Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Dorrit Harazim

IMAGENS DO FRONT

"Horrores da guerra sob as lentes", copyright O Globo, 23/3/03

"?Em tempos de guerra, todo repórter imparcial deveria ser fuzilado?, sustentava Ilya Ehrenberg, jornalista da antiga União Soviética, enquanto cobria a Segunda Guerra Mundial 4(1939-1945). Eram tempos em que os enviados à frente de combate ainda vestiam o uniforme de seus países com orgulho, e editores de jornal cortavam textos e fotos que pudessem prejudicar o moral nacional. Sobretudo, vigoravam critérios jornalísticos que se imaginava mortos e enterrados.

No dia 7 de maio de 1945, por exemplo, um grupo de repórteres aquartelados na cidade francesa de Reims presenciou nada menos do que a rendição da Alemanha nazista. Mas como os soviéticos exigiam que a cerimônia se oficializasse em Berlim, palco mais apropriado para um final de conflito de tamanha magnitude, foi imposto embargo de um dia sobre a notícia. Apenas um dos repórteres não compactuou ? o americano Edward Kennedy, da agência de notícias Associated Press (AP), que repassou a informação para Londres. Repelido pelos colegas, acabou sendo demitido e morreu amargurado. Hoje, uma placa no seu túmulo na Califórnia lhe presta a devida homenagem: ?Ele deu ao mundo 24 horas a mais de felicidade.?

Todo conflito armado tem sua tribo de testemunhas profissionais, e dela podem brotar lendas ou vilões do jornalismo. O que muda, essencialmente, é o peso desses olheiros da História sobre a opinião pública. Até a Guerra da Coréia (1950-1953), as relações entre imprensa e comando militar americano foram amistosas e informais. Ambos se hospedavam sob o mesmo teto. ?Você acordava às 7h58m e chegava ao briefing diário às 8h, descalço e de ressaca?, relembra o americano George McArthur, então correspondente da agência AP. Naquele conflito do outro lado do mundo, numa era pré-televisão, ainda prevalecia o cordão umbilical entre autoridade e repórter. ?Quando escrever?, instruiu um coronel ao enviado do ?Chicago Daily News?, ?lembre-se que não batemos em retirada. O que ocorreu foi que vimos mais chineses na nossa retaguarda do que a nossa frente, e por isso decidimos dar meia-volta e atacá-los?.

Fotógrafo premiado cometeu suicídio

Foi ao longo da interminável sangria humana no Vietnã (1959-1975) que a profissão de correspondente de guerra adquiriu maturidade plena. Embora ainda não existisse a cobertura televisiva ao vivo, direto da frente de combate ? imagens da guerra chegavam à sala de visita dos americanos com 18 ou 24 horas de atraso ? a imprensa trabalhou com uma liberdade de movimento sem paralelo até hoje. Para Philip Knightley, premiado jornalista do ?Sunday Times? e autor de um estudo sobre a cobertura jornalística em guerras (?A primeira vítima?), o Vietnã revelou o poder da mídia. Ali tombaram mais de 60 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Ali nasceram dilemas morais e éticos sobre o exercício da profissão, não resolvidos até hoje.

Por tudo isso, e tendo a guerra contra Saddam Hussein como pano de fundo, não poderia ser mais oportuna a chegada às livrarias brasileiras de ?O clube do bangue-bangue, instantâneos de uma guerra oculta?, de Greg Marinovich e João Silva (Companhia das Letras, 336 páginas, R$ 39,50). Greg e João são dois fotojornalistas da África do Sul. Durante a fase mais bestial da violência entre facções negras, manipulada pelo regime branco da época (1990-1994), eles se embrenharam nas infames cidades-dormitório de Johanesburgo e começaram a fotografar uma guerra até então oculta. É deles o relato franco e inquietante das vísceras da profissão. Os outros dois companheiros da ?gangue? ? Ken Oosterbrock e Kevin Carter, também filhos da classe média branca, também fotojornalistas por acaso, igualmente infectados pelo vírus do Vietnã ? morrem na nossa frente, nas páginas do livro.

