Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Daniel Piza

COBERTURA DE GUERRA

“Para cá de Bagdá”, copyright O Estado de S. Paulo, 30/03/03

“A primeira vítima da guerra é o jornalismo. E não me refiro apenas às contradições entre as reportagens, à incompatibilidade entre as versões, mas também às opiniões que são deitadas como se seus autores fossem demiurgos, profetas ou do caos ou da nova ordem. Depois do 11/9/2001 os maniqueísmos e achismos foram freqüentes também, mas pelo menos vimos tentativas de entrar em discussões mais gerais e básicas. Agora, nessa guerra anglo-americana contra o Iraque, tem-se novamente de um lado o conservadorismo que justifica o ataque por uma suposta superioridade moral e do outro o antiamericanismo ingênuo cuja grande reação é deixar de beber Coca-Cola.

O que está sendo deixado de lado é um debate primordial: o que é uma nação?

Um planeta que tem duas centenas de países e alguns milhares de etnias continua, obviamente, com muitos problemas a enfrentar. Assim é nos Bálcãs, em diversas regiões da África, no Oriente Médio, na Ásia Central – uma mistura explosiva de etnias e religiões díspares exigindo direitos de propriedade sobre os mesmos pedaços de terra.

Em alguns casos, não entendemos o que significam determinados países pequenos. Na península árabe, por exemplo, o que são Catar, Bahrein, os Emirados Árabes e o próprio Kuwait? São países, mas seriam nações? Eles vivem brigando, por causa do óleo do Golfo – enquanto a maioria das populações sofre o flagelo da miséria -, mas têm muito mais em comum do ponto de vista étnico e religioso; assim como na Arábia Saudita, o maior país daquela região, o predomínio é de sunitas, ao contrário de Iraque e Irã, onde os xiitas são maioria.

Em outros casos, como na ex-Iugoslávia, a sensação é a de que ou os países são pequenos ou as guerras serão eternas. O mesmo vale, entre tantos outros exemplos possíveis, para os curdos ou os bascos, etnias com inegável particularidade cultural (língua, costumes, etc.) comprimidas entre fronteiras nacionais difíceis de restabelecer. Em outros casos ainda, como no conflito entre Israel e os palestinos, concluir quem tem mais direito àquele pedaço de terra é uma tarefa de Sísifo, pois não há nem sequer consenso sobre critérios como os de antiguidade (os judeus dizem ter aparecido lá primeiro) e permanência (os árabes dizem estar lá há mais tempo contínuo).

Não me esqueço de quando estive na Rússia e, embasbacado pela ação de Putin na Chechênia, perguntei para minha guia, Nádia, por que tal brutalidade. Ela não soube responder, mas comentou que o desmonte do império soviético criara muitos sentimentos ambíguos. O pai dela, por exemplo, vive na Ucrânia, onde nasceu. Nádia: ?Nenhum russo sente que aquilo é outro país.? Já o Azerbaijão, para ela, é mesmo outro país.

Logo, a função futura de instituições supranacionais – e a meu ver elas devem existir e ser cada vez mais atuantes – não é nada simples. Quem vai definir se haverá e onde será o Curdistão? Como delimitar o tal Estado palestino ?viável? de maneira que aplaque as iras religiosas? Quantos países deve ter a África de 10 mil reinos tribais, já que na maioria dos atuais 40 a guerra civil é latente ou corrente? O que fazer com a Chechênia que, ao contrário do Iraque, não leva ninguém no mundo ocidental ou oriental a protestar nas ruas? Etc., etc., etc.

Tudo isso envolve, claro, novo papel para a ONU, que ou ela assume ou corre o risco de se tornar obsoleta. Por que e como dar à ONU um poder de fogo, sem superposição com a Otan, para que ela não seja apenas uma instituição diplomática perdida em burocracias, que por três vezes em uma década – Bósnia, Kosovo e Afeganistão – se recusou a apoiar ações militares contra governos que cometiam crimes contra a humanidade? Como torná-la ao mesmo tempo mais multilateral, expandindo direitos de veto a mais países, e mais eficaz, com capacidade de lutar por essas tantas causas?

Uma coisa me parece certa. Os EUA não são apenas George Bush II – e a tradição de política externa do país, seja democrata seja republicana, o inspira fortemente -, mas ficam bem piores quando esse tipo de gente está no poder. E por quê? Porque, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, sobretudo no Oriente Médio, os EUA não são uma sociedade 100% laica, secular, materialista. Ela tem também um forte componente de religião, de idealismo, de messianismo, que estudiosos como Tocqueville, Edmund Wilson e Robert Hughes cansaram de demonstrar. E é esse salvacionismo moralista de parte da sociedade americana que está montado nos Tomahawks agora. O terrorismo faz as vezes do comunismo: justificaria qualquer ação contrária.

