Friday, 12 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Espreme que sai sangue 

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade ? a extraordinária história do jornal Notícias Populares, de Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima; prefácio de Marcelo Coelho, Carrenho Editorial, 280 pp., R$ 32,00 ? <http://www.carrenho.com.br>, telefones (011) 5539-3378 e 5549-1121

Nada mais que a verdade, livro de estréia dos jornalistas Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima, lança luzes sobre a trajetória de um dos mais polêmicos jornais brasileiros. Com um tom de crônica, a obra resgata os fatos importantes e pitorescos do Notícias Populares ? desde a fundação do jornal, em outubro de 1963, por Herbert Levy, até a circulação da última edição, em janeiro de 2001.

Ao abrir o "sangrento" jornal, o leitor jamais poderia imaginar que o NP nasceu com propósitos políticos: era a esperança da União Democrática Nacional (UDN), de Levy e Carlos Lacerda, para conter a influência popular da Última Hora, criada por Samuel Wainer e historicamente ligada a Getúlio Vargas.

O livro recupera a biografia do romeno Jean Mellé, o primeiro editor do NP, e traz cerca de 50 reproduções das primeiras páginas do jornal.

Notas sobre o NP

** O jornalista romeno Jean Mellé passou 10 anos preso na Sibéria por ordens de Joseph Stalin, fazendo trabalhos forçados nas minas de carvão. Tudo porque, em 1947, soltou em seu jornal Momentul, de Bucareste, uma manchete contrária aos comunistas: "Russos estão roubando o pão do povo".

** Após ser liberado da Sibéria, Mellé desembarcou no Brasil em 1959 sem falar praticamente nenhuma palavra de português. Mesmo assim, por intermédio de um amigo romeno que estava no Brasil, conseguiu um emprego no Última Hora de Samuel Wainer. Menos de quatro anos depois, em associação com Herbert Levy (presidente da UDN e dono da Gazeta Mercantil), lança o Notícias Populares com uma finalidade marcadamente política: o NP seria um vespertino anticomunista. Essa postura duraria até 1965, quando Levy vende o jornal para Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, da empresa Folha da Manhã, que edita a Folha de S.Paulo. Mellé permanece como editor do NP.

** Em 1968, Mellé fez "desaparecer" o astro Roberto Carlos, que estava em Nova York. O diretor da TV Record informou a um repórter que não estava conseguindo contatar o Rei nos Estados Unidos; quando o jornalista levou a história à Mellé, este soltou a manchete: "Desapareceu Roberto Carlos". No dia seguinte, centenas de tietes cercaram a redação em busca de notícias sobre o ídolo. Revoltado, o diretor da Record exigia um desmentido, mas Mellé, no dia seguinte, apenas manchetou: "Acharam Roberto Carlos". Nos dois dias, o jornal vendeu 20.000 exemplares a mais.

** Em maio de 1975, o Notícias Populares publica a história do bebê-diabo, que se tornaria um marco no jornalismo brasileiro. Era uma "cascata" sobre o nascimento de um menino com chifres e rabo em São Bernardo do Campo; entretanto, o povo acreditou na história e o NP começou a inventar uma saga para o bebê-diabo. O caso permaneceu na primeira página do jornal por 27 dias, nos quais pessoas ligavam para a redação jurando que viam o bebê-diabo e informando seu paradeiro. Após quase um mês de sucesso comercial e fracasso moral, a redação decidiu assassinar o assunto.

** Também importante para o Notícias Populares foi o título paulista de 1