O mérito de ?Bangue-bangue? não está na qualidade do texto, e sim na descrição impiedosa do que passa pela cabeça de quem registra matanças e miséria humana através de uma lente. Vale, também, para uma compreensão mais geral da tribo de repórteres nômades que se desloca de guerra em guerra. Uns se protegem do que vêem escrevendo num laptop ou no velho bloco de anotações; outros, acionando o obturador da câmera fotográfica. Mas o filtro necessário é o mesmo. ?Às vezes nos sentíamos como abutres?, conta Greg Marinovich. ?Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Porém nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos tenham feito alguma diferença.?

Greg foi o primeiro fotógrafo sul-africano a ganhar o Prêmio Pulitzer de Reportagem, reconhecimento mais cobiçado do jornalismo mundial. Tinha registrado passo a passo a morte horrenda de um zulu queimado vivo. ?Isso me perturbava?, relembra. ?Ainda assim, quando passei por uma banca de jornal e vi a manchete ?Fotógrafo da África do Sul ganha Pulitzer?, não pude deixar de me sentir orgulhoso?. O Pulitzer teve efeito imediato sobre a carreira de Greg. Conseguiu contrato como correspondente de guerra na Croácia e em questão de dias estava na linha de frente, lugar reservado para a elite do jornalismo. ?Descobri que gostava de guerra. Você sente uma excitação única, singular?, escreve. Era o traço comum mais forte ao grupo.

Kevin Carter, o caçula da gangue, foi o segundo Pulitzer da África do Sul. Saiu do anonimato ao fotografar uma mulher negra sendo chutada e espancada por uma turba também negra. Até aí, nada de novo numa guerra intestina em que morreram 14 mil civis. Exceto por um detalhe: a vítima tinha um pneu em torno do pescoço. O pneu foi regado a gasolina e um fósforo aceso fez o resto. Kevin tinha descoberto a prática da ?gargantilha?, aplicada sistematicamente a traidores e dedos-duros.

Pouco depois, o acaso levou Kevin até Ayod, um povoado empoeirado do sul do Sudão, para cobrir o genocídio de tribos cristãs pelo governo muçulmano. Por um segundo apenas, viu o vulto de um abutre pousado no chão de terra, exatamente atrás do esqueleto vivo de uma criança acocorada. Foi o bastante para Kevin Carter fazer a foto que lhe daria o Prêmio Pulitzer de Fotografia de 1993, e status de celebridade internacional. Mas não agüentou o peso de uma pergunta que lhe era feita por crianças e adultos, onde quer que aparecesse: o que fizera pela criança, depois de bater a foto? Antes de se suicidar, aos 33 anos, com uma mangueira enfiada na boca e a outra extremidade num cano de descarga, desabafou seu ódio pela foto premiada.

O dilema está na raiz da profissão desde que ela existe. Até mesmo James Nachtwey, talvez o mais premiado fotógrafo de guerra dos últimos 40 anos, reconhece que perseguir a dor, a morte e a desgraça alheia pode ser uma forma de exploração. Mas a alternativa ? permitir que a miséria humana permaneça clandestina e fora do alcance de uma ação ? seria ainda pior. A ensaísta e escritora Susan Sontag, que em 1977 publicou um duro libelo contra o fotojornalismo ? classificando de ?turistas? e ?voyeurs de guerra? os que exercem a profissão ? acaba de publicar uma espécie de ?esqueçam o que escrevi?. Em seu livro mais recente, intitulado ?Regarding the pain of others? (?Olhando a dor alheia?), Sontag reconhece que não nos tornamos necessariamente entorpecidos e incapazes de reagir à enxurrada de imagens. Admite, sobretudo, que a alternativa ? racionar o horror para manter viva a sua capacidade de chocar ? seria bem mais nociva.

Para a centena de jornalistas e fotógrafos estreando como correspondentes de guerra no Iraque, o veterano Jeffrey Goldberg, da revista ?New Yorker?, vaticina: ?Os jornais que despacharam repórteres juniores, sem experiência, vão se dar mal. Quem nunca viu alguém levando tiro não está preparado para o que vai sentir. Sobretudo quando o corpo estraçalhado por algum tiro for de um colega.?"

"A TV chega ao front", copyright Jornal do Brasil, 22/3/03

"Editor mundial de notícias da rede BBC, o londrino Jonathan Baker fala sobre a experiência de coordenar a atuação de mais de 200 profissionais da mídia na linha de frente da guerra no Iraque, explica que a imagem de Bush se penteando com laquê, antes do anúncio dos bombardeios, exibida no mundo inteiro, foi apenas um erro operacional de sua emissora e nega que a disputa pela audiência influencie a cobertura jornalística de um grande conflito.

