Sunday, 25 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Eduardo Ribeiro

MÍDIA EM CRISE

"Folha demite quando se esperava reação", copyright Comunique-se, 30/02/02

"Quando já não se esperava que novas demissões ocorressem no setor jornalístico, a Folha de S. Paulo surpreendeu a todos anunciando nesta segunda-feira (28/1) um enxugamento equivalente a 7% da folha de pagamento do jornal. E optou por fazer um corte na chamada periferia, para poupar o quanto possível o núcleo (leia-se editorias principais) do jornal. Com isso a carga maior de sacrifício coube aos suplementos. Dois deles, por exemplo, o AgroFolha e o FolhaInvest, desaparecem e viram sessões internas do Caderno Dinheiro. O núcleo de especiais, que abriga repórteres de prestígio, como Ricardo Kotscho, acaba e os profissionais serão redistribuídos, por afinidade ou interesse do jornal, pelas demais editorias.

No total, segundo apurou Jornalistas&Cia, a Folha cortará 20 de seus 265 jornalistas.

Critérios de cortes sempre são questionados e nunca satisfazem. É a lógica de um assunto perverso e indesejado. No caso da Folha não foi diferente. O jornal acaba, por exemplo, com um caderno campeão de audiência e bom de faturamento – o FolhaInvest – acreditando que manterá o mesmo índice de interesse e leitura e o mesmo faturamento, deslocando-o para o interior do Dinheiro, onde ocupará às segundas-feiras (mesmo dia em que vinha circulando desde a fundação) duas páginas. Não haverá economia de papel, já que o jornal voltará a ter o caderno Dinheiro às segundas-feiras, substituindo e incorporando como sessão o FolhaInvest. Mas já não precisará manter, na sua totalidade, a atual equipe, integrada por editora, sub e três repórteres, que vinha fazendo um trabalho de alta repercussão.

Ou seja, foi um caso típico de penalização pelo sucesso.

Acabar com o AgroFolha foi também um duro golpe num dos mais tradicionais produtos do segmento e levou à demissão de dois profissionais muito respeitados na área: Bluno Blecher e Sebastião Nascimento Santos Jr.

Internamente, os colegas da Folha dizem que a situação do jornal é boa e que a decisão foi preventiva, levando em consideração um cenário desfavorável em termos de publicidade em 2002. Mas não é só isso. Os salários do jornal foram de certo modo influenciados pelo boom da internet e a empresa tem claro que se precisar repor parte da equipe dispensada o fará por valores menores. É outra das lógicas perversas das leis de mercado, que ora beneficiam, oram prejudicam os assalariados com a tal oferta e demanda.

Temos hoje claramente um segmento encolhido e uma oferta de mão de obra qualificada como poucas vezes se viu na história do jornalismo. Com isso, os salários estão sofrendo uma perda média de 40% em relação, por exemplo, há um ano.

Óbvio que isso vai passar – muito mais rápido do que se espera, na minha opinião – mas este é um claro momento de recuo tático para os jornalistas. Bem diferente dos momentos gloriosos que assistimos no Ano 2000."

 

"Mudar o jogo", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 4/02/02

"O ?dá-ou-desce? que a direção do JB aplicou nos jornalistas que ganham entre em R$ 2,5 mil e R$ 4 mil obrigando-os a se tornarem pessoas jurídicas – repetindo o que fizera meses atrás com quem ganhava acima deste valor – mostra que o sindicato do Rio está obrigado a partir para uma política mais agressiva em defesa da categoria.

De três diretorias para cá, o sindicato tem se pautado por uma atuação moderada. Foi uma decisão política baseada na fraqueza do sindicato, que, em 95, foi retomado depois de ter sido conquistado por um bando de facínoras travestidos de jornalistas. Avaliou-se, a meu ver com correção, que, destroçada como estava, a entidade não poderia partir para enfrentamentos diretos que tanto mais custam quanto mais agressivos são. Optou-se por usar-se os meios legais disponíveis – em especial a Justiça do Trabalho, apesar de sua lentidão e notória boa vontade com os patrões – e pressões políticas, quando estas fossem possíveis.

No entanto, de uns dois anos para cá, a situação mudou. Os próprios patrões assumiram um comportamento agressivo, descobrindo fórmulas com o objetivo específico de acabar com os direitos trabalhistas dos jornalistas a fim de fazer com que as empresas passassem a apresentar resultados melhores e pudessem interessar os tais investidores estrangeiros que viriam assim que fosse aberto o mercado de comunicação brasileiro a eles.

