Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Depois de nós, o dilúvio

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VERBOS E VERBA

Antonio Fernando Beraldo (*)

No princípio era o verbo, ou melhor, dois verbos: pegar um monte de dinheiro aqui dentro e lá fora, remunerando essa grana toda com juros hiperbólicos, mas pagando em dia as amortizações (ou "honrando" as parcelas, como se diz no jargão comercial). Com se gastava muito com as estatais perdulárias, vendeu-se este sumidouro de dinheiro público, colocando-se na mesma banca da feira tanto uma CSN quanto uma Vale do Rio Doce. O negócio era livrarmo-nos destes empecilhos, para que o governo pudesse aplicar o dinheiro do povo em projetos para o povo: saúde, educação, segurança. Todo mundo de acordo? Não, havia uns "fracassomaníacos" e os neobobos, a esquerda atrasada, os eternos descontentes… contudo, vamos em frente. Houve, e há, também, uma tal de CPMF, que era para adiantar um dinheirinho para a área de saúde. Não foi bem assim ? aliás, não foi nada assim ?, mas o país cresceu e conseguimos manter a inflação em níveis civilizados, ou quase, durante pelo menos uns quatro ou cinco anos. E, o que é mais importante, manter o crédito junto aos organismos internacionais para realimentar o círculo que vem desde o princípio, que era o verbo, ou melhor, dois verbos…

Durante uma eternidade que ainda persiste, a arrogância monocórdica de um Gustavo Franco ou o aplicado e servil deslumbramento de um Pedro Malan foram apenas apêndices da superioridade do "eu-sei-o-que-estou-fazendo, imbecis" do presidente FHC. Enquanto isso, uma meia dúzia de chatos (por exemplo, a ONU) insistia em apontar a nudez do imperador, cuja roupa nova (nova?) persistia costurada no vento de uma distribuição de renda vice-pior-do-mundo, de uma taxa de mortalidade infantil em torno dos 36 por mil (1999) e uma taxa de analfabetos de 13% (geral, 1999), além da volta da tuberculose (!) e dos surtos de dengue ? só falta a lepra e o botulismo, se é que falta. Isso, segundo dados do IBGE e do próprio governo. Em termos mais extremos, temos o estado de Alagoas com 7 óbitos por 100 nascidos vivos, e o Maranhão com 36% de analfabetos (!) ? não se deve comparar estes números com nenhum outro país do mundo civilizado.

O que é que eu tenho com isso?

Duas cartas no Painel do Leitor do último domingo (13/05) cutucaram a Folha de S.Paulo e, por tabela, toda a mídia impressa. Os dois leitores comentavam o mesmo editorial, "Energia sem governo", de 10/5. Mereciam uma reprodução na íntegra, mas, em resumo, cobravam da Folha um mea culpa por ter o jornal apoiado o projeto de privatização generalizada de Fernando II, o Limpo. A Folha, que não veste a carapuça de jeito nenhum, vem com uma Nota de Redação, digamos, tangencial, onde afirma que "defendeu e defende as privatizações, mas dentro de um modelo de desenvolvimento estratégico do país, que nem sempre foi atendido pela equipe econômica, que realizou desestatizações preocupando-se principalmente com o curto prazo" (grifos meus).

Ora, que modelo é esse? O modelo da Folha? E por acaso a equipe econômica deixou de fazer o que bem entende, que foi o que mandaram fazer? ["Mandaram", aqui, fica por conta de uma(s) terceira(s) pessoa(s) do plural que você sabe muito bem quem são.]

O tal editorial tenta livrar a cara não só da Folha, mas da quase totalidade da mídia. Todos os jornais fazem questão de manter alguém (um articulista, um colaborador mais freqüente) que derrama fluídos de rebeldia e de oposição ? cai bem numa espécie de "pluralismo de opiniões", afinal, estamos numa democracia, não? Até o Globo tem o João Ubaldo Ribeiro, o Luis Fernando Verissimo, o Márcio Moreira Alves. Mas o sumo dos jornais está na transcrição (para dizer o mínimo) dos press releases oficiais, na reprodução da palavra de um secretário aqui, outro ali, um ministro assim, outro assado, outro fritado… E parece que é impossível que um jornal consiga colocar, como destaque que deveria merecer, opiniões técnicas abalizadas, mesmo que conflitantes. Fica parecendo que tudo é político, ou política.

A realidade é algo de que não se cogita, até que aconteça: você já reparou quantas vezes apareceu alguém (um ministro, um secretário, um senador) dizendo-se "surpreso" ou "perplexo" com algum fato "novo"? Só para lembrar algumas novidades: a greve dos caminhoneiros; a rebelião nas prisões de São Paulo; a greve dos professores universitários; os surtos de dengue; a falta de vagas nas escolas públicas; as invasões do MST; a crise da Rússia; e agora, depois do apagão da CPI da corrupção, o apagão propriamente dito.

Corrupção preventiva e ordem de grandeza

Durante a II Guerra Mundial, a Inglaterra enviou um grupo de aviões bombardeiros para destruir barragens importantes no vale do Rühr, coração energético do esforço industrial de guerra alemão. O comandante da esquadrilha mandou pintar em seu avião a frase atribuída a Mme. de Pompadour: "Depois de nós, o dilúvio" (em francês é bem mais bonito: Aprés nous, le deluge). A favorita de Luís XV referia-se à esbórnia financeira da corte dos Bourbon, que um dia ainda haveria de arrebentar a França ? como, aliás, aconteceu. A missão inglesa conseguiu fazer um estrago tamanho na produção de aço e de energia dos alemães que Churchill a reconhece como fundamental na resistência ao avanço dos nazistas e no retrocesso da maré da guerra. Vales foram inundados na escuridão, muita gente morreu, demorou muito para se refazer o potencial de geração de eletricidade ? afinal, aquilo era uma guerra.

Talvez estes nossos tempos também sejam de guerra. E este dilúvio de corrupção "preventiva", onde Fernando II, o Limpo, manda, deixa, sugere, incita (ou que verbo seja) corromper para que não se investigue corrupções passadas, ou presentes, é a guerra para manter ativos os sinais vitais do segundo reinado, conquistado sabe-se bem como.

Aí começa outro probleminha: a tal ordem de grandeza, um conceito extremamente importante em termos de análise de dados. A muito grosso modo, ordem de grandeza é uma medida de comparação entre escalas. Quando se fala em termos de idade das pessoas, e diz-se que alguém está com 97 anos de idade, todo mundo se espanta, pois, afinal, isso não é para qualquer um. Mas, para uma tartaruga e, dizem, um papagaio, isto é a tenra infância (viva o clichê!). Pois bem: os tais deputados que admitiram receber uns trocados para conceder a Fernando II uma "nova chance", falaram em coisa de 200 mil reais, per capita. Já o abafa da CPI, meus caros, ficou em 79 milhões de reais (em nove dias), quase quatro vezes o total que havia sido liberado nos quatro primeiros meses do ano. Dá para demover uns 4.000 "Ronivons". Isto sem contar as tais 659 rádios comunitárias cujas concessãos foram convenientemente liberadas uma semana antes da operação-abafa. E olhe bem que estou citando O Globo, um jornal insuspeito (perdão, senhoras).

A Folha até inventou uma nova medida "financeira": a taxa de liberação de recursos, medida em milhões de reais/hora. Na quarta-feira passada (9/5), chegou a 2 milhões de reais/hora. Segundo FHC, o Limpo, este é um ritmo normal de liberação de verbas. Depende, é claro, do caixa do governo. Daí, que ficamos subitamente bem de caixa no começo de maio, ouviu, otário? Que bom!

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