Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Censura e vigilância na rede

"Empresas testam novas técnicas para transmissão", copyright The New York Times / O Estado de S. Paulo, 30/7/00

"Para vislumbrar o provável futuro da indústria de telecomunicações, visite o 22º andar do cavernoso centro de ligação de rede na 60 Hudson Street, em Manhattan. Num canto, há uma estante com equipamentos da Lucent Technologies transmitindo 10 bilhões de bits de informação por segundo sobre fibra óptica em um link e 2.5 bilhões de bits em outro para a Deutsche Telekom.

É impressionante. Mas, à distância de apenas alguns metros, está uma pequena caixa cor de púrpura fabricada pela Cyras Systems, uma empresa novata da Califórnia, que transmite 40 bilhões de bits por segundo para a companhia alemã.

Depois, suba até o Rockfeller Center, até a sede da NBC. Ali, no quarto andar, estão roteadores (routers) da Internet, que valem talvez milhões de dólares, fabricados pela Cisco Systems. E, ao lado deles, está um sistema combinado, de menos de 18 polegadas de altura, que usa engrenagens da Lucent e de outras empresas, que custa menos de US$ 100 mil e está transmitindo emissões de TV da Nippon Television, de 750 milhões de bits por segundo, para o outro lado da rua, e da Court TV para toda a cidade.

Estes notáveis exemplos de tecnologia da próxima geração estão sendo trazidos a você por um patrocinador improvável, uma pequena empresa privada de comunicações dirigida por um ex-executivo da Qwest Communications International, com sede em Hackensack, New Jersey.

Chama-se Enkido Inc..

O quê? – Essa é exatamente a reação de muitas pessoas que trabalham em comunicações. Mas, sem alarde ou sem elevado capital de risco, a Enkido – que não fabrica nenhum equipamento próprio, mas é audaciosa na tecnologia – pode fornecer a melhor visão do futuro das redes de comunicações, mostrando como serão dentro de cinco anos: mais baratas, mais simples, mais poderosas.

Naturalmente, a Enkido poderá não sobreviver por tanto tempo. Neste seu abraço da ponta da rede de comunicação mais aguçada do mundo, ela poderá facilmente começar a sangrar. Mas o lugar onde a Enkido e seu chairman, Nayel Shafei, estão tentando chegar hoje é exatamente onde a maioria das companhias de telecomunicações espera chegar.

Hans Hoeterink, principal executivo de tecnologia da unidade da Deutsche Telekom na América do Norte, disse que a Enkido forneceu recentemente à sua empresa uma conexão OC-768 em Nova York. ‘A conexão foi concluída antes do prazo e foi bem sucedida na operação’, disse ele.

OC-768 é em telecomunicações uma fórmula abreviada para 40 bilhões de bits por segundo. Numa época em que os fluxos mais rápidos, apoiados pelas redes civis mais avançadas, são de 10 bilhões de bits por segundo, isso significa que a Enkido pode estar administrando a mais rápida conexão de rede comercial existente.

Em todo o mundo da alta tecnologia, provavelmente não existe um setor mais febril do que o das comunicações ópticas. Ao que parece, toda semana traz a história de uma pequena companhia privada de equipamentos ópticos, desconhecida fora da indústria, que está sendo adquirida por bilhões de dólares pela Lucent, pela Cisco ou pela Nortel Networks, do Canadá. Depois, há também as companhias públicas. No início deste mês, num acordo que parecia ser o maior até agora na área da tecnologia, a JDS Uniphase concordou em gastar US$ 41 bilhões para adquirir a até agora obscura SDL Inc. que fabrica lasers e outros componentes para sistemas ópticos.

O motivo porque a arena óptica está tão quente é simples. O crescimento da Internet e de outras comunidades de informações estabeleceu uma demanda sem paralelos na infra-estrutura de comunicações. Não apenas grandes quantidades adicionais de capacidade deverão ser embutidas nas redes, mas essas redes deverão ser reconfiguradas para carregar o tráfego de comunicações em diferentes caminhos. Uma estrutura de rede que funcione bem para telefonia de voz pode ser horrorosamente ineficiente para transportar dados.

Por isso, as portadoras (carriers), desde as grandes damas, como a AT&T, até as debutantes, como a Level3, estão gastando bilhões de dólares em equipamentos ópticos avançados e outros sistemas freqüentemente destinados a melhorar o uso de suas redes de tráfego.

Mas talvez nenhuma companhia tenha sido tão agressiva na aplicação de tecnologia de próxima geração e na adoção de desenhos futurísticos de rede quanto a Enkido. Para falar a verdade, ela tem o luxo de servir apenas um punhado de clientes que lhe permite usar sistemas menos comprovados. As portadoras maiores precisam preocupar-se mais com a confiabilidade e são mais conservadoras em seu desenho de rede.

Mas companhias como a Deutsche Telekom e a NBC recorreram à Enkido para algumas partes de seu negócio porque a empresa forneceu, mais barato e mais rapidamente, grandes dutos de comunicações. O Laboratório de Pesquisas Navais em Washington, uma agência do Departamento da Defesa, está trabalhando com a Enkido na tentativa de saltar para a próxima geração de redes ópticas em conexão com a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Defense Advanced Research Projetcs Agency, ou Darpa). ‘Não estamos tentando escolher os vencedores; estamos tentando tratar com alguém capaz de fornecer algum tipo de capacidade’, disse Hank Dardy, cientista chefe do laboratório. ‘Não sei inteiramente para onde está indo Nayel, mas ele ajudou a coordenar várias coisas para nós em termos de conseguir os componentes e conexões apropriados para a faixa de onda que precisamos.’

‘Nosso negócio é este: grandes tubos gordos para grandes e gordos clientes’, disse Shafei, que até a primavera de 1999 era vice-presidente executivo da Qwest.

‘Quando deixei a Qwest, eu disse: `Posso estabelecer uma rede ponta-a-ponta, tanto para longa distância quanto para malha local, que estará competindo apenas com a Fed-Ex, que leva pacotes de porta em porta’."