O problema de Bush II não é ser contra a expansão de um fundamentalismo islâmico armada sobre a parceria de tiranos e terroristas. Seu problema é representar uma facção da sociedade americana que é muito parecida com esses fundamentalismos quando seus interesses estão em jogo. A comparação entre as sociedades não dá para a saída. A liberdade e a tolerância que se encontram nos EUA, especialmente em Nova York, são inassimiláveis pelas sociedades teocráticas. Mas também incomodam boa parcela dos próprios americanos como Bush II, que, apesar de usar a tecnologia bélica que usa, já deixou bem claro o quanto desconfia da ciência e do agnosticismo. Eis a questão.”

“A guerra sob todos os ângulos”, copyright O Estado de S. Paulo, 30/03/03

“A TV nunca mostrou tanto poder de munição, na cobertura de uma guerra, como agora. Você pode até trocar de canal e ver informações desencontradas, o que não acontecia em 1991, na Guerra do Golfo, quando a norte-americana CNN dava as cartas sozinha. Mas esta é a grande vantagem da vez: a multiplicação de imagens sob focos de interesses distintos torna mais difícil, para qualquer um dos adversários, manipular informações por meio de imagens. É a ?democratização? da guerra na TV, em que as primeiras imagens de bombardeios ao Iraque foram mostradas em primeira mão, não pela CNN, mas pela rede portuguesa RTP e pela emissora Abu Dhabi, dos Emirados Árabes Unidos.

Aliás, a rede árabe tem sido destaque nesta guerra. Depois de a Al-Jazira, do Catar, emplacar imagens do ataque ao Afeganistão, no ano passado, em todos os países do mundo, a Abu Dhabi segue o mesmo caminho. O chefe do Departamento de Correspondentes da Abu Dhabi, Rachid Jaafar, diz que a emissora vem se munindo para a guerra há seis meses. ?Temos seis repórteres no Iraque. Três estão no norte do país e dois foram enviados para Bagdá, onde já tínhamos um correspondente?, conta Jaafar.

O QG dos jornalistas é próximo ao palácio do governo, o que facilita o trabalho dos repórteres que, segundo Jaafar, ?não é mais fácil do que o dos jornalistas ocidentais?. Mas ?é bom porque as pessoas só viam o lado da CNN, o lado americano; agora, o telespectador tem acesso aos dois lados da história?, fala Jaafar. Ele afirma ser imparcial na cobertura da guerra e orgulha-se de ter colocado no ar uma entrevista com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell.

A imagem-padrão do céu de Bagdá também mudou. O aspecto de videogame de 1991, com luzinhas ao fundo escuro e sem sangue em foco, deu lugar a imagens mais nítidas: fruto da democratização dos canais e dos recursos tecnológicos. Hoje, com o videofone (leia texto abaixo), a transmissão tem quase o mesmo imediatismo que uma ligação telefônica.

?Esta é uma guerra de alta tecnologia em todos os sentidos?, afirma o correspondente da CNN Espanhol, Juan Carlos Lopez, que está no Kuwait. ?Uma guerra é, em sua essência, sangue e glória. A diferença é que esta guerra colocará muitas imagens terríveis ao vivo na TV.? Lopez é casado, tem dois filhos e acha que a parte mais difícil de seu trabalho é ter de ficar longe da família. Mesmo sendo repórter da CNN, o correspondente utiliza, entre outras fontes, informações da mídia do Oriente Médio.

De olho nesse público que procura imagens do Iraque em todos os canais, a Sky acaba de inaugurar o serviço ?Mosaico Especial Conflito no Iraque?, que permite acompanhar, simultaneamente, quatro canais na mesma tela – BBC, CNN International, Fox News e Globo News.

?A guerra ficou mais próxima com os chamados ?embedded? (jornalistas infiltrados entre as tropas aliadas). Ainda que os equipamentos de videofone tenham qualidade aquém do desejado, esse é o testemunho de jornalistas ao vivo e em cores?, comenta Marcos Uchôa, correspondente da Rede Globo na Cidade do Kuwait, que está acompanhado de Eric Hart e Sergio Gilz. ?Existe um perigo muito grande de transformar a guerra em um espetáculo ao se abusar dos relatos desses repórteres, com o impacto de ?aventura e perigo? que eles trazem.?

A tecnologia do videofone não se compara aos equipamentos utilizados em coberturas de guerras nas décadas de 70 e 80. Sérgio Motta Mello, hoje proprietário da produtora TV1, cobriu os conflitos em Angola (1975), El Salvador e Nicarágua (ambos em 1979), quando a novidade era, acredite, o videoteipe, equipamento que fez a TV ganhar imagens gravadas.

