Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Elio Gaspari

MÍDIA & GUERRA

"Agora é guerra", copyright Folha de S.Paulo, 23/3/03

"Bush é Bush, mas Saddam é Saddam

George W. Bush conseguiu ressuscitar o espírito da civilização européia, e o mundo lhe será grato por isso. Infelizmente, está estimulando o antiamericanismo do Terceiro Mundo e, com ele, o de Pindorama. Num dia em que deputados foram se manifestar na Embaixada dos EUA em Brasília, o embaixador do Iraque, Jarallah Alobaidy, foi ouvido numa reunião conjunta das comissões de relações exteriores da Câmara e do Senado. Representa uma ditadura que matou mais gente que todos os generais do Cone Sul no anos 70. Diante de Saddam Hussein, o general Augusto Pinochet é uma madre Teresa de Calcutá.

O doutor Alobaidy foi tratado pelos parlamentares como se fosse um poeta sueco. Não há registro de alguém que lhe perguntasse por um só dos crimes de Saddam Hussein. Parlamentares que dependem do sufrágio dos brasileiros esqueceram-se de perguntar como é que o patrão do embaixador conseguiu se reeleger com 100% dos votos dos iraquianos (11.454.638 eleitores). Não lhe perguntaram nem sequer pelas negociatas do ditador com empreiteiras e larápios brasileiros. Também não lhe perguntaram como um magano da indústria paulista ofereceu-lhe um caminho mais rápido para chegar à bomba atômica. (O próprio Saddam reclamou dessa impertinência.)

O antiamericanismo tem isso de terrível. Leva pessoas inteligentes a se juntar a Saddam Hussein por causa de George W. Bush. Detestar Bush pode ser um ato de inteligência, mas se perceber torcendo por Saddam ao ouvir a notícia de que morreram 12 americanos num combate é uma mortificação.

Em 1990, quando estourou a Guerra do Golfo, Saddam Hussein transformou em escudos humanos 450 trabalhadores brasileiros que viviam no Iraque. Deixou-os sair graças a uma costura de 23 dias feita pelo embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que gramou 45 encontros, inclusive com o chanceler Tarik Aziz. Para mostrar que só sairia do Iraque com os brasileiros, Paulo Tarso desembarcou em Bagdá com Lúcia, sua mulher.

Para glória da civilização americana, há manifestações contra a guerra em quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos. Se Cacá Diegues está certo e Deus é brasileiro, Bush não se reelege. Para amargura dos antiamericanos, não há manifestantes em Bagdá nem oposicionista iraquiano vivo dentro do país. Mesmo se Deus fosse brasileiro, Saddam Hussein se reelegeria, com 110% dos votos."

"Protesto contra guerra nos EUA. E contra TVs", copyright O Estado de S.Paulo, 24/3/03

"Os americanos contrários à guerra ao Iraque que se manifestaram nas ruas de várias cidades americanas durante o fim de semana denunciaram duramente os meios de comunicação e, particularmente, a televisão, pela cobertura do conflito. Em Los Angeles, participantes de uma marcha carregavam cartazes com a inscrição ?CNN, Censorship New Network?, ou ?rede de censura de notícia?. Em Nova York, onde cerca de 200 mil pessoas participaram de manifestações em favor da paz, muitos criticaram a ?glorificação? do conflito pelos repórteres que acompanham as tropas e pelos vários ex-generais e ex-oficiais americanos contratados para analisar o avanço das tropas.

As queixas estavam fadadas a aumentar ontem, diante da decisão das redes de TV americanas de não colocar no ar as imagens de soldados americanos mortos e tomados prisioneiros pelas forças iraquianas no norte de Basra. O vídeo, feito pelo governo de Bagdá, foi exibido ontem pela al-Jazira, a emissora do Catar, e reproduzida nas televisões em todo o mundo. Mas, horas mais tarde, elas não haviam sido exibidas pelas redes americanas e nenhuma explicação fora oferecida ao público.

A decisão do Pentágono de incorporar centenas de repórteres, produtores e operadores de câmara nas unidades de combate foi, até agora, uma bonança em matéria de propaganda para as forças americanas.

