Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

"Conduta do jornal ‘The Sun’ é investigada", copyright Folha de S. Paulo, 8/05/01

MONITOR DA IMPRENSA


RONALD BIGGS

"O papel do tablóide ?The Sun? no retorno de Ronald Biggs ao Reino Unido será investigado pela Comissão de Queixas contra a Imprensa, agência que monitora a mídia impressa britânica.

Segundo o jornal ?The Guardian?, o diário ?The Sun? deu dinheiro ao filho de Biggs, o brasileiro Michael (ex-integrante do grupo infantil Balão Mágico), para que ele ajudasse o tablóide no retorno do assaltante ao Reino Unido.

Bruce Reynolds, um dos participantes do assalto ao trem pagador, e seu filho, Nick, também teriam sido pagos para colaborar com a ?Operação Ron?, nome com o qual o resgate de Biggs foi batizado pelo ?Sun?.

Reynolds -que cumpriu sua sentença por ter participado do roubo- viajou ao Rio de Janeiro com os jornalistas do ?Sun? para acompanhar o retorno de Biggs.

Acredita-se que o tablóide tenha pago 20 mil libras (cerca de R$ 63 mil) para Michael, 12 mil libras (R$ 38 mil) para Reynolds e mais 12 mil libras para Nick.

O ?Sun? ainda fretou um jato francês -que teria custado 60 mil libras (R$ 190 mil) – para buscar Ronald Biggs no Rio e está pagando as despesas de hotel em Londres de Michael, que veio do Brasil para acompanhar a rendição do pai.

O jornal também contratou um grupo de advogados para pedir a revisão da pena de Biggs na Justiça britânica.

Segundo o ?Daily Mail?, tablóide concorrente do ?Sun?, o próprio Ronald Biggs já recebeu ao menos 30 mil libras (cerca de R$ 95,5 mil) pelo seu retorno e ainda ganharia mais 90 mil libras (R$ 286,5 mil).

Entrevistas pagas

Pelo código de conduta de mídia do Reino Unido, qualquer pessoa pode receber dinheiro de veículos de comunicação para conceder entrevistas.

Pelas regras da comissão que trata do assunto, o pagamento de condenados pela Justiça só é tolerado se a prática estiver vinculada ?a um legítimo interesse público?.

?Os pontos relativos aos pagamentos por um diário do país a Ronnie Biggs e seus companheiros levantam uma série de questões sobre o código de prática do jornal?, afirmou a comissão em nota divulgada ontem.

A direção do ?Sun? nega que tenha dado dinheiro a Ronald Biggs, Michael, Bruce Reynolds ou Nick e não revela quanto já gastou no caso.

?Estamos dispostos a colaborar com as investigações da comissão. Trouxemos para o Reino Unido um criminoso foragido, o que, com certeza, é de interesse público?, disse à Folha Lorna Carmichael, diretora de relações públicas do tablóide.

?Não houve envolvimento financeiro no caso?, disse Mike Gray, amigo de Biggs. Apesar disso, o ?Sun? faz segredo sobre o hotel em que Michael está hospedado em Londres, e Reynolds só concede entrevistas ao tablóide.

Investimento

A volta de Ronald Biggs garantiu bons resultados ao ?Sun?.

De acordo com o departamento de circulação da publicação, desde a última quinta-feira, quando o caso veio à tona, todos os 3,3 milhões de exemplares que o jornal publica diariamente foram vendidos.

Para cada dia, houve ainda uma produção adicional de 30 mil exemplares."

***

"O dinheiro pago pelo tablóide inglês ?The Sun? para levar Ronald Biggs,71, de volta ao Reino Unido será usado para as despesas legais e para o tratamento de saúde, afirmou Michael Biggs, 26, filho do célebre assaltante do trem pagador (1963), num comunicado à imprensa ontem. Mike defendeu que o pai ?tenha um julgamento justo? e negou as acusações feitas pela mídia de que o pai tenha decidido voltar ao Reino Unido para receber tratamento médico. ?Ele (Biggs) não quer ser um fardo para os contribuintes britânicos?, disse Mike. Biggs está detido em prisão de segurança máxima."