Para ele, a cobertura desta guerra parece ser mais ?segura? pelo fato de muitos jornalistas estarem acompanhando as tropas. A proximidade, no entanto, acredita, faz com que as informações se tornem pouco confiáveis.

?Os Estados Unidos têm o controle das informações. Acredito que, antigamente, o público não via tantas bombas, mas era mais bem informado.?

Uchôa chama a atenção para esse equilíbrio. Afirma que cada veículo deve tomar cuidado para que a cobertura não se torne um ?nós contra eles?, resultado de patriotismo. ?O que os ?embedded? vêem é apenas uma árvore, é bem parcial. A floresta escapa totalmente a eles.?

Sem noção – Além da Globo, a RedeTV! também tem correspondentes no Oriente Médio. São as únicas emissoras brasileiras na zona de conflito. Na última terça-feira, os jornalistas Tony Castro e Tiago Gardinali, da RedeTV!, munidos de notebooks e câmeras, embarcaram para a Jordânia. O objetivo é entrar no Iraque e fixar-se em Bagdá – tarefa difícil nessa altura do campeonato. Sem contar os 500 ?embedded?, cerca de 180 jornalistas estão na capital iraquiana e uma centena de outros repórteres, em países vizinhos, tentando entrar no país.

Tony, de 33 anos e que integra a equipe de Leonor Corrêa em A Casa é Sua, conta que tinha tudo ?esquematizado? para cruzar a fronteira do Iraque. ?Não temos visto, mas, do jeito que a coisa está, é mais fácil entrar no Iraque com o visto norte-americano do que com o iraquiano?, declarou antes do embarque.

Nem Tony nem Tiago, de 23 anos, que trabalha para o Canal Aberto, de João Kléber, têm experiência em cobertura de guerra – os dois são solteiros e não têm filhos. Os correspondentes da CNN e BBC, por exemplo, são veteranos em guerra e beiram os 50 anos. ?Estamos acostumados com a guerra urbana em São Paulo. Tiroteio para cá e para lá?, justificou Tony, que já trabalhou para Ratinho, Cidade Alerta e os extintos Rota do Crime e Aqui Agora. ?Queremos mostrar os acampamentos, os hospitais… Nada de imagem 3 x 4, como a Globo.

Nossa câmera será nervosa?, garantiu Tiago, que também fará comentários para a rádio Jovem Pan.

Uchôa, que está na região desde o início da guerra e se considera acostumado com os tiroteios do Rio, garante que o barulho das sirenes e dos mísseis não se compara à guerra urbana no Brasil. ?Sempre existe a idéia de que uma bala tem de ser endereçada a alguém. No caso de uma bomba, o alvo é indiscriminado. É a morte no ventilador.? No segundo dia de bombardeios, um míssil passou muito perto do hotel em que está hospedado e caiu no mar. ?Me joguei no chão automaticamente. Depois me levantei, sentindo uma mistura de alívio e ridículo. Espero que qualquer ataque ou perigo contra nós seja como numa batalha naval e sempre dê água!?

Medo – Roberto Cabrini, da Bandeirantes, que fez a cobertura de cinco guerras e espera ainda ir ao Iraque, diz que o medo é comum em situações- limite como guerras. ?É muito difícil trabalhar ouvindo disparos e vendo pessoas mortas, mas é preciso manter o controle. Todo mundo tem medo, mas ele não pode tirar sua capacidade de raciocinar.?

De uma cobertura para outra, acredita que conseguiu desenvolver um autocontrole maior. Muitas vezes, teve de trabalhar sozinho. Quando esteve na Caxemira, em 1998, pela Globo, Cabrini filmou com uma microcâmera o encontro com guerrilheiros. ?Saí de madrugada com guerrilheiros para escalar montanhas e encontrar o restante do grupo.?

O jornalista William Waack, da Globo, diz que também gostaria de estar no front. ?Acho que tenho uma boa contribuição a dar como jornalista, cobrindo um acontecimento dessa magnitude?, afirmou Waack, que trabalhou em seis guerras, incluindo a do Golfo (1991) para o Estado – ganhou o Prêmio Esso junto com Hélio Campos Mello.

Waack já foi prisioneiro de guerra. Ao lado de Hélio, foi capturado pelos iraquianos em uma estrada próxima a Basra. Conta que, enquanto esteve nas mãos dos soldados regulares e, mais tarde, dos soldados da Guarda Republicana, foi bem tratado. ?A imagem que me vem à cabeça? A do céu com nuvens pretas, o frio, o vento e a sensação de estar perdido em um ambiente hostil e incompreensível.?

