Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Economia dolarizada, jornalismo colonizado

NORTE / SUL

José Antonio Palhano (*)

Acontecimentos espetaculares ao Norte e ao Sul geram na mídia tupiniquim acessos espetaculosos cujo teor jornalístico é tão falso quanto o futebol de Rivaldo quando ele se mete dentro de uma camisa amarela. Veja-se a crise da Argentina, que até por razões de vizinhança (e de solidariedade) carece de uma cobertura mais decente. Rigorosamente tudo o que se fala, se analisa, se interpreta e se prevê na ora devastada terra do tango parte de pressupostos financeiros. Em português claro, da boa vontade do FMI em abrir seus cofres para uma operação de urgência.

À primeira vista, é isso mesmo. Capitais internacionais fazem mesmo a festa por essas e outras plagas miseravelmente dependentes das suas caprichosas rotas migratórias. A tal da capacidade de uma nação do naipe das sul-americanas financiar-se lá fora a fim de cobrir seus déficits e buracos vários, exaltada nas colunas econômicas como uma profissão de fé cuja dramatização lembra uma versão atualizada dos padecimentos hepáticos de Prometeu, engessa e doutrina discursos, monetizando-os irremediavelmente.

O problema é que no vácuo da retórica financista seguem corações e mentes de tal ordem galvanizados pelo fetiche do dinheiro especulativo que há muito já se faz necessário rever o conceito de lavagem de dinheiro. Expressão originalmente destinada a carimbar a grana do narcotráfico, já não se conforma dentro dos seus limites puramente contábeis e policialescos. Cérebros são lavados com uma eficiência digna de fazer inveja à indústria da propaganda dos sabões borbulhantes. Melhor, de forma tão magnificamente asséptica que já não merece o estigma que emana das operações ilícitas e sujas que ditam a crônica dos barões da droga.

No nosso mundinho de gente boa não há quem tenha a coragem de dizer de boca cheia que o pior e mais devastador ataque especulativo sofrido pela Argentina foi aquele que lhe arrancou a sua soberania. A partir do exato instante em que, por obra e graça de uma votação trêfega patrocinada pelo mulherengo Carlos Menem (não é à toa que se sabe hoje que o Senado lá está vergonhosamente bichado), o país se viu, num piscar de olhos, sem moeda. Pronto. Vinha à tona o mais perfeito e acabado laboratório de economia financeira (ou financista) transnacional de que já se teve notícia na civilização (Hong Kong não vale, pela sua condição de protetorado chique cujo último acontecimento mais glamouroso foi a festinha na qual passou de um colonizador a outro). Bolação de Domingos Cavallo, aquele que agora prega contra o real (o único verde e amarelo que lhe pespegou um coice foi Joelmir Beting).

Qualquer economista livre da morbidez oracular que parasita o ofício há décadas sabe que a definição de moeda passa obrigatoriamente pela plena assimilação da idéia de soberania da nação em que vige. Assim sendo, falar em peso argentino, a essas alturas, é de uma hipocrisia sem fim. Como o pais, por força de lei, não pode emitir moeda, depende exclusivamente do aporte de capitais estrangeiros. Aos gringos e demais corsários financeiros da modernidade basta que cortem as torneiras. O dinheiro das exportações já sumiu faz tempo, arrastado pela queda das commodities.

A Folha de S.Paulo, em seu oportuno editorial "Ajuste doloroso", de 17/11, bem que chegou perto de reconhecer a tragédia. Mas tropeçou na detestável terminologia financista em curso: "Talvez, a psicologia tenha mais a dizer sobre o assunto, e o câmbio fixo, além de um artefato de política econômica, seja uma obsessão mórbida". Lá no fecho, fala em "armadilha cambial". Ora, a idéia de câmbio pressupõe troca, a existência real de duas moedas pelo menos. E a Argentina só tem uma. Um dólar humilhante e apátrida. Morrer pela pátria, tudo bem. Mas por fazer a tarefa de casa (dos outros) aí já é um pouco demais.

Em relação ao Norte, a lambança jornalística é outra. Ou nem tão diversa. Antes mesmo de o sistema eleitoral americano dar irrecuperáveis sinais de fadiga, o pau aqui já comia solto: o negócio era pichar e falar mal de Bush e Al Gore de forma tão impiedosa e contundente que, perto deles, gente como Fernando Collor, Luiz Estevão e Jader Barbalho parecessem escoteiros babacas. É verdadeiramente impressionante constatar a disposição com que chamamos a nós a responsabilidade de desqualificar os candidatos dos cidadãos americanos. Mais um pouco, e algum colunista aqui propunha que fossem interditados por irrecusáveis razões psiquiátricas. Como podem dois imbecis daquela cepa ousar a Casa Branca?

Quem anda precisando de terapia é a gente mesmo, infelizmente. Falta às redações um mínimo de lucidez capaz de reconhecer que essa decepção com a dupla Bush/Gore, que se nos apresenta chocantemente com a imagem de indivíduos comuns – suprema cafonice –, cutuca fundo (lá no fígado do Prometeu) a nossa própria idéia do que seja um presidente. Mais ao pé do chão, a nossa idealização da coisa. E aí, dá-lhe se decepcionar com Fernando Henrique e quantos milhares vierem a substituí-lo, por não cumprir a contento seu papel de super-herói, de messias secularmente anunciado pelo nosso doentio paternalismo, de paizão salvador, magnânimo, compreensivo e indulgente. Já os americanos preferem atacar de gente comum mesmo, tipo Reagan, Clinton, Bush e Gore. Os heróis batem ponto em Hollywood.

O culto à grandiosidade e à apoteose, que nos obriga ciclicamente à purgação e ao autoflagelo (a cada mandato presidencial) com todo o rompante ibérico-inquisitorial a que temos direito, se sublima em nossa decepção frente à previsibilidade estética e moral de George W. Bush e Al Gore. Da mesma forma, procuramos desesperada e humilhantemente emprestar legitimidade a nossas (e às dos argentinos) contas, que se agigantam feito tumores pela exportação líquida de bilhões de dólares. Para disfarçar, limitamo-nos a fazer análises e projeções do drama argentino a partir do seu perfil financeiro, na vã, infantil e alienada tentativa de provar fundamentos da ciência econômica.

Como aplicados e idiotizados alunos, afinal de contas, há muito aprendemos que Wall Street quer sangue.

(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo, em Campo Grande, MS

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