Thursday, 22 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

Em 2001, 100 vidas perdidas

PROFISSÃO PERIGO

Cem profissionais de mídia foram mortos em todo o mundo em 2001, anunciou a International Federation of Journalists (IFJ), destacando as baixas da mídia americana: quatro repórteres e oito funcionários, seis deles engenheiros de transmissão, morreram quando trabalhavam nas torres do WTC. Contaminado pelo antraz que chegou via correio à American Media, morreu o editor de fotografia Robert Stevens. No Afeganistão, oito jornalistas perderam a vida cobrindo a guerra, entre os quais o espanhol Julio Fuentes, 42 anos, de El Mundo; a italiana Maria Grazia Cutuli, 39 anos, do Corriere della Sera; o cinegrafista australiano Harry Burton, 33 anos, da Reuters; o fotógrafo afegão Azizullah Edri, 33 anos, também da Reuters, além de um alemão e dois franceses. Falta na conta uma identificação. O pior ano antes de 2001, para a profissão, foi o de 1994: 106 jornalistas morreram em serviço.

"A lista de vítimas fornece uma lembrança trágica do preço que pagamos por liberdade de imprensa e democracia", disse Aidan White, secretário-geral da IFJ, que representa profissionais de 106 nações. Segundo Paul Ames [Associated Press, 17/12/01], mais de 1 mil trabalhadores de mídia foram mortos nos últimos 10 anos.

A Colômbia lidera a lista em número de jornalistas marcados para morrer: são quatro casos confirmados e seis sob investigação. Entre os comprovados estão os assassinatos de Flavio Bedoya, por paramilitares de direita, e de Edgar Tavera Gaona, por rebeldes esquerdistas. No Brasil, o repórter Mário Coelho, do jornal A Verdade, foi baleado um dia antes de testemunhar no tribunal em um caso de difamação.

RÚSSIA

Um tribunal militar condenou o jornalista e capitão Grigory Pasko a quatro anos de prisão por espionagem e traição. Pasko também perdeu o posto militar por ter participado ilegalmente de reunião secreta entre comandantes da Frota do Pacífico russa, em 1997, e de passar as anotações que fez à mídia japonesa.

No primeiro julgamento, em 1999, Pasko foi absolvido da acusação de traição, mas condenado por delitos menores. Ele apelou da sentença pedindo absolvição total, e a Suprema Corte mandou o caso de volta ao tribunal, com um juiz diferente, Dmitry Kuvshinnikov, que aceitou a principal acusação ? de que Pasko divulgara segredos de Estado ? por terem encontrado em sua casa as notas sobre a reunião. O juiz dispensou outras quatro denúncias, de que ele estaria coletando material secreto para publicação, declarando-as não comprovadas. O jornalista, que já passou 20 meses preso, deve continuar atrás das grades por mais 28 meses.

A defesa argumenta que o motivo real de Pasko estar sendo processado foi ter escrito matérias denunciando abusos ambientais da Marinha russa, inclusive vazamento de lixo radioativo no mar. Segundo Anatoly Medetsky [Associated Press, 25/12/01], o caso deste jornalista é apenas um dos vários que envolvem pesquisadores acusados de passar informação sigilosa a estrangeiros.

ÁFRICA

O governo de Botsuana preparou projeto de lei que permite às autoridades determinar quais veículos e jornalistas podem operar no país. Além da obrigatoriedade de registro, seria criado um conselho de mídia responsável pela estipulação de padrões profissionais; publicações consideradas ofensivas poderiam ser fechadas e profissionais acusados de violar as regras de imprensa seriam multados ou presos por até três anos.

Em 2001, o governo retirou toda a propaganda oficial de dois jornais privados que denunciaram viagens não-autorizadas do vice-presidente em helicópteros militares. A televisão estatal também foi proibida de exibir um documentário que criticava o enforcamento de uma sul-africana condenada por homicídio.

Segundo Rachel L. Swarns [The New York Times, 23/12/01], o projeto é mais uma tentativa de repressão da mídia em países do sul da África. No Zimbábue e em Angola, jornalistas são presos com freqüência; em Zâmbia, uma estação privada de rádio foi fechada por criticar o regime, mesma razão alegada pelo governo da Namíbia ao deixar de anunciar num jornal local.

O projeto ainda precisa de aprovação do Congresso. Spencer Mogapi, editor do semanal Botswana Gazette, afirma que tal lei inevitavelmente afetará o modo de operação das publicações. "Temos um ministro que pode fechar um jornal do dia para a noite. Como pode um veículo cobrir criticamente o mesmo homem responsável pela sua autorização?", pergunta. "A sensação geral é de que estamos regredindo." Grupos internacionais de defesa da liberdade de imprensa escreveram ao presidente Festus G. Mogae avisando-o de que os esforços para controlar a mídia podem manchar a imagem do país, visto como uma das mais respeitadas democracias liberais do continente.