"A versão curta da história vai assim: o filho entregou o pai e o trem pagador bancou pela segunda vez o sustento da família Biggs.

A versão sem cortes começa numa redação da Fleet Street. ?Ronnie Biggs quer voltar para casa – e quer que o ‘Sun’ o ajude.? Do outro lado do telefone, ouvindo, estava Graham Dudman, editor-executivo do tablóide inglês. Achou que era trote. Mas na tarde do último 16 de março, viu entrar na redação o time que fecharia o acordo. A identidade do líder foi confirmada por seu editor de polícia: ?Bloody hell, é Michael Biggs.?

O lado dito sério da imprensa londrina fez graça no susto, não sabendo ainda como lidar com o teatro de absurdos. ?Cenas farsescas no aeroporto na volta de Biggs para casa?, publicou o ?Guardian? na segunda. ?Aquele homem curvado e babão que entrou na Quarta Corte ontem era uma figura tão patética e decrépita que por um momento até seus advogados puseram-se pasmados?, arrematou o ?Times? já com tempo, na terça. ?Inveja da concorrência?, publicou em tantas cores quanto possíveis o ?Sun?. Mas o próprio tablóide precisa se esforçar, páginas e páginas escritas em papel e na rede, para compor um retrato convincente deste vilão cerebral.

Três derrames seguidos, o assaltante do trem pagador tem saúde frágil, mal fala. Faz uma triste figura. Numa das matérias do ?Sun?, uma foto de Mike beijando o pai ilustra o título Kiss freedom goodbye, dad. Em bom português, ?Se despeça da liberdade com um beijo, pai?. A manchete é cruel, mas as reportagens do jornal batem na mesma tecla. Biggs ri, Biggs chora, balbucia yes, no, e qualquer coisa mais sem sentido.

Sua prisão completa o quadro. O delegado John Coles entra no avião com o mandado à mão. ?Mr. Coles – no início ignorando a mão esticada ao cumprimento do fugitivo – inquiriu: ‘Você é Ronald Arthur Biggs?? – descreve o ?Sun? – ?Então Coles fez a dramática prisão que a Scotland Yard sonha fazer … há 35 anos.? O vídeo conta outra história. Está lá Biggs, mão estendida, olhar perdido. Ele grunhe um how do you do?, que vale ao britânico tanto quanto um you know para um norte-americano ou um e o cara, aí para um carioca. Uma expressão perdida há tanto nas veias que sai sem pensar. Ou sem precisar pensar.

Existe uma história escondida aí entre as linhas do ?Sun? que está passando em branco e que só os relatórios médicos da velha Justiça bretã vão esclarecer. Que Ronnie Biggs é esse? O atleta que assaltou cinematograficamente o trem dos correios e que fugiu da cadeia, não mais. Mas e a mente por trás do crime, como está? Um derrame pode ser cruel com um cérebro cansado. Três são uma surra. Imaginar aquele homem frágil dizendo que sonha entrar num pub e pedir cerveja preta morna é difícil. E a fama do jornalismo praticado pelo ?Sun? não ajuda muito a corroborar a história.

Há 26 anos, Michael Biggs nasceu para livrar o pai da extradição e da cadeia. O conto hoje se reescreve como numa passagem bíblica que faria qualquer Freud se deliciar na análise. O ?Sun? nega oficialmente que tenha pago um tostão além das despesas de viagem. Iria se ver em problemas com a Justiça se confirmasse o contrário. Mike, o do ?Balão Mágico?, negociou na redação do tablóide a volta do pai para a Bretânia Maior.

Se este era o desejo de um Biggs culpado e preocupado com o futuro de filho e neto, então este é um grande homem. É um cruel acordo em família, mas família tem destas coisas.

Se Biggs não tinha nem idéia do que estava se passando, bem, família também tem destas coisas. Nelson Rodrigues ou Harold Pinter fariam a festa."


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