Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Eleição, uma parada manêra, bródi

TELEJORNALISMO

Paulo José Cunha (*)

A juventude de hoje é apática, descompromissada, alienada, desconectada da realidade, bem diferente da juventude politizada dos anos 70, que ia às ruas, pegava em armas, pensava, debatia, influía, às vezes morria por uma ideologia, certo?

Errado, bródi. A rapaziada é manêra, sim. O que está faltando é entender que as preocupações são outras (alguém aí se lembra de alguma discussão sobre ecologia numa célula comunista?). A forma de atuação da tchurma é outra, os veículos de expressão são outros, os chats e sua linguagem econômica constituem o espaço virtual de comunicação, os fanzines exercem o papel de pólos de convergência dos bródis (papel ocupado no passado pela imprensa nanica). E os nichos de atuação não são mais os partidos políticos convencionais, que há muito perderam a função de mediadores da sociedade, substituídos pela telinha, pela religião, pelas tribos.

Por isso, neste “new young world” ou lá como se queira chamar (mas tem de ser em inglês, pra ficar no clima), é imperativa a busca por novos espaços de atuação política. Emissoras de televisão com discurso horizontal como a MTV nadam de braçada quando comparadas com a velha tevê, de discurso vertical e obsoleto para os jovens, a não ser para as camadas mais desplugadas do novo mundo telecibernético. Quem ousa quebrar a velha ordem, ainda imperando na tevê de sinal aberto, como Serginho Groisman, termina cooptado pela gelatina global, e tem o discurso apropriado e edulcorado para se tornar palatável à audiência bem comportada. Por falar nisso, onde foi parar o discurso das madrugadas de radicalidade escrachada do Faustão?

Por isso, a notícia de que a MTV brasileira vai colocar os presidenciáveis no raio da metralhadora giratória de seus telespectadores chega como uma agradável lufada de novidade no panorama pantanoso em que se repete a cobertura política dos últimos anos. Na MTV dos Estados Unidos, campanha de 92, um moleque HIV positivo colocou saia justa em Bill Clinton ao dizer que tinha sido contaminado por falta de informação sobre o sexo seguro. E perguntou a um Clinton surpreso com o impacto do gancho de esquerda o que faria se eleito em relação á educação sexual e à Aids.

Cara a cara com o povo

Já passa da hora de se substituírem os eternos jornalistas escalados para os debates eleitorais por um troço estranho chamado povo, que não usa filtros para falar e pergunta o que é realmente importante, e não o que interessa à audiência ou que vai contribuir para elevar o prestígio do perguntador. Alguns países, inclusive os Estados Unidos, já vêm testando, e com sucesso, a colocação de pessoas do povo nos debates eleitorais. A MTV, com a decisão de passar a cobrir as eleições com linguagem própria (leia-se, do ponto de vista de sua tribo), vai atingir uma poderosa e fundamental fatia da audiência, constituída por 23,3 milhões de telespectadores, 4 milhões na faixa entre os 15 e os 29 anos, das classes A e B.

Os bródis não vão ser constrangidos na MTV com a cobertura imbecilizante do dia-a-dia dos candidatos, da visita a orfanatos e poses com criancinhas no colo, e das tramóias da política partidária. Decisão legal, porque, segundo o Diretor Geral da MTV Brasil, André Mantovani, “nosso telespectador acha tudo isso chato”. E é.

Mais legal ainda era se todos os canais segmentados dessem um jeito de incluir a cobertura da eleição em suas pautas. Mas isso só funcionaria se fosse nos moldes da MTV, que vai, por exemplo, submeter os candidatos ao doce constrangimento de se sentar diante de João Gordo, no Gordo a Go-Go. Como lembrou a Folha, o Gordo a Go-Go tem como cenário uma mesa sustentada por uma estátua de mulher quase pelada. Quero ver a careca do Serra suando ao ver aquilo… Vai ser ótimo.

Candidatos sendo submetidos ao constrangimento de dialogar de igual para igual com o povo, e não com seus representantes (inclusive jornalistas entre os quais me incluo), é muito legal. Ou, pra ficar na linguagem dos bródis da MTV, é manêro.

(*) Jornalista, pesquisador, professor de Telejornalismo, diretor do Centro de Produção de Cinema e Televisão da Universidade de Brasília. Este artigo é parte do projeto acadêmico “Telejornalismo em Close”, coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <upj@persocom.com.br>