A guerra pós-moderna é um espetáculo. Com armas cada vez mais digitalizadas e ataques cada vez mais automáticos, a televisão se tornou um dos campos de batalha mais importantes nesse cenário. A opinião pública, uma das bandeiras a serem conquistadas pelos exércitos, tem acesso aos fatos pela ação de outra guerra, travada pelas grandes redes de notícias do mundo. Na guerra do Afeganistão, a última campanha em que os Estados Unidos entraram, esse embate paralelo deu-se entre a gigante CNN e a TV árabe Al Jazeera, com a presença de perto da rede britânica BBC. Agora, na guerra que se trava no Iraque, os três exércitos de jornalistas se encontram no front. O britânico Jonathan Baker, 49 anos, é o editor mundial de notícias da BBC. É o general. Sob seu comando está uma equipe de 200 profissionais, entre repórteres, cinegrafistas e técnicos, muitos deles no front, junto aos exércitos britânico e americano. É um editor combativo. Várias vezes entra em cena, comentando ações de exércitos, como em abril passado, ao criticar o governo israelense, quando a repórter inglesa Orla Guerin foi presa pelo exército de Israel por fazer uma matéria sobre a questão palestina. Nesta campanha, a BBC chega à linha de frente do conflito. Na entrevista a seguir, Baker fala, de Londres, da ação de seu canal, do papel da TV e da atuação da CNN e da Al Jazeera na guerra.

? Há quanto tempo a BBC está se preparando para cobrir a guerra no Iraque? Que tipo de orientação os profissionais da rede receberam?

? Temos escritórios em Jerusalém, Bagdá, Amã, Cairo, Teerã e Istambul. Temos trabalhado há meses para torná-los centros fortes de informação e também para marcar presença em todos os lugares envolvidos no conflito, como Qatar, Kuwait, Bahrein, Arbil. Obviamente entramos em ritmo muito acelerado desde o começo do ano. Todos os nossos jornalistas em campo recebem treinamento de guerra, além disso tiveram cursos no Golfo sobre os possíveis tratamentos e reações em caso de ataques químicos e biológicos. A maioria deles já havia trabalhado em outras regiões de risco, como o Afeganistão.

? Quantos profissionais estão trabalhando nessa cobertura perto das zonas de conflito?

? Nós temos muitas equipes com os exércitos americano e britânico e também atuamos constantemente em Bagdá. Cerca de 200 pessoas estão trabalhando para a BBC em campo nesse momento, a maioria delas em lugares de perigo em potencial.

? Qual o papel da televisão neste conflito, o primeiro do século 21?

? Dar o mais apurado e compreensível retrato do evento, oferecendo uma ampla perspectiva das conseqüências regionais e globais que envolvem o conflito. No caso da BBC, é preciso ter sempre em mente que temos uma reputação mundial de agilidade, abrangência e precisão e nós zelamos por isso, acima de tudo. Somos uma corporação nacional (mantida por dinheiro público).

? A guerra aumentou a audiência da BBC? De que forma os índices de audiência são levados em consideração ao se pensar a cobertura?

? As pessoas no Reino Unido tradicionalmente assistem à BBC para acompanhar grandes notícias. Por isso, nossa audiência é muito alta neste momento. Nossos canais mundiais de TV e rádio também atraem audiências de dezenas, senão de centenas de milhares de espectadores. A audiência é importante, mas os programas de notícia não a perseguem. Temos outras prioridades.

? O que mudou nas coberturas jornalísticas da Guerra do Golfo, de 1991, para cá?

? O tempo real. Agora nós estamos no front e com tecnologia para transmitir direto de lá com qualidade de imagem. Esta campanha é bem mais rápida em seus deslocamentos e a deposição de Saddam é mais complicada. Mas alguns elementos da cobertura ? poder ou não permanecer em Bagdá ou qualquer questão que envolva o trabalho na guerra, como o medo de censura ? são os mesmos.

? Muitos pensadores dizem que as guerras de hoje acontecem na TV, que se tornou um novo campo de batalha virtual. O fato de o mundo só saber da guerra através das coberturas das grandes redes prova essa teoria?

