Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Bernardo Kucinski e Flavio Dieguez

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta
Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"18/3/2002

Jornalismo mágico

Os jornais já não parecem tão convencidos de que o PFL engolirá quieto o ataque mortal desferido contra a candidatura Roseana há duas semanas e retornará de rabo entre as pernas à aliança conservadora que sustenta o governo. E assim como antes não justificavam com fatos as apostas na derrocada do PFL, não apresentam agora nenhum motivo ou fato novo que justifiquem a mudança. Parece mágica. O leitor fica perdido.

Ofensiva de ré

Dos quatro grandes jornais, só O Estado de S. Paulo ainda insiste em chamadas como a da sua manchete de hoje: ?Ofensiva do PSDB tenta rearticular forças com o PFL?. Mas a própria reportagem sugere o oposto: que o PSDB está na defensiva diante da ameaça do PFL de não votar tão cedo a CPMF e de viabilizar a ?CPI do grampo?. Diz a reportagem que Fernando Henrique Cardoso e José Serra se reuniram no domingo avaliando o cenário para decidir o que fazer agora. Está mais para recuo organizado do que para ataque.

Gato por lebre

É estranho o tratamento que a Folha de S. Paulo deu, na semana passada, à descoberta de uma possível operação para bagunçar os registros de uso e ocupação do solo na capital paulista e esconder falcatruas passadas. A denúncia partiu da prefeitura, mas as reportagens deixam a impressão que a revelação coube ao jornal. O editorial de sexta (15/03) sobre o assunto também é dúbio, sugerindo que a prefeita Marta Suplicy ficou surpresa com a notícia. A Folha ganharia se contextualizasse com mais precisão a sua cobertura.

Crime presumido

Hoje a Folha registra, de maneira igualmente ambígua, que o Ministério da Saúde teria pago, com dinheiro público, uma pesquisa de José Serra pela agência Vox Populi. Não se sabe se os indícios foram levantados pela reportagem, assinada por Mônica Bergamo, ou pelo procurador Luiz Francisco de Souza. A edição também é precipitada: o título ?Saúde financiou pesquisa eleitoral? dá como certa uma suspeita forte, mas ainda não comprovada. E com meandros não muito claros: o dono da Vox Populi, Marcos Coimbra, diz, por exemplo, que foi por ordem sua que se misturaram perguntas referentes à candidatura Serra a perguntas próprias do ministério.

O PMDB em disputa

Talvez tenha sido por cautela que os jornais desistiram, hoje, de minimizar o racha entre o governo e o PFL. Ao contrário da expectativa criada pelo noticiário nas duas últimas semanas, Roseana Sarney não renunciou correndo, nem foi abandonada pelo PFL, que também não se esfacelou como previsto. Mas os jornais continuam a dar como certa e tranqüila a aliança Serra-PMDB. Os fatos disponíveis não justificam essa aposta: O Globo hoje divulga, por exemplo, o anúncio do governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, um dos mais fortes aliados do governo no PMDB, de que não aceita ser vice de Serra.

Páginas vazias

O Jornal do Brasil de domingo (17/03) traz na capa um dos artigos mais vazios de informação, até agora, sobre a campanha presidencial, ?Candidatos formam bloco dos perplexos?. Assinado por Augusto Nunes e bem escrito, o texto apenas transmite a imagem pouco convincente de que todos os candidatos são mais ou menos incompetentes. Mesmo se fosse verdade, seria a típica verdade desinteressante: não ajudaria a entender nada do que está acontecendo.

15/3/2002

Pior a emenda

O governo federal levou uma alfinetada dolorida do chefe da missão da ONU que está no Brasil para levantar dados sobre a fome no país, o suíço Jean Ziegler. Segundo ele, Brasília pediu que a pesquisa deixasse de fora o Maranhão, justamente onde a fome é pior, para não agravar o confronto com o PFL. ?A preocupação é que a governadora (Roseana Sarney) interpretasse mal nossa inspeção, achando que tivesse cumplicidade do governo federal?, declarou Ziegler ao Jornal do Brasil. Ele diz que entende e que não quer causar constrangimento a ninguém, mas é claro que o governo não pode usar a ONU para resolver seus problemas de campanha. Se Ziegler está dizendo a verdade, o pedido é uma interferência, pequena, talvez, mas indevida da máquina no processo eleitoral. Nenhum fato concreto, até agora, apóia a acusação do PFL de que o governo federal tenha participado da devassa da Polícia Federal na empresa Lunus, de Roseana Sarney, que ameaça enterrar sua candidatura. Mas o remendo – repito, se o pedido à ONU é fato – só piora a situação. De quebra, Ziegler desconfia dos dados do governo de que há 23 milhões de famintos no Brasil. Disse que acha mais provável a estimativa do PT, de 44 milhões.

