Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Desforras, ritmo sumário e farisaísmo

VEJA DEMITE EDITORA

Alberto Dines

Estas observações estão sendo redigidas antes de qualquer conversa com a editora de Economia de Veja, Eliana Simonetti, que acaba de ser afastada pela direção da revista. A jornalista deverá participar do Observatório na TV que vai ao ar praticamente na mesma hora em que esta edição estiver disponível na internet [veja o compacto a partir de quinta-feira, 23/11 e reprise pela TVE no sábado, 19h30]. A intenção deste distanciamento é permitir uma avaliação objetiva e impessoal do tratamento que o episódio recebeu da mídia.

O Correio Braziliense levantou a lebre na segunda-feira, dia 12/11, informando por telefone à redação de Veja que o nome da sua editora de Economia constava de uma página da agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos ao lado da cifra 40 K (= 40 mil reais). A jornalista declarou ao jornal que tratava-se de empréstimo pessoal pois eram amigos.

A partir desta alegação a direção da empresa "concluiu que se configurava uma situação de conflito de interesses e decidiu por seu desligamento" (Veja, edição de 2/11, pág. 29).

O lacônico comunicado a respeito do justiçamento sumário da editora foi publicado com relativa descrição nos jornais do dia seguinte, 13/11. Menos no Jornal do Brasil, que o aproveitou para vingar-se em dose múltipla das duas denúncias de que fora vítima um dos seu principais acionistas, Nelson Tanure: a) quando o nome deste apareceu na agenda do lobista e, b) ainda antes, quando a revista transcreveu um grampo que revelava conversas de um assessor de Tanure com o colunista de O Globo Ricardo Boechat, que acabou demitido também sumariamente do seu jornal. Boechat é hoje editor-chefe do JB.

A matéria do JB, além da chamada na primeira página citando expressamente a jornalista de Veja, ocupava quase toda a pagina 3. Ambas estão longe de ser modelares em matéria de isenção e equilíbrio. Destaque e tratamento do material informativo (inclusive a foto do presidente da Editora Abril Roberto Civita ao lado da foto do lobista) contrastam vivamente com a dimensão do episódio, com a cobertura do resto da imprensa e até com o comportamento de Época, concorrente direto de Veja.

Ficou evidente que para dar vazão ao seu ressentimento contra Veja, a direção do JB n&atildatilde;o titubeou em tripudiar sobre a profissional demitida.

Além deste jornalismo de desforra que nos remete a outros tempos e outros padrões, o que chama a atenção no caso de Eliana Simonetti, de Ricardo Boechat e Alberico Souza Cruz (também punido com uma nota oficial da direção da Rede Globo, em 1995) é que as empresas destacam as demissões dos profissionais mas não dão ao demitido a mais ínfima chance de defesa pública.

Este rito sumário, ao invés de mostrar transparência e respeito aos leitores, sugere um impulso para abafar o caso antes que possa respingar em mais alguém. Ou levantar suspeição em torno do sistema midiático.

As empresas jornalísticas brasileiras já aprenderam a conceder aos denunciados por suas matérias o direito de defesa. Mas não o estende aos seus próprios jornalistas quando acusados publicamente. Não é essa a praxe nos grandes veículos americanos ou ingleses.

No Brasil, os casos de punição de profissionais só chegam ao conhecimento do público quando já são de domínio público. Em geral, divulgados por outros veículos. Então, o castigo é exemplar para demonstrar um rigor que, muitos vezes, não é aplicado quando o caso corre intramuros.

Tantos as vendetas como os justiçamentos não conseguem esconder um certo farisaísmo. Sobretudo porque não se registram casos de empresas punidas quando prevaricam em proveito próprio.


[veja comentário de Bernardo Ajzenberg na rubrica Voz dos Ouvidores,
nesta edição].