? TV e rádio são os meios pelos quais a maior parte das pessoas adquire informações sobre o que acontece e é óbvio que estamos em um ambiente fortemente competitivo. Mas acho que essa teoria não dá conta da complexidade da questão.

? O vazamento das imagens de preparação do discurso do presidente Bush, há três dias, foi bastante ?teatral?. Como essa quebra de imagem pode influenciar a opinião pública? Foi proposital a exibição?

? Aquilo foi um erro operacional. É que começamos a transmitir um pouquinho mais cedo. Mas não acredito que alguém tenha mudado seu ponto de vista sobre Bush por conta de tê-lo visto penteando o cabelo antes de aparecer na TV.

? A maneira de cobrir uma guerra pode influenciar a opinião pública e, com isso, influenciar o resultado?

? Acho que sim em determinado grau e tem sido assim desde a Guerra do Vietnã. Mas é muito difícil medir essa influência pois, é claro, existem outros fatores que norteiam o resultado de uma guerra. Mas, certamente, uma campanha militar rápida e bem-sucedida deve ajudar a conquistar pessoas que estão desconfortáveis com a decisão de se fazer uma guerra contra o Iraque.

? A Guerra do Golfo, a do Kossovo e a do Afeganistão foram mostradas principalmente pelos visores eletrônicos dos aviões militares. Muito se falou que isso dava um ponto de vista único à cobertura. Como escapar disso, sobretudo nesta campanha, que tem combate homem a homem no deserto?

? É justamente por conta disso que, nesta guerra, tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido puseram tantos jornalistas na linha de frente, fazendo com que as imagens cheguem mais detalhadas e mais rapidamente aos espectadores.

? Na campanha do Afeganistão, o canal árabe Al Jazeera teve um papel importantíssimo no teatro da guerra. Isso deve se repetir neste conflito?

? Claro, particularmente para o mundo árabe. Mas a Al Jazeera não tem agora o mesmo grau de acesso exclusivo que teve na campanha do Afeganistão, quando até a CNN usou material fornecido por ela. Não creio que a cobertura da Al Jazeera supere a de outros canais de notícias."

"Um mergulho de jornalismo no front", copyright O Globo, 22/3/03

"A presença de jornalistas junto às tropas deu ao público que acompanha a Segunda Guerra do Golfo uma perspectiva bem diferente do espetáculo pirotécnico dos primeiros dias da guerra de 1991. Com a permissão da presença dos chamados ?repórteres mergulhados? junto às divisões americanas e britânicas, a guerra se tornou aparentemente mais real, pelo menos para os telespectadores.

Apesar das imagens ao vivo do avanço de veículos blindados pelo deserto iraquiano e da invasão de cidades como Umm Qasr, no sul do Iraque, a quantidade de informação é bastante limitada. Todas as empresas jornalísticas que têm repórteres mergulhados se comprometeram a não fornecer informações que possam colocar os soldados em risco. Ou seja, localização, destino e até o número de soldados não são informados.

Na falta de ?informações jornalísticas? nas grandes redes americanas de TV ? as que mais aproveitaram a permissão de ir ao front ?, os repórteres se tornaram o principal personagem dos programas.

? Você está nervoso por estar entrando no Iraque? ? perguntou John Bradley, da CNN, a um soldado.

? Na verdade, estou mais nervoso dando esta entrevista ? respondeu o jovem militar.

O britânico Adam Mynott, da rede BBC, foi bastante fiel aos fatos ao descrever sua participação na invasão de Umm Qasr, depois que inesperados tiros de morteiro iraquianos foram disparados contra a divisão em que o jornalista estava mergulhado. ?Corri para trás tão rapidamente quanto pude, em direção à fronteira com o Kuwait?, descreveu ele, que fez o restante da reportagem contando com entrevistas dos soldados que participaram do restante do combate.

Com a expulsão da rede CNN, a última TV americana a transmitir imagens de Bagdá, as emissoras dos EUA contaram com imagens geradas pela rede al-Jazeera, do Qatar, e entrevistas por telefone.

E se imparcialidade é um dos objetivos normais de coberturas jornalísticas, a rede americana CBS esqueceu disso e colocou uma pequena bandeira dos EUA no canto superior esquerdo da tela durante as transmissões do campo de batalha."