Irregularidade de sobra

O advogado Saulo Ramos, ministro da Justiça de José Sarney, explica hoje na página de Opinião da Folha de São Paulo por que é tão difícil acreditar que não houve trama na batida policial que derrubou Roseana. Primeiro, diz ele, busca e apreensão se faz por meio de oficial de justiça, não com a polícia; só cabe chamá-la se houver resistência, o que não aconteceu. Segundo, se havia necessidade da polícia, a requisição deveria partir de um juiz maranhense, e não da comarca de Palmas, TO, onde se emitiu o mandado judicial. Terceiro, o chamado deveria ser atendido pela polícia federal de São Luís, MA, não a de Brasília, como ocorreu. Encarregado da defesa de Roseana, Saulo Ramos está só fazendo a lição de casa. Mas a apuração completa dos fatos, não só das acusações contra a governadora, interessa a todo mundo.

A ofensiva do PFL

Os jornais subestimaram e muito a reação do PFL ao golpe eleitoral contra Roseana. Quem leu os jornais ficou com a impressão que o partido abandonaria correndo sua candidata. Mas se enganou. Entricheirado no Congresso, o PFL abriu fogo cerrado contra o governo federal e a candidatura José Serra do PSDB: bloqueou a votação da CPMF; pediu a renúncia de Márcio Fortes (deputado do PSDB acusado de preparar dossiê contra Roseana); colocou sob suspeita o sistema anti-grampo contratado recentemente pelo Ministério da Saúde (a um preço absurdo, de 1,2 milhão de reais, quando custa, normalmente, apenas cerca de 3 000 reais, segundo José Agripino, líder do PFL no Senado); e prometeu viabilizar com as assinaturas necessárias a CPI do grampo proposta pela oposição. O PFL pode acabar reatando com o governo, mas não cabe aos jornais ficar apostando em quem ganha ou perde. Isso não ajuda ninguém a entender a crise e, se possível, fazer uma eleição que mereça a qualificação de democrática.

O Estado de São Paulo, na coluna de Dora Kramer, chama a atenção para um aspecto importante, mas ignorado, sobre a ruptura da aliança de governo. Diz que o PFL não rompeu com o PSDB só por que Roseana pediu. As desavenças vêm de longe e não têm a ver apenas com mágoas passadas, mas também com o futuro. Ela se refere ao pouco espaço que José Serra, candidato do PSDB, daria ao pefelistas. Mas o fato é que já não existe aquela euforia com o neoliberalismo, que, antes de mais nada, facilitou a união do PFL com o PSDB. Se tudo tivesse dado certo, seria mais fácil manter a unidade. Como não deu, o racha pode ser mais profundo, e favorecer mais a oposição, do que imaginam os jornais.

O papel da imprensa

José Roberto Guzzo, escrevendo na conservadora revista Exame, dá uma espinafrada, didática na minha opinião, no noticiário político. ?Diante da salada de falsas questões, idéias sem nexo e fatos incompreensíveis que é servida diariamente no noticiário político, o que se tem na maior parte do tempo é desinformação. A saída? Só dar crédito a alguma coisa depois que ela venha a ser comprovada pela realidade?. Vale a pena ler, especialmente por que Guzzo dá uma série convicente de razões para se acreditar tão facilmente na derrocada inevitável de Roseana.

Todo cuidado é pouco

Sem informação objetiva e clara, vai ser difícil entender tudo o que está acontecendo de estranho na política. Veja-se o caso do suposto dossiê preparado contra Roseana Sarney. O governador do Rio, Anthony Garotinho, disse que as denúncias foram oferecidas a ele a mando do deputado Márcio Fortes, do PSDB. Hoje, no entanto, ninguém menos que Ricardo Murad, irmão de Jorge, marido de Roseana, disse ter enviado a Garotinho,um outro dossiê, não o mesmo que Márcio Fortes. Garotinho, por sua vez, nega ter recebido qualquer coisa de Murad.