Cuidadosamente desenvolvido para responder às duras críticas da imprensa à exclusão dos jornalistas durante a 1.? Guerra do Golfo, em 1991, o plano recebeu apenas aplausos dos jornalistas. Os repórteres das redes de televisão, como Dvid Blum, da NBC, mal disfarçaram sua excitação ao apresentar seu relato sobre o avanço da divisão de infantaria blindada em território iraquiano, do topo de um tanque Abrahms, na primeira noite da invasão. ?Como jornalista, procuro manter minha independência, mas, como cidadão, posso dizer que os relacionamentos com nossos soldados e o tratamento que eles nos têm dado é espetacular?, disse Blum.

Veteranos, como Ted Koppel, da rede ABC, apresentaram reportagens claramenrte sentimentais sobre os soldados, imagens mostrando as fotografias de família e objetos de estimação que carregam consigo no campo de batalha.

Alguns jornalistas que cobrem a guerra no Pentágono não escondem seu aparente entusiasmo com a guerra. No sábado, um repórter interessado em saber se haveria novos bombardeios em Bagdá, parecidos com o que atingiu 19 alvos na cidade, na sexta-feira, perguntou ?quando será o próximo show?.

As informações sobre o avanço das tropas, os tipos de munição disparados e de alvos atingidos transmitidas pelos repórteres não agradaram aos chefes militares americanos. O general Tommy Franks, comandante-geral das forças americanas, deu sua primeira entrevista coletiva apenas três dias depois do início da guerra porque estava contrariado com a quantidade e o grau de detalhe das informações divulgadas pela televisão. Na quinta-feira, a porta-voz do Pentágono, Victoria Clarke, fez uma advertência aos editores de televisão, numa conferência telefônica.

?Não há outra maneira de dizer isso, essa são imagens extraordinárias de um momento da guerra?, disse Aaron Brown, âncora da rede CNN. Mas, na realidade, até agora as imagens se resumiram a cenas do progresso e do sucesso das forças americanas. O próprio secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, endossou a cobertura, que chamou de ?robusta e histórica?. ?Duvido que num conflito desse tipo tenha havido uma cobertura livre como estamos vendo desta vez.?

Jornalistas experientes que já cobriram outros conflitos recomendam, no entanto, que se reserve o julgamento final da experiência para depois que as câmeras e os jornalistas que estão com as tropas captarem imagens e informações sobre operações mal sucedidas e tragédias da guerra. ?Esse será o teste?, disse, há dias, a correspondente da CNN no Pentágono, Barbara Starr."

"A vitória do homem-massa", copyright Folha de S.Paulo, 20/3/03

"O comportamento da imprensa norte-americana na guerra contra o Iraque traz à tona reflexões preocupantes sobre o papel da mídia nas modernas democracias. Cada vez mais, não deu manchete, não aconteceu. O avanço da democracia tornou a opinião pública uma referência cada vez mais relevante.

A agilidade do mundo moderno e a busca de resultados rápidos acabaram reduzindo o peso das instituições tradicionais, como o Parlamento e o Judiciário. Fora do período eleitoral, as pesquisas de opinião acabam por condicionar o comportamento das autoridades.

Além disso, a partir do episódio Watergate, a manipulação de denúncias tornou-se elemento corrente no jogo político, ampliando ainda mais a influência da mídia.

De seu lado, a mídia tornou-se cada vez mais um produto de marketing, prisioneira de suas próprias pesquisas de opinião e -por causa da crise internacional do setor? muito mais temerosa de ir contra o que considera pensamento majoritário de seus leitores.

Mais que isso, a crise atual da mídia não pode ser encarada como um movimento conjuntural. A mudança é estrutural. Ampliaram-se desmedidamente as fontes de divulgação, pulverizaram-se as verbas publicitárias, enfraquecendo e/ou tornando superficial a mídia tradicional, que era referência de opinião.

Criou-se, aí, um cadinho perigoso, que acabou provocando esse paradoxo: em plena época da informação, em pleno século 21, uma manipulação do noticiário na nação mais poderosa do planeta.

