Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Eloi de Souza Garcia e Carlos Augusto Grabois Gadelha

OFJOR CI?NCIA

OfJor Ciência 2000 ? Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

ASPAS

"Novos gerentes para a ciência", copyright O Globo, 13/10/00

"Há um consenso mundial de que o desenvolvimento das nações depende de sua capacitação científica e tecnológica Todavia, esta relação entre ciência, tecnologia e desenvolvimento não é direta nem linear. Existem países, como a Argentina, em que uma base científica avançada não se transformou em inovações e em oportunidades de crescimento e de desenvolvimento. Outros, como o Japão, a Coréia do Sul e Formosa, incorporaram a ciência e a tecnologia geradas pelos países avançados numa estratégia agressiva de inovações e de desenvolvimento, somente enfatizando o suporte à atividade científica num momento posterior.

Portanto, se, de um lado, todos os processos contemporâneos de desenvolvimento a médio e longo prazos estiveram associados à incorporação de ciência e tecnologia na atividade produtiva, de outro lado não é trivial como estes vínculos são estabelecidos. Neste cenário, a gestão do conhecimento coloca-se como um fator essencial para vincular ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional. Torna-se necessário considerar a revolução em curso nos processos de produção de conhecimento. Se antes o desenvolvimento científico associava-se, em grande medida, ao aumento do conhecimento inerente a cada disciplina, atualmente o contexto em que o conhecimento é aplicado emerge como um fator determinante. As necessidades sociais, do meio ambiente, do setor produtivo, entre outras, passam a ter um peso decisivo na orientação da pesquisa, deixando mesmo de haver uma divisão nítida entre a pesquisa básica e a aplicada. A sociedade, o Estado e a economia, passam a ser elementos essenciais para a definição dos focos das investigações, somando-se aos requerimentos internos à própria ciência.

Equipes multidisciplinares são constituídas em bases temporárias para a resolução de problemas específicos do conhecimento humano. As hierarquias se tornam mais fluidas e redes de conhecimento são formadas, envolvendo desde a comunidade científica até os consumidores, organizações sociais, o Estado e as empresas.

A pesquisa cooperativa em grande escala se torna uma necessidade, reduzindo custos e, principalmente, agregando competências que potencializam a obtenção e a difusão de conhecimentos e de inovações. Exemplificando, o artigo científico que sintetiza o recente e bem-sucedido caso da pesquisa brasileira no âmbito do projeto genoma possui mais de cem autores pertencentes a inúmeras instituições científicas, envolvendo o Estado no fomento e na própria concepção e âmbito do projeto. As pesquisas em Aids são orientadas tanto pelo interesse científico quanto pelas pressões e incentivos provenientes de ONGs, da sociedade organiza-da em geral e da política de saúde, dando origem a um avanço no tratamento impensável há poucos anos.

A comentada aceleração da História, identificada pelos cientistas sociais, ganha sua expressão mais marcante na área da ciência e da tecnologia. Os avanços na tecnologia de informação na última década, entre muitas outros, mostram o encurtamento do tempo histórico e a imbricação entre ciência, tecnologia e necessidades sociais. As mudanças são tão intensas a ponto de haver estimativas de que 50% da tecnologia utilizada no mundo serão substituídos em dez anos por tecnologias ainda não existentes.

Neste cenário de profundas transformações, as antigas e ainda dominantes formas de gestão do conhecimento presentes no Brasil tornam-se completamente obsoletas e restritivas aos avanços requeridos ao conhecimento e à inovação. Estruturas organizacionais rígidas e verticalizadas, as regras vigentes da burocracia pública e a rigidez do conhecimento disciplinar fechado em si mesmo aparecem como verdadeiras barreiras à inovação. O avanço do conhecimento e a inovação impõem a necessidade de mudança organizacional e de reforma do Estado brasileiro na área de ciência e tecnologia.

Modelos organizacionais matriciais e estruturas flexíveis e temporárias que permitam a organização de grupos de pesquisa multidisciplinares, voltados para a resolução de problemas, tornam-se elementos essenciais para o novo paradigma do conhecimento científico e tecnológico.

A introdução sistemática de formas de pensar o futuro e de definição de focos e de estratégias, sem a rigidez dos sistemas tradicionais de planejamento, impõe~se como uma necessidade da administração pública na área. A ciência e a inovação não podem ser tratadas com os modelos burocráticos rígidos ainda existentes. (Eloi de Souza Garcia ? presidente da Fiocruz, e Carlos Augusto Grabois Gadelha ? assessor de Planejamento Estratégico)"

CÓDIGO GENÉTICO

"O genoma é nosso", copyright no. (www.no.com.br), 27/10/00

"A julgar pelo enfoque dado pela imprensa ao Projeto Genoma Humano, todo brasileiro já deveria ter incluído na mesa do bar entre cervejas, tira-gostos e outras resoluções políticas, discussões sobre o código genético. Mas segundo o meu irmão ?o assunto predileto continua sendo futebol?.