Motta Mello vivenciou um dos piores momentos em 1979, durante a guerra civil da Nicarágua. Dividia o equipamento com a equipe da ABC, dos EUA, cujo repórter era Bill Stuart, morto brutalmente. O assassinato de Stuart foi gravado por sua equipe. ?Bill não falava espanhol e se aproximou de guardas republicanos, que já estavam embriagados. Eles pediram para ele ajoelhar e, quando ajoelhou, deram um tiro em sua nuca.?

A arma é o videofone

O videofone, instrumento de trabalho mais usado pelos repórteres de TV nesta guerra, é composto por uma câmera digital, um notebook e um sistema de transmissão por satélite (uma antena pequena e um modem). O equipamento é muito pequeno e sua utilização sequer é identificada como uma transmissão de TV. Para usar o videofone é preciso apenas um ponto de energia.

Uma pessoa sozinha pode operá-lo – a imagem e o som são comprimidos para viajar pela internet. O repórter não pode se movimentar rapidamente diante da lente, a fim de evitar imagens ?picadas?. O equipamento funciona como um canal de transmissão e recepção: o repórter pode acompanhar o que está no ar e as imagens geradas pela internet já podem chegar editadas. A Globo usou o videofone na guerra do Afeganistão, na viagem de Gerard Moss pelo mundo em um motoplanador, na viagem de Glória Maria à China e na de Clayton Conservani à Antártida. A possibilidade de enviar imagens pela internet reduz em até 10 vezes os custos.”

“Repórter português conta como conseguiu ?furar? a CNN”, copyright O Estado de S. Paulo, 30/03/03

“Primeiro canal de TV do mundo a colocar no ar as imagens do bombardeio dos Estados Unidos ao Iraque, dia 19 passado, a RTP, Rádio e Televisão Portuguesa, mantém em Bagdá o autor da façanha, Carlos Fino Miguel, de 56 anos. Experiente correspondente de guerra, ele está instalado no 17.? andar do hotel Méridian da capital iraquiana – a 600 metros do palácio de Saddam – e usa o sistema de videofone. Em entrevista ao Estado por telefone, o jornalista fala sobre as dificuldades que enfrenta agora e da principal diferença entre a cobertura da TV nesta guerra e nos conflitos anteriores: o fim do monopólio americano de informação.

Estado – Como você conseguiu transmitir as imagens antes de todos?

Carlos Fino – Estava de plantão 24 horas no dia em que foi anunciado o ataque. Deixei meu videofone ligado na sacada do hotel e fiquei lá, esperando. O mais difícil foi me livrar do sono. Estava exausto, tenso. Foi quando ouvi a sirene em Bagdá. Avisei a RTP e entrei no ar 30 segundos depois, com as imagens ao vivo. Tínhamos todo um esquema para conseguir essas imagens. Estou de frente para o Palácio de Saddam e sabia que ele seria atacado. Cheguei a ver mísseis vindo na direção do hotel. Mas tenho consciência de que não conseguiria nada disso sem o videofone. Essa é uma das principais diferenças em relação às outras guerras que cobri.

Estado – Quais guerras você já cobriu?

Fino – Passei anos na Rússia, cobrindo os conflitos na dissolução da ex-União Soviética. Estive na Albânia, na Chechênia, no Afeganistão e outras confusões grandes (risos). Foram conflitos bem diferentes deste, eram guerras em que os jornalistas acompanhavam de perto os soldados, faziam coberturas das trincheiras, da luta homem a homem, mas com poderio militar bem inferior. Nesta guerra, durante os primeiros bombardeios, chegava a sair na sacada do hotel como se fosse assistir a um espetáculo. Isso é horrível, as TVs têm de tomar cuidado para não tratar essa guerra como espetáculo.

Estado – Vocês andam sozinhos pelas ruas de Bagdá?

Fino – Não, só saímos em comboio (de jornalistas) com guias iraquianos e não saímos do percurso que eles determinam.

Estado – Quantos jornalistas ainda estão em Bagdá?

Fino – Entre 150 e 200, mas muitos estão indo embora neste final de semana, por causa da invasão americana. Procuramos nos ajudar.

Estado – O que mais mudou na cobertura de TV dessa guerra para as anteriores?

Fino – Além da tecnologia, é o fim do monopólio de informação. No Golfo, só a TV americana noticiava e o que queria. O acesso às informações era só pelo lado americano. Desta vez é diferente. Há jornalistas de todo o mundo espalhados pelos dois lados do confronto, a situação é muito mais aberta. Há mentira, há desencontro de informações, mas há o mais importante: os dois lados da história.”