Não apenas isso. Hoje em dia, há uma ampla pobreza na discussão econômica, na discussão de projeto de país, uma enorme dificuldade para discutir políticas tecnológicas, de saúde. Por vezes fica-se pensando que nossa geração é intelectualmente pobre, não gerou um Eliezer Baptista, um Roberto Campos, um Celso Furtado. Mas, às vezes, baixa o temor de que a superficialidade seja inerente ao mundo contemporâneo.

A televisão não comporta mais do que duas frases articuladas. As revistas têm espaço restrito e, pelo menos desde os anos 70, as reportagens são planejadas antes que o conteúdo seja apurado, na velha receita do ?Times?. Os jornais têm espaço para os chamados artigos de fundo, mas o que conta e influencia s&atiatilde;o as manchetes. E todas elas são condicionadas pelo que se pensa que o leitor queira receber, simplificando sempre para não atrapalhar o produto. Esses movimentos acabam se impondo sobre o Parlamento e, muitas vezes, condicionando ações do Judiciário.

Não surpreende, pois, o comportamento de manada tomando conta da mídia, os linchamentos, a mediocrização das fontes privilegiando sempre aquela que traz obviedades sem risco. É esse modelo que faz com que, na pátria dos direitos individuais, em pleno século 21 se tenha o retorno ao macartismo.

Ao ver o destino da humanidade nas mãos de uma pessoa como George W. Bush, a maneira extremamente fácil com que se manipulam informações, com que se investe contra a racionalidade, há que pensar que, em vez da nova Renascença, o futuro nos reserva a vitória final do homem-massa sobre a razão e o bom senso."

"Mídia americana adota autocensura", copyright Folha de S.Paulo, 25/3/03

"A imprensa americana adotou ontem autocensura semelhante à das televisões do país e escondeu as imagens, divulgadas no domingo pela TV iraquiana, de soldados dos EUA mortos e mantidos com reféns de guerra.

Dos cinco jornais de maior circulação, só o ?Los Angeles Times? reproduziu as cenas exibidas pelo canal de Saddam Hussein. Os jornais ?USA Today?, ?The Wall Street Journal?, ?The New York Times? e ?The Washington Post? não trouxeram as imagens.

?Decidimos não publicar as fotos dos soldados mortos ou capturados porque há questões não respondidas sobre as condições em que foram feitas e as identidades dos soldados?, disse Toby Usnik, diretor de relações públicas do ?The New York Times?.

Para o ombudsman do ?The Washington Post?, Michael Gleter, ?algumas das fotos talvez não devessem ser publicadas?.

Procurado, o relações-públicas do ?Los Angeles Times?, David Garcia, não havia explicado até o fechamento desta edição os motivos para o jornal omitir as fotos.

?São imagens que nossos inimigos nos mostram. Não temos de vê-las?, afirmou Tim Graham, diretor de análise do Media Research Center, instituição autointitulada ?a líder em documentar, expor e neutralizar o viés da mídia liberal?. Para ele, ?quando começa uma guerra, há sempre a discussão de que as pessoas não entendem o que acontece, mas elas sabem o que é uma guerra?.

Robert Jansen, professor de jornalismo da Universidade do Texas, diz que a mídia dos EUA deve até divulgar imagens negativas de seus soldados, mas não será o padrão. ?Haverá resistência em publicar fotos que mostrem soldados em posição de fraqueza. É um nacionalismo errado.?

Pedido

No domingo, por meio de um comunicado, o Departamento de Defesa solicitou à mídia americana que não reproduzisse as imagens, alegando que precisava primeiro contatar as famílias dos soldados mortos e tidos como reféns. Antes de a discussão explodir, no domingo, a imprensa publicara imagens de soldados iraquianos presos pelos EUA.

A autocensura entre os jornais de maior prestígio, porém, não foi acompanhada pelos tablóides. Em Nova York, por exemplo, o ?Daily News? e o ?New York Post? trouxeram na capa reproduções das fotos de americanos mortos ou capturados, sob as manchetes ?Ultraje? e ?Selvagens?, respectivamente.

Mesmo sem as imagens, os principais jornais americanos trouxeram ontem reportagens sobre a discussão pública travada pelas redes de TV no domingo.

Na televisão, o debate continuou ontem. A CNN anunciou que seguiria a orientação do Pentágono. ?Mas mostraremos trechos dos depoimentos dos soldados?, disse a âncora Paula Zahn."