13/3/2002

Noticiário anti-Roseana

A imprensa adquiriu o mau hábito de interpretar os fatos à sua maneira, sem deixar claro o que é informação estritamente factual e o que são intuições ou especulações bem informadas (ambas perfeitamente legítimas, diga-se). Já virou um vício, prejudicial tanto para os leitores como para os envolvidos no noticiário, como é o caso, nesta semana, de Roseana Sarney, que está sendo dada prematuramente como fora do páreo, especialmente pela Folha de S. Paulo (?PFL rifa Roseana?) e pelo Jornal do Brasil (?PFL prepara adeus a Roseana?). Nem um nem outro apontam fatos que pudessem sustentar essa conclusão, obviamente prejudicial à candidata do PFL. E aos leitores também, que ficam mal informados.

Aritmética estranha

Detalhe: para apoiar a manchete do ?adeus a Roseana?, o JB chega a fazer uma conta ao contrário, dizendo que o PFL encomendou uma pesquisa para saber dos eleitores da governadora do Maranhão o que ela devia fazer. E teria ficado preocupado, porque 25% disseram que ela devia desistir. O fato é que 75% acreditam que ela deve prosseguir. É preciso muita vontade de ver Roseana desistir para ler esses números da maneira pretendida pelo JB.

Omissão editorial

Só O Estado de S. Paulo deu destaque ao acontecimento mais importante na novela Roseana, neste momento: o resultado da conversa entre ela e o presidente do PFL, senador Jorge Borhausen, sobre o destino imediato da candidatura. Naturalmente, negou-se a possibilidade de desistência, confirmando as duas únicas posições claras, factualmente, do partido nessa questão. Primeiro, o PFL cobra da candidata uma explicação sobre o envolvimento da empresa Lunus, de Roseana e do marido, Jorge Murad, em fraudes na extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Segundo, quer saber a origem da investigação contra Roseana. Essas respostas, lacônicas, podem não dar boas chamadas em jornal, mas indicam que a situação não é tão simples quanto dão a entender as coberturas da Folha e do JB.

CPMF em duas versões

A Folha e o Estado deram títulos opostos à questão da votação da CPMF no Congresso. As reportagens são idênticas, no essencial: anunciam que o PFL tornou a adiar a votação. Mas o título do Estado é direto: ?Pefelistas adiam de novo votação da CPMF?. O da Folha sugere que não houve decisão: ?PFL mantém indecisão sobre CPMF?.

O ensino público em questão

Carlos Henrique Brito Cruz, presidente da Fapesp e diretor do Instituto de Física da Unicamp, faz uma defesa enfática da escola pública em artigo na Folha de ontem. Vale a pena ler: ele mostra que o ensino público tem papel decisivo na formação da massa crítica de pesquisadores que o país precisa para crescer. O assunto, que deve ficar cada vez mais importante, foi abordado pelo Estado em extensa reportagem (?Não, não é dinheiro o que falta. Falta saber gastar?). Mas tem recebido cartas de leitores, alguns ligados às universidades, de que favorece, injustificadamente, a privatização do ensino.

Memória recente

As diferenças entre os partidos que apóiam Fernando Henrique Cardoso têm sido menosprezadas sistematicamente pela imprensa, mas elas são decisivas nessa eleição. Como, de resto, mostra o golpe devastador aplicado contra Roseana Sarney agora, surpreendendo todo mundo. Para se ter uma idéia, há pouco mais de um mês, a Folha, num texto de Eliane Cantanhêde, rascunhava a ascensão de Roseana da seguinte maneira: ?Ela tem o controle da situação. E está estabelecendo o ?timing? e as condições para não trincar os cristais governistas nem inviabilizar a manutenção da aliança PSDB-PMDB-PFL… A questão agora é de tempo e de jeito. A avaliação será lá por maio, um mês antes das convenções oficiais, e até lá é preciso evitar socos, pontapés e golpes baixos. Serra e Roseana vão tentar. Pode ser, pode não ser?."