folha não soube, a meu ver, destacar adequadamente o essencial do que publicava de modo disperso.

Um se deu na quinta, quando ficou claro que a coalizão, numa guinada decisiva para o conflito, resolvera, dada a resistência iraquiana, adiar o ?assalto? a Bagdá. A manchete da Folha, nesse dia, foi para o bombardeio que matou 15 civis na capital ?evento relevante, claro, mas menos determinante.

Na sexta, quando se soube que mais 120 mil soldados norte-americanos se somariam ao conflito, a manchete foi ?Bagdá volta a sofrer forte ataque? ?fato que se repetia e se repetirá.

A guerra deve ser longa. Esta coluna, portanto, será levada a abordar outras das várias questões que ela suscita e suscitará.

?Olhar brasileiro?

Mandei ao repórter Sérgio Dávila, enviado especial a Bagdá, perguntas sobre o seu trabalho. As respostas, a seguir, ilustram as condições dessa cobertura e um pouco de seus ?bastidores?:

Pergunta ? Qual a maior lição de investigação jornalística tirada nesses dias?

Sérgio Dávila ? Não vale a pena se pautar pelos limites impostos por uma situação (neste caso, a tentativa de controle do governo iraquiano), mas sim tentar se pautar apesar desses limites.

Pergunta ? Como é a relação com os outros correspondentes?

Dávila ? O jornalista não é o profissional mais unido e gregário do mundo, nem em guerra. Acho que é da natureza da profissão, cujo moto é a busca da informação exclusiva (que não pode ser compartilhada). Mas até que há certa solidariedade, pelo menos em questões de segurança.

Pergunta ? Qual é sua prioridade numa cobertura que já tem tantas agências e TVs?

Dávila ? Dar o olhar brasileiro, e portanto exclusivo, a um assunto que já vinha sendo exaustivamente coberto.

Pergunta ? Como se expressa a pressão da guerra de informações? Como você se previne para não ser manipulado pelo seu jogo?

Dávila ? Ambos os lados desqualificam as informações do outro lado o tempo todo, muitas vezes com argumentos bem embasados. O jeito que tenho achado é ouvir o que diz o governo iraquiano, contrapor ao que dizem seus críticos (EUA e Reino Unido, mas também iraquianos mais corajosos) e tentar achar um mínimo de verdade no meio disso.

Pergunta ? Você revelou o caso de um ferido ?hospitalizado? que saiu de carro logo após uma coletiva e também, com foto de Juca Varella, que um prédio oficial fora atingido por um míssil, fato omitido pelo governo iraquiano. Como conseguiu isso?

Dávila ? Fomos levados ao hospital pelo governo, que monitorou a visita. Na hora de ir embora, nós dois atrasamos, até perder o ônibus. Com isso, acabamos podendo agir livremente até que alguém desse por nossa falta. No segundo caso, contamos com a ajuda do nosso motorista, um dos iraquianos corajosos de que falei antes. Ele é bem pago por nós, sim, mas também não tem medo de fugir um pouco do esquema oficial.

Conflito de interesses

O e-mail de uma leitora, segunda-feira, advertiu o ombudsman a respeito de um fato grave.

A capa do Acontece (encarte da Ilustrada com roteiro de espetáculos) de 9 de março era ocupada por uma reportagem sobre a apresentação que o pianista Nelson Freire faria naquele dia no Teatro Municipal ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal.

Ocorre que as notas musicais contidas no programa distribuído aos espectadores no teatro naquela mesma noite eram assinadas pelo próprio autor da reportagem da Folha.

Uma coincidência que fere um princípio básico do jornalismo: evitar o conflito de interesses.

Pode um jornalista, por mais íntegro que pessoalmente seja, por mais que tenha trajetória impecável ou a consciência limpa quanto à sua própria independência, pode esse profissional ser visto pelos leitores como isento ao escrever um texto sobre um evento do qual ele próprio, ainda que indiretamente, participa, inclusive de forma remunerada? É evidente que não.

Tal procedimento não põe em xeque a credibilidade do jornal, despertando dúvidas sobre a sua independência? Claro que sim.

Reproduzo a seguir trechos das considerações de Irineu Franco Perpetuo, autor da reportagem e das notas, sobre o ocorrido:

?Meu procedimento é praxe, não apenas entre a imprensa especializada em música erudita, mas no jornalismo cultural em geral (…) Nunca me foi pedido explicitamente pela Folha que não redigisse textos para programas de concertos, nem isso foi colocado como pré-condição para o meu trabalho (…)?.

?Sou um jornalista free-lancer, sem quaisquer vínculos empregatícios. Prestei meus serviços para o Teatro Municipal com os mesmos compromissos com qualidade e independência que norteiam minha prestação de serviços à Folha desde 94; desta forma, rejeito energicamente qualquer acusação de cooptação (…). Creio que nesses casos, como em outros, a trajetória pessoal de cada um, e sua postura diante da verdade, é que determinam o que é ou não independência?.

O editor da Ilustrada, Nelson de Sá, afirma o seguinte:

?A Ilustrada não foi informada pelo free-lancer Irineu Franco Perpetuo, que escreve há quase dez anos para o jornal, de que ele faria um texto encomendado ?e pago- pela OSM. Do contrário, não teria permitido a duplicidade. O procedimento é eticamente inaceitável.?

Se tal duplicidade ?condenada pelo ?Manual da Redação? da Folha- constitui uma ?praxe? no jornalismo cultural, como afirma Perpetuo, a situação é ainda mais grave. Mas essa já é uma outra discussão."