Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

E a ética foi para as cucuias

IMPRENSA GAÚCHA

Antonio Manoel de Oliveira (*)

O Rio Grande do Sul sempre teve destaque pela criatividade e alta capacidade profissional dos seus jornalistas. Isto fez com que inúmeros deles ganhassem notoriedade nacional como repórteres, redatores e dirigentes de redações e de empresas com as mais importantes publicações e emissoras de rádio e televisão do país. À criatividade e capacidade destes profissionais sempre se juntou a qualidade mais importante: o comportamento ético irrepreensível.

Não foi por acaso que ? durante o período mais difícil de enfrentamento contra a ditadura militar ? partiu daqui do estado, sob a liderança do jornalista João Borges de Souza, a primeira tentativa de derrubada dos "pelegos" que dominavam a política da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Movimento que se espalhou pelo Brasil e que venceu no pleito seguinte, numa eleição histórica para a categoria, tendo como presidente o jornalista mineiro Washington Tadeu de Melo. A Fenaj foi a primeira entidade nacional de trabalhadores a derrubar os pelegos, iniciando uma nova fase no sindicalismo brasileiro, com eleição direta de seus quadros até hoje. E tudo começou ou passou por aqui.

Sempre irrequieta e criativa, a maioria dos jornalistas gaúchos continuou evoluindo e, principalmente, inovando, através dos tempos. Somos hoje o primeiro estado brasileiro a implantar a crônica e o colunismo político engajados, alinhados aos partidos políticos ideologicamente de direita (ação que antes era exercida apenas pelas empresas de comunicação social, que assumiam campanhas para eleição dos candidatos de sua preferência, mas não exigiam ? em sinal de respeito profissional ? o comprometimento dos jornalistas com suas teses).

"Boiolas e imbecís"

Tudo começou na última campanha eleitoral para o governo do estado ? exatamente no momento em que ficou determinado que haveria segundo turno entre o ex-governador Antonio Britto Filho e o atual governador, Olívio Dutra.

Como abutres em cima de um pedaço de carniça, os jornalistas gaúchos "formadores de opinião", que assinam a palavra das empresas nas colunas de jornais e comentários políticos em emissoras de rádio e televisão, passaram ? com raríssimas exceções ? a atacar (nas 24 horas do dia) o candidato petista para o segundo turno das eleições de 1998 e prosseguem o massacre até os dias de hoje, já engajados para a próxima campanha. Assumiram o ônus que antes era só do patrão. Mandaram a ética para o saco. Uma situação que era impensável há 20 ou 30 anos hoje é a que predomina.

Mas a criatividade destes colunistas partidários não parou por aí.

Numa outra inovação importante, ousada, atualmente eles até pedem dinheiro e patrocínio para suas publicações e opiniões às entidades de classe patronais, em suas colunas, comentários e páginas na internet.

O mais importante é que entidades que deveriam representar a todos os jornalistas, com imparcialidade, assimilam este novo comportamento profissional com tranqüilidade. A Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI), para citar um exemplo, dá apoio institucional à revista Press, especializada em publicar entrevistas, matérias e comentários raivosos contra as esquerdas do mundo inteiro. Tudo muito naturalmente. E sem chances para que suas opiniões possam ser contestadas, pois a publicação, democraticamente, não inclui nem seção de cartas para que os acusados se defendam. Num texto de seu editor, a referida revista chegou a classificar em uma de suas edições os que não pensam como ele de "bando de boiolas", "imbecis", "esquerda babaca e ordinária", "otários", "pústulas", que estão "cagando regra".

São termos inovadores e saudáveis, que passam a fazer parte do dia-a-dia da imprensa gaúcha, com o apoio da nossa ARI pós-Alberto André e Antonio Gonzalez. Tudo muito naturalmente.

Isto sem falar no comportamento da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS, que deixo para uma próxima oportunidade.

(*) Jornalista