Friday, 24 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

DataFolha pauta a Folha

ELEIÇÕES 2000

José Antonio Palhano (*)

"Vantagem de Marta volta a cair." Essa era a manchete da Folha de S.Paulo no domingo (22/10), exata uma semana antes das eleições. Foi assim que o jornal optou por divulgar a mais descarada e escandalosa escalada fascistóide – ocorrida naqueles dias – de que já se teve notícia entre nós desde o pós-guerra. Traduzindo: a investida animalesca de Paulo Salim Maluf contra sua oponente – um frontal e selvagem ataque à mulher brasileira – mereceu encimar a primeira página do maior diário do país unicamente sob a ótica da sua intenção e dos seus efeitos: a tática de Maluf e de seus gorilas estava dando resultados. Assim rezou dominicalmente a Folha: conivente, passiva e pusilânime. Logo abaixo, um gráfico colorido, enorme, no qual a curva descendente da candidata do PT tinha a contundência de uma seta apontando diretamente para as profundezas do inferno.

Alberto Dines e outros observadores já escreveram aqui à exaustão a respeito da pesquisite que tomou conta do processo eleitoral brasileiro. Dessa vez, já não se trata de abordar a questão apenas do seu ponto de vista de costume, da conveniência de se publicar tendências de voto de maneira que ignore solenemente as peculiaridades do calendário eleitoral. A Folha agora foi bem mais longe. Sua pesquisa programada para aquele domingo derrubou estrepitosamente um fato jornalístico de primeira grandeza, qual seja a opção declarada, última e desesperada do malufismo pela safadeza machista, suja e covarde. E, muitíssimo pior (o que dá assunto para sociólogos e quejandos até não poder mais), ufanista.

Estúpida agressão

O fato é inédito no nosso jornalismo contemporâneo. Trabalhou-se mais de uma semana, dentro da nossa maior redação, com a única, definitiva e castradora perspectiva segundo a qual nada haveria de ocupar o espaço da manchete domingueira, reservado – sob os rigores de um sectarismo equivalente à ânsia com que os adversários de Marta Suplicy partiram para transformá-la em reles meretriz – ao sacrossanto resultado do DataFolha.

Cuja publicação foi, sim, além de vergonhosamente alienada com o que acontecia de fato na campanha paulistana, indutiva e pró-Maluf. Haverá na Barão de Limeira, tão pródiga em idolatrar números, quem tenha em mãos quantos milhares (ou milhões) de leitores stop and go tem a Folha de S.Paulo? Aquele exército de eleitores que, apenas para ficar no eixo Rio-São Paulo, param em frente às bancas do centro somente para ler as manchetes dos jornais diários? E, dentre esses, quantos não são fiéis à crença segundo a qual o voto não deve ser sufragado em nome do candidato perdedor? Ou reconhecer que este é um vigoroso e emblemático traço da nossa tenra democracia provoca engulhos na Folha?

Não há como fugir: a leitura do jornal naquele domingo ou foi futebolística – "Virada espetacular de Maluf" – ou foi turfística – "Maluf atropela espetacularmente nos quatrocentos metros finais". Tudo em nome da suprema abnegação pelos números frios e implacáveis. A molecagem assumida de Maluf, tampouco a expressiva (e preocupante) adesão do eleitorado, não foram suficientes para suscitar uma reação que sacrificasse a manchete há muito programada. O importante era registrar a ascensão do candidato, independentemente dos métodos utilizados para tanto.

Estes, até onde a vista alcança, estavam por merecer não só uma manchete condenatória mas, talvez, um caderno inteiro. Como se viu, porém, quem pauta o jornal é o DataFolha. A histérica manchete daquele domingo, acompanhada do gráfico obscenamente colorido, foi, bem diverso de eleitoral e neutra, uma estúpida, inesperada, extemporânea e malufista agressão à mulher brasileira.

(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo, em Campo Grande, MS

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