Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Eles odeiam a mãe gentil

TRATOS À LÍNGUA

Deonísio da Silva (*)

Nas bancas, a revista Conta Mais! (Ano 4, n? 126, 9/4/2003) dá chamada de capa: "Wanessa Camargo encara sensura (sic) e assume romance". Uma senhora está comprando a revista. "É para minha filha. Tem só 14 anos. Gosta muito de ler. E me pediu que comprasse esta". E pergunta à moça da banca: "Por que será que minha filha me pediu justamente esta? Sempre me pede outras".

A moça é atenciosa, pega outro exemplar e mostras as páginas 6 e 7: "Um juiz de São Paulo proibiu o show da cantora para menores de 14 anos". "Um juiz?" A mãe se espanta. "Mas por quê?" "Parece que é porque ela disse que não é mais virgem", diz a moça. "É, mas acho que o assunto é outro. Minha filha tem seio pequeno e quer fazer implante, não sei mais o que fazer para tirar isso da cabeça dela. E já está que é um caniço, de tanto fazer regime, só porque essa já perdeu nove quilos". "A mãe dela implantou, mas teve que tirar, deu rejeição", diz a moça que, pelo jeito, já sabe de cor a reportagem.

Um escritor não precisa mais do que sair à rua para escrever. O brasileiro semelha um funil, tudo o que recebe, passa adiante. O boca-a-boca é na verdade, como sabemos, o boca-orelha-boca. O povo, porém, criou a expressão com lógica irrepreensível: a coisa passa de boca em boca, pois ora se ouve de uma, ora de outra. E, à semelhança das pombas de Raimundo Correia, as palavras, ainda que aos pombais as pombas voltam, elas aos corações não voltam mais. Nem à escola, aliás.

A fofoca revela duas de nossas qualidades mais visíveis: não somos indiferentes uns aos outros, a vida alheia é nosso grande assunto, o que revela prova de solidariedade, segundo lembrou Mário Quintana no "Caderno H", coluna que assinava no jornal gaúcho Correio do Povo, em Porto Alegre. Ouvem-se mais confissões no Brasil, em qualquer época, do que bombas em Bagdá nesta tarde cinzenta de segunda-feira.

Amostra ruim

É um simples relâmpago na noite escura da mídia, mas podemos discernir na cena dialogada alguns problemas, a começar pelo seguinte: uma revista produzida em São Paulo, o maior parque editorial do Brasil, deixa passar erro grave de ortografia na chamada de capa. Esse descuido pode ser sintoma de outras omissões. Podemos avaliar o pessoal da redação por tal amostra? Claro que sim. O leitor tem todo o direito de desconfiar. Até os Evangelhos lembraram: "Quem não é fiel no pouco, também não o será no muito". É preciso verificar.

A revista exerce atração sobre a filha daquela senhora. A ponto de pedir que a mãe fosse à banca comprar-lhe um exemplar. Na educação da filha adolescente, preocupada em adequar-se ao modelo vigente ? que já emagreceu bastante e não quer os seios que a natureza lhe deu, quer outros ?, a cantora tem muito mais influência do que a Família ou a Escola. Eis que está entrando em cena, não apenas o Quarto Poder, mas a Terceira Instituição.

Que outros poderes levarão aquela mulher em formação, no esplendor dos seus 14 anos, a considerar que um bem chamado Livro também é importante? A imprensa levará alguma vez os adolescentes a procurarem uma livraria ou biblioteca?

"Ai que prazer/ Não cumprir um dever,/ Ter um livro para ler/ E não o fazer!"

Os versos são de Fernando Pessoa, que também escreveu: "Minha pátria é a língua portuguesa". E no Hino Nacional, nós, brasileiros, cantamos: "Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil".

É difícil, talvez impossível, que a paixão pela língua portuguesa não incendeie autores portugueses, brasileiros e, enfim, lusófonos espalhados por todos os continentes. Lygia Fagundes Telles gosta de lembrar em depoimentos e conferências a impressão que teve quando leu pela primeira vez os célebres versos de Olavo Bilac ? que, aliás, têm servido até para fins comerciais:

"Última flor do Lácio, inculta e bela,/ És a um tempo esplendor e sepultura".

Menina ainda, perguntou ao pai, homem do Direito, o que ia ser de sua vida? Tinha seus 10 ou 12 anos, já queria ser escritora, mas estava preocupada: escrever numa língua que seria sepultura?


"Papai, que negócio é esse, então, essa língua…? Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria… ? Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua do Primeiro Mundo. Meu pai disse: ? Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?), não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você ficará na nossa língua mesmo. ? Mas, esplendor e sepultura, papai? ? É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e chega. ? Meu pai encerrava as coisas também assim. Pronto". (Seminário sobre a língua portuguesa: desafios e soluções, Centro de Integração Empresa-Escola, São Paulo, 31/5/1999, título da conferência de Lygia: "Língua portuguesa, uma paixão").


A Imprensa e o Judiciário têm fundos compromissos com os adolescentes, leitores e cidadãos em processo de desenvolvimento e formação. A amostra colhida não é boa. A revista cometeu grosseiro erro de português na capa! O juiz proibiu aos adolescentes o show de uma cantora que declarou não ser mais virgem.

"Estilo soez"

A vida sexual está na esfera da privacidade do cidadão. O trato da língua, um bem público, não. Escola, saúde, estradas, saneamento básico e outras necessidades continuam a atender muito mal a menina que encomendou a revista à mãe. Mas ela já sabe que censura jamais vai faltar. E que um juiz de São Paulo tem, entre suas prioridades, zelar para que uma cantora que declarou não ser mais virgem seja afastada do convívio dos adolescentes.

Os militares proibiam do mesmo jeito, mas com um estilo mais parnasiano. Os autores proibidos eram condenados por "destilar peçonhas", "fazer a apologia de crimes e criminosos", "ofender a moral e os bons costumes" em "práticas subversivas flagrantemente contrárias à moral e aos bons costumes", num "estilo soez", desrespeitando os "princípios comezinhos da boa ética". E quejandos.

Mas ? ó dor! ? os militares que nos proibiram nos anos pós-64 escreviam corretamente. Pelo menos aqueles que estavam, nas Forças Armadas, em postos equivalentes às autoridades de nossas Forças Desarmadas, reunidas sobre o nome latino (media, meios, plural de medium, meio) já inglesado para mídia.

(*) Escritor, doutor em Letras pela USP, escreve semanalmente neste espaço;
seus livros mais recentes são A Vida íntima das palavras, A
melhor amiga do lobo
e Os segredos do baú