Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

E os EUA perderam a guerra

BALANÇO PARCIAL

Cidoval Morais de Sousa(*)

O título ainda não é realidade de fato, mas cabe na lógica reflexiva, objeto deste texto. Os Estados Unidos não perderam e provavelmente não perderão a guerra contra o Iraque, nos campos de batalha, por razões que todos já conhecem e que têm sido exploradas pela mídia à exaustão ? como a supremacia bélica, por exemplo. No entanto, considerando a conjuntura que se desenha pós-guerra, o império de Bush e de seus "falcões" já entrou para a história como uma página negra deste século. Eles ganharam, mas perderam.

Em primeiro lugar, qualquer que seja o resultado dessa campanha militar sangrenta e irresponsável, a opinião pública mundial já elegeu um vilão. E não é Saddam Hussein. Não porque este não mereça entrar para a galeria dos vilões, dos ditadores sanguinários, dos tiranos, dos dirigentes que fazem qualquer tipo de acordo, inclusive alianças com os Estados Unidos, para permanecerem no poder. Não por isso, mas, principalmente, pela forma como a questão da guerra foi conduzida e pela clareza, tantas vezes negada em discursos, mas sempre afirmada em ações, de suas motivações.

A imagem dos Estados Unidos, que, diga-se de passagem, nunca gerou muita empatia, tanto nos países desenvolvidos quanto nos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, ganha corpo como ameaçadora, um monstro que precisa ser controlado. Nesse sentido, a ONU que foi vilipendiada, menosprezada em sua função ética e de gestora da paz internacional, pelos "senhores da guerra", é a única com chance de sair dessa crise fortalecida, mas não por mérito de seus burocratas. Os fatores e atores determinantes desse novo cenário estão nas ruas e podem não ter ainda muita clareza do que querem, mas sabem exatamente o que não querem: a guerra.

Em segundo lugar, a arrogância, a prepotência e os erros do império, que chegam a ser grosseiros em termos de estratégia militar, colocam em xeque a segurança de seu próprio exército e aliados e envergonham o país: a capacidade de reação do inimigo foi subestimada; o melhor sistema de informações do mundo não conseguiu captar que a comunidade a ser "libertada" da tirania, na verdade, prefere Saddam ao que chama de ?invasor?; é cada vez mais significativo o número de acidentes e mortes entre as tropas que se dizem aliadas, provocados pelo chamado "fogo amigo" (imaginem se fosse inimigo); não foi considerado o poder de fogo da mídia árabe, engajada, desde de muito antes da guerra, na formação de uma opinião desfavorável à intervenção anglo-americana.

Por esses e outros erros de avaliação, a guerra que deveria ser curta, agora pode "ser longa"; o número de homens que parecia suficiente para "libertar o Iraque", agora precisa de reforço; os custos da operação já chamam atenção dos contribuintes americanos e aliados; a aprovação aos ataques despenca nas pesquisas de opinião; os mercados, que nos primeiros dias deram um voto de confiança aos "donos do mundo", agora reagem negativamente; a oposição interna, que parecia sufocada, ressurge crítica e oportunista; a mídia interna, em princípio disposta a omitir imagens e informações contrárias ao Império, toma um choque de realidade; aumentam os protestos pela paz; e produtos símbolos do americanismo, como a Coca-Cola, estão sendo boicotados no mundo inteiro.

Por fim, os Estados Unidos perderam a guerra, independente de seu resultado final, por terem violado direitos internacionais, incluindo a Convenção de Genebra, que eles tanto reclamaram respeito quando viram seus soldados presos e humilhados diante das câmeras de TV; por tentarem impor uma nova ordem pela força das armas em detrimento de muitas vidas, inclusive de seus próprios exércitos; por tentarem impor a lei do silêncio à mídia, de uma forma geral, desfavorável à beligerância. E, entre tantas outras razões, por tentarem manter a hegemonia do pensamento único pela ameaça das armas ou das políticas de embargo, que fragilizam economias em desenvolvimento.

A vitória de Bush não faz sentido quando se pensa e deseja uma nova ordem internacional orientada para o respeito à vida, dos homens e do planeta. Se há algo da guerra que merece algum comentário é o fato de ela ter despertado duas questões cruciais: a da necessidade de esforços de todas as tendências religiosas, políticas, econômicas para a construção de uma cultura fundada em valores democráticos e, sobretudo, pacíficos; e, por outro lado, a necessidade de se repensar, urgentemente, os investimentos destinados à produção da ciência da guerra.

O mundo precisa de armas contra a fome, a miséria, o analfabetismo, e não de mísseis teleguiados, armas de precisão, tecnologias e conhecimentos que provocam a morte e reduzem as chances de vida segura e sustentável neste Vale de Lágrimas.

(*) Jornalista, professor da Universidade de Taubaté e da Universidade Vale do Paraiba, doutorando em Geociências pela Unicamp. E-mail: cidoval@unitau.br