Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Da letra ao desenho

Se antes jornalistas sabiam o efeito positivo ou negativo de determinada matéria que publicaram pelos comentários de amigos e de alguns leitores, agora, com a popularidade das notícias online, jornalistas são submetidos a um enervante plebiscito digital todos os dias.

Qualquer veículo que tenha website – ou seja, praticamente todos –, pode medir o número exato de visitas a cada matéria. As conseqüências de tal exatidão eletrônica estão apenas começando a aparecer.

No começo do mês, a Salon.com retirou 13 postos de seu sítio, um sinal de naufrágio do mercado pontocom. David Talbot, fundador da Salon, não deu muita importância às demissões.

De acordo com matéria de Howard Kurtz [The Washington Post, 24/6/00], entre os cargos eliminados estavam o de jornalista de mídia e de editor das seções de livros e viagens, todos marcados por números que não despertavam o interesse de anúncios.

Não se pode culpar a Salon. Se sua sobrevivência está por um fio, faz mais sentido liqüidar as seções com menor número de leitores. No entanto, se um jornal fosse editado de acordo com a popularidade de cada assunto, notícias internacionais estariam fadadas à extinção, assim como reportagens sobre o governo. E as fofocas definitivamente estariam nas primeiras páginas. Vale lembrar que um dos departamentos sobreviventes da Salon é chamado simplesmente “Sexo”.

O dar-o-que-o-leitor-quer oblitera a noção de que editores deveria escolher o material importante e interessante – injetando um pouco de fibra em uma dieta rica em gordura. O que a nova era deixa escapar com essa postura é a leitura de textos que geralmente não chamam atenção de determinado leitor, mas que este, sem querer, pega-se lendo-os e torna-se interessado pelo assunto.

De acordo com o Pew Research Center, um número grande de americanos – a maioria jovens – está trocando o noticiário da TV pela notícia online. Por meio de algum tipo de alquimia pontocom, encontram mais credibilidade na CNN.com que na CNN da TV.

Jornalistas encontram-se, assim, submersos em questões de fundo. Deve um jornalista meramente se submeter ao que as pessoas dizem querer? Ou deve correr alguns riscos e esperar que um número suficiente de leitores o seguirão?

Com seu acervo de escolhas e vozes, a internet é um ótimo recurso, mas pode-se estar sucumbindo a uma mentalidade que dilacera o discurso público em pedaços minúsculos. Deveria ser uma vergonha o fato de ter-se tecnologia para abraçar o mundo e encontrar a maior parte das pessoas isoladas em suas ilhas digitais.

 

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