Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Clóvis Rossi

COBERTURA DE GUERRA

“A ?saddamização? dos EUA”, copyright Folha de S. Paulo, 5/04/03

“Em recente entrevista coletiva no QG das forças norte-americanas no Kuait, Arnim Stauth, enviado enviado da rede pública alemã ARD, protestou contra o que considera discriminação no tratamento de jornalistas de países que se opuseram à invasão.

?Não esperaríamos nada diferente de Saddam Hussein?, esbravejou Stauth, com toda a razão, segundo o relato do jornal ?Financial Times?.

Comportamento à Saddam Hussein também teve Otto Reich, enviado especial da Casa Branca para o hemisfério Ocidental.

Em visita a países do Caribe, Reich passou um tremendo sermão nos governantes dos 15 países da Comunidade Caribenha por terem divulgado nota de condenação ao uso unilateral da força no caso do Iraque.

Reich disse que os Estados Unidos estavam ?muito desapontados? e ameaçou: ?Estudem muito cuidadosamente não apenas aquilo que dizem, mas as consequências do que os senhores dizem?.

A chanceler Billie Miller, como o jornalista alemão, deu resposta à altura: ?O embaixador Reich pareceu incapaz de aceitar que a expressão de um ponto de vista oposto por qualquer Estado soberano não é um ato hostil, mas, ao contrário, o mais vibrante exemplo de tradições democráticas e de liberdades que ambos esposamos?.

A escritora canadense Margaret Atwood começa a duvidar de que os Estados Unidos continuem ?esposando? democracia e liberdade. Em ?Carta à América?, publicada por ?The Globe and Mail?, Atwood diz:

?Você (América) punha-se de pé pela liberdade, honestidade e justiça; você protegia os inocentes. Eu acreditava nisso. Acho que você também acreditava. (…) Se você continuar ladeira abaixo, as pessoas no mundo todo vão parar de admirar as boas coisas sobre você. (…) Vão pensar que você abandonou o reinado da lei?.

Ganhar a guerra está sendo fácil. Difícil será recuperar a admiração.”

“?TV dificulta conscientização nos EUA?”, copyright Folha de S. Paulo, 5/04/03

“Temendo chocar seu público ou perder seus anunciantes, a mídia dos EUA evita exibir imagens de civis iraquianos mortos ou de militares americanos feridos ou capturados pelo inimigo, impedindo que o público consiga ter uma noção real do custo humano da guerra e de suas consequências.

A análise é de Paul Waldman, diretor do Centro Annenberg de Políticas Públicas da Universidade da Pensilvânia (EUA). Ele escreveu, ao lado de Kathleen Hall Jamieson, ?The Press Effect: Politicians, Journalists and the Stories That Shape the Political World? (o efeito da imprensa: políticos, jornalistas e as histórias que dão forma ao mundo político).

Leia a seguir trechos de sua entrevista, por telefone, à Folha.

Folha – Como o sr. analisa a cobertura da guerra no Iraque feita pela mídia americana?

Paul Waldman – Não existe apenas um tipo de cobertura, mas, no geral, os jornais estão melhores que as TVs. Obviamente, a mídia americana é mais favorável à posição de Washington que a estrangeira, contudo há casos extremos. A Fox News é totalmente pró-EUA. O modo como seus comentaristas falam da guerra e o número de bandeiras dos EUA exibidas por ela provam que sua cobertura é a mais parcial. A MSNBC também segue essa linha.

Já a CNN está no meio do caminho, tentando ser menos enviesada. Finalmente, as três grandes redes [CBS, NBC e ABC] são bem menos ?ostensivamente patrióticas?, realizando uma cobertura que, para os padrões americanos, poderia até ser considerada imparcial. Afinal, elas buscam expor os argumentos de ambos os lados envolvidos no conflito atual.

Todavia o ponto mais marcante da cobertura realizada pelas redes de TV americanas se refere à escolha das imagens exibidas. A maior parte das televisões européias e a rede árabe Al Jazeera mostram muitas imagens dos civis mortos e da destruição provocada nas cidades iraquianas pelos bombardeios americanos.

A mídia dos EUA, por outro lado, tem-se preocupado bastante com a possibilidade de chocar seu público ao exibir imagens da guerra no Iraque. Ademais, ela tem em mente seus anunciantes, que poderiam mudar de atitude se o conteúdo do que é mostrado fosse considerado chocante. Por isso também não vemos mais cenas de soldados americanos feridos ou capturados pelo inimigo.

Assim, o público americano não consegue ter uma noção real do custo humano da guerra e de suas consequências. A população acaba não podendo criar uma consciência crítica porque não vê as cenas mais graves do conflito.

Folha – E quanto aos repórteres que acompanham as tropas?

Waldman – Há aspectos positivos e negativos na cobertura realizada por eles. Eles são testemunhas oculares do que ocorre no campo de batalha e tentam passar isso ao público, que aprende um pouco sobre o cotidiano dos militares. No entanto eles acabam fazendo matérias mais ligadas ao lado humano dos militares envolvidos na ofensiva e não oferecem uma visão geral da guerra.

Contudo, como convivem com os militares durante a dura travessia do deserto, eles são obrigatoriamente influenciados pela situação. Afinal, eles sabem que, se houver uma batalha, serão os soldados americanos que os defenderão das forças iraquianas.

Folha – O sr. crê que a mídia dos EUA seja direta ou indiretamente pressionada pelo governo?

Waldman – O governo está contente com a cobertura, mas provavelmente não tenha precisado exercer pressão direta sobre as TVs ou os jornais. Desde a Guerra do Vietnã, os militares dos EUA sabem que imagens de civis sofrendo ou de soldados americanos mortos são terríveis. Assim, na Guerra do Golfo , por exemplo, eles não permitiram que todas as imagens chegassem ao público.

Na verdade, desde a década de 70, os militares buscam evitar que essas cenas cheguem às TVs americanas. Trata-se de uma prioridade das Forças Armadas dos EUA. Permitir que repórteres acompanhassem as tropas foi um risco, porém os militares pensavam que conseguiriam que ?boas imagens? do campo de batalha fossem mostradas, como aquelas em que as forças da coalizão distribuíam ajuda humanitária a civis iraquianos, no sul do país.

Creio, portanto, que o governo dos EUA não tenha precisado fazer pressão sobre as redes de TV para que as imagens mais chocantes não fossem exibidas.”