Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Comendadores de araque

CRISE DE CREDIBILIDADE

Luciano Martins Costa (*)

Um conhecido médico paulista, mais conhecido pelo porte do seu ego do que por sua excelência científica, se fez nominar recentemente, por um grupo de apaniguados, como "o médico brasileiro do século 20".

É apenas questão de tempo ? e da ação de uma assessoria de imprensa ixxperta ? para que ele acabe se transformando em verbete de enciclopédia sob a epígrafe de "o médico brasileiro do século 20". Alguém duvida?

Essa é uma das armadilhas que a imprensa criou para si mesma a partir das "reformas" iniciadas nas redações nos anos 1980: a falta de competência ou de tempo para conferir certas qualificações que, de resto, sempre foram uma das bengalas do fazer jornalismo.

Houve época ? acredite ? em que os repórteres colocavam entre aspas o qualificativo de "comendador" que costumava ornamentar os nomes de cidadãos ávidos de reconhecimento público. O padeiro do bairro da Vila Guilherme que se alçava ao posto de conselheiro da Associação Portuguesa de Desportos, à falta de títulos que bem acompanhassem seu novo estado social, era convencido a contribuir com determinada quantia para uma sociedade de estudos históricos e heráldicos, em troca de poder ostentar o diploma de "comendador", assim como o comerciante da Moóca que assumia um cargo no Juventus ou o "corneteiro" do Palmeiras, todos candidatos à clarividência dos fazedores de títulos "nobiliárquicos".

Os jornalistas enxergavam a circunstância e aspeavam, com respeito ao leitor, o qualificativo. Alguns profissionais eram ciosos ao extremo. Certa vez, vi o jornalista Antônio Carlos Fon pedir a um cidadão que se apresentava como advogado que exibisse a carteira da OAB. Conferiu e anotou o número, com a naturalidade e a dignidade de quem, exercendo seu papel, checa uma notícia.

Última linha

As comendas saíram de moda, de tão desgastadas, mas sobrevivem teimosamente, simbolizadas nos rankings e designações de grandeza de todos os tipos, que a imprensa engole com candura de fazer pena. Picaretas rematados ganham reconhecimento nas páginas impressas e nas emissões de rádio e TV, sem que o jornalista execute seu trabalho de ao menos questionar suas afirmações. "Videntes" transitam pelo noticiário, referendados por essa falta de senso crítico. Um malandro internacional conclamou os crédulos pela TV e pelo rádio, durante anos, prometendo o conhecimento do futuro. "Ligue djá", convidava. Foi qualificado de parapsicólogo e assim ficou.

Os jornalistas perderam a coragem de realizar tarefas básicas de sua profissão porque vêm sendo progressivamente desautorizados por quem os contrata. O entusiasmo com que a direção dos jornais recebeu a decisão da magistrada que suspendeu provisoriamente a exigência do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão foi mais um desses atos de lesa-dignidade. Essa e outras atitudes da direção dos jornais lembram inequivocamente o estudo de Theodor Adorno sobre pessoas e grupos que agem conscientemente contra seus próprios interesses de preservação: a desqualificação dos jornalistas tem como conseqüência a deterioração da imprensa e dos balanços das empresas que a possuem.

Recentemente, o diretor de uma indústria do Sul do país me confidenciou que adorava "plantar" na mídia especializada versões condizentes com os objetivos de curto prazo que estabelecia para sua empresa. Às vezes, uma notícia semeada desmentia em termos a "plantação" anterior e ele se divertia ao observar que ninguém se dava conta das incongruências. Divertia-se, sem se dar conta de que também ele e sua companhia perdiam nessa brincadeira, uma vez que toda a sociedade perde com uma imprensa enfraquecida.

A relação entre a ação deletéria contra os profissionais e a crise que se perpetua na mídia é direta e evidente. Do ponto de vista dos anunciantes, posso assegurar que a crescente desvalorização dos jornalistas tem influência direta na desvalorização da mídia: mais de uma vez ouvi a recomendação de negociar descontos substantivos nos anúncios com base na observação de que tal jornal ou revista aceitaria "qualquer trocado" por um anúncio ? a prática das negociações, com descontos de até 70% sobre as tabelas, confirmava o que poderia ser tomado como aleivosia. A impressão do estado de mendicância da imprensa é bastante influenciada pela imagem passada pelos jornalistas nos contatos com seus entrevistados.

Em esclarecedor artigo publicado pelo Estado de S.Paulo ("Conservadores acusam mídia americana de ser liberal", domingo, 23/3/03), Orville Schell, do New York Times, cita o ex-diretor do Times de Londres Harold Evans, segundo o qual "o problema enfrentado por muitas empresas de comunicação não é continuar no ramo, mas continuar no jornalismo".

Estar "no jornalismo", sabemos todos, implica não sacrificar o senso crítico nem a noção do nosso papel político. A observação de Schell sobre a perda crescente, por parte da imprensa, da capacidade de "manter a democracia suficientemente informada para tomar decisões inteligentes", cabe perfeitamente no caso brasileiro e fornece uma chave importante para o entendimento da nossa crise. A valorização do profissional é um ponto crucial nesse caminho. Enquanto os gestores da imprensa não se derem conta desse fenômeno, não haverá reforma, reengenharia, enxugamento ou magia que dê jeito na última linha de sua contabilidade.

(*) Jornalista