Recentemente um jornal brasileiro transcreveu uma entrevista do Dr. Richard Jefferson, chefe do centro de biotecnologia de Camberra, Austrália, dada para a revista inglesa ?New Scientist?. Quem se deu ao trabalho de ler entendeu que o Dr. Jefferson crê que o seqüenciamento do genoma de plantas é uma perda de tempo porque não garante o ?conhecimento total? da planta. À primeira vista essa opinião colide com a intenção brasileira de seqüenciar o genoma da cana-de-açúcar. Por inferência, seqüenciar o genoma humano também não significaria conhecer o segredo da vida humana. Mesmo assim assistimos por mais de uma década a saga do Projeto Genoma Humano, além do seqüenciamento do genoma de vários organismos inclusive do patógeno da cólera, ou da bactéria Xyllela fastigiosa, que pragueja nossas plantações de laranja, alcançado por cientistas brasileiros. Meu irmão, que é um matuto esperto e leu a entrevista, pergunta mineiramente ?então para que gastar com projeto genoma?? Na minha opinião, o Brasil deve continuar se envolvendo com atividades genômicas e pós-genômicas por várias razões.

Já que estamos fazendo 500 anos de existência, regressemos ao descobrimento. Assim como houve várias razões por trás da viagem de Cabral ou Colombo, seja o entusiasmo de ambos navegadores de explorar novos horizontes, ou a busca de riqueza por mercadores, ou ainda a procura da supremacia dos mares pelas nações envolvidas, também existiram várias motivações por trás do lançamento do Projeto Genoma Humano.

Nessa saga ?Cabral? seria representado por um grupo de proeminentes cientistas seduzidos a se juntar ao projeto pela oportunidade da exploração e da descoberta. Seqüenciar o genoma humano significava abrir ?as portas do conhecimento?.

Os mercadores seriam representados pelas companhias de biotecnologia sedentas por lucros nessa indústria tão competitiva. Assim como os mercadores portugueses sonhavam com os lucros que fariam negociando especiarias das Índias, as biotechs modernas sonham com os lucros que conseguirão ao obter direitos exclusivos a fontes genéticas para novas terapias, diagnósticos e outros usos. E, da mesma maneira que os mercadores de Veneza não queriam custear a viagem de Colombo, nenhuma companhia farmacêutica ou biotech queria custear o seqüenciamento do genoma. Elas tinham quem pagasse a conta: o contribuinte dos países envolvidos! Nem preciso lembrar que sem o potencial econômico ninguém teria bancado um bando de exploradores ou cientistas sonhadores! É mais fácil conseguir quem banque quando se promete seda, cura de doenças e outras formas de crescimento econômico.

De longe o Projeto Genoma Humano parece um modelo exemplar de cooperação internacional entre os EUA, Europa e Japão. Para continuar a analogia com a saga dos descobrimentos, seria como se Espanha, Portugal, França e Inglaterra tivessem juntado forças no descobrimento da América! De perto, o projeto é mais uma face da corrida pela supremacia mundial, nesse caso a corrida vale o domínio do segredo da vida humana. Para garantir o primeiro lugar na largada, os americanos começaram com 28 milhões de dólares. Concluíram que o retorno econômico por essa supremacia valia o investimento do contribuinte ? até agora de cerca de 250 milhões de dólares. Um ano depois começaram as investidas européias e japonesas. Assim começou a era do imperialismo genômico.

Imperialismo genômico? Estou exagerando? Afinal, em 1996 os parceiros internacionais do projeto garantiram o livre acesso mundial aos bancos de dados nos quais as seqüências obtidas eram depositadas. Além disso, uma espécie de Nações Unidas do genoma chamada Organização Genoma Humano (HUGO) foi criada mas, como a ONU, a HUGO late mas não morde. Como o Dr. Jefferson, esses países entenderam que seqüenciar o DNA é um primeiro e importante passo, mas não é o suficiente para compreender o segredo da vida. Por isso, enquanto hoje o resto do mundo começa a acordar para a genômica, esses países já estão na chamada corrida pós-genômica ou seja, na avaliação e extração de informação de valor diagnóstico ou terapêutico do genoma. Essa ?mina de ouro? está sendo explorada por biotechs e pela emergente indústria da bioinformática para a certificação de patentes sobre genes humanos e outros organismos. Assim, ao descobrir primeiro o continente genômico, os países envolvidos no projeto ganharam elementos importantes: know-how, tempo e dinheiro.

Para não sofrer desprevenido os efeitos de uma colonização genômica, o Brasil necessita acompanhar o passo do progresso genômico. É como decidir de novo que o petróleo é nosso. Obter know-how genômico e pós-genômico tem que ser uma prioridade nacional. Isso significa investimento intelectual e estrutural para a exploração ética do horizonte genômico e pós-genômico. Significa também estabelecer um sistema operante para assegurar e defender de forma ética nossos direitos de propriedade intelectual ? ou seja, das descobertas feitas por cientistas brasileiros no território genômico e pós-genômico.

Só através de uma posição influente nesse mapa poderemos efetivamente evitar que um pequeno grupo controle a colonização genômica da vida. Investir em genômica é mais do que um plano de seguros para o país. É um passaporte para o nosso futuro econômico e social. Existem épocas quando a tecnologia muda tão radicalmente que necessitamos adaptar rapidamente certas regras básicas da vida em sociedade. Assim como a revolução industrial com seu apetite voraz pelo trabalho e consumo humano requereu novas obrigações sociais como a planilha dos direitos do trabalhador, ou o tratamento imparcial dos indivíduos independentemente de sexo, cor, ou crença, a revolução genômica necessitará que criemos novas obrigações sociais.

Para alcançar essas metas será necessário estabelecer uma ?alfabetização genômica?, ou seja, a educação de nossa sociedade sobre a nova era que nos aguarda. Na minha utopia o brasileiro ?alfabetizado? (em todos os sentidos) poderia até chegar a discutir genômica no botequim! Meu irmão, mineiro encasquetado que é, continua resoluto: ?O assunto predileto continuará sendo futebol?."

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