Dessa forma, é hora de o sindicato do Rio – e os de outras partes do país também – mudar a sua forma de atuar. Como propus no Picadinho Diário durante a semana, creio que a entidade deve partir para as denúncias do que as empresas estão realmente perpetrando. Entrada de representações no MP do Trabalho (embora saibamos da pouca vontade que ele e a Justiça trabalhista como um todo tem de apurar ataques aos direitos dos trabalhadores); no Ministério Público Federal; na Receita Federal (há uma óbvia burla ao Fisco); no MP do INSS (que também não costuma de ter muito boa vontade); no Conselho Curador do FGTS e outras ações deste tipo seriam essenciais.

Interessante também seria, na minha opinião, uma pressão política que vem sendo usada cada vez mais pelos sindicatos e federações é a compra de espaço em outdoors (ali na Presidente Vargas, na altura da Praça Onze, no sentido Zona Norte, tem uns três ou quatro seguidos com denúncias de organizações de trabalhadores). NO caso específico do JB, uma boa idéia, me parece, seria aproveitar que a redação foi para a Rio Branco para ou botar um carro de som na porta ou distribuir volantes com as denúncias à população.

Sei bem (afinal, fui assessor do sindicato por três anos) das dificuldades financeiras nas quais a entidade se debate – por falta de solidariedade e participação dos próprios jornalistas, sempre prontos a reclamar, mas raramente a ajudar – e que estas idéias que propus são dispendiosas. Mesmo sabendo disso, no entanto, creio que não há outra saída política para a entidade. Afinal, se ela tomar estas atitudes (ou pelo menos algumas delas) pode ir à falência, mas se não tomá-las irá do mesmo modo, pois será ainda mais abandonada de vez pela categoria.

De olho – O Sindicato enviou carta protestando contra a Câmara Municipal por ela ter em seus quadros, como assessora da imprensa, Cristina Mota, que atua agora no Big Brother. A moça, porém, já falou e repetiu que não terminou o curso de Comunicação Social e, assim, não tem registro, não podendo exercer funções de jornalista. O que, no caso do Município do Rio, está inscrito até numa lei de 1982. Sami Jorge, presidente da Casa, ligou para o presidente do Sindicato, Nacif Elias, e pediu desculpas pelo equívoco, prometendo resolver a questão (provavelmente vai lotar a moça em outro local). O SJPMRJ também já enviou carta à direção da Estrela da Morte e à produção do BB a fim de que sejam retificadas as chamadas em que a rapariga é apresentada como assessora.

Hora do rango – Por falar em Sindicato, estou com uma dúvida, que pintou durante um almoço com uma coleguinha: hora de almoço é contada como hora de trabalho? Se for, quem trabalha de 9h às 18h está na verdade trabalhando nove horas e não oito, certo? Para tirar a dúvida, por que o Sindicato não pede um parecer de seus advogados sobre a questão?

Avanço – Tá vendo? Foi só a Estrela da Morte parar com a campanha para transformar a morte do prefeito de Santo André em resultado de briga de corrupto para que a Polícia, livre para fazer seu trabalho direito, avançasse muito nas investigações.

Escondidinho – Por falar nisso, lembra daquelas acusações contra o governo do Rio Grande do Sul que estaria mancomunado com o jogo do bicho e que ganharam minutos e mais minutos no JN e páginas e mais páginas no Globo? Pois é: o processo foi arquivado por falta de provas. Você viu a notícia? Se viu, parabéns. Você realmente lê jornal com atenção, pois ela veio no pé e numa página par no meio da semana. Ficou tão escondida que o governo gaúcho teve que usar de uma matéria paga, que saiu na edição de hoje, domingo, dia 3, para que ela ganhasse algum destaque.

Lá também – Pesquisa da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e Circulação (o IVC da terrinha), em setembro de 2001, e apresentados pelo Observatório de Comunicação (Obercom) em janeiro, mostra que os chamados jornais populares estão tirando espaço dos diários tradicionais. Assim, o ?24 Horas? e o ?Correio da Manhã? registraram, respectivamente, 42,7% e 13,6% de crescimento em circulação média paga, em comparação ao período janeiro-setembro de 200o. Na comparação dos mesmos períodos, os tradicionais ?A Capital? e ?Diário de Notícias? perderam 22,2% e 14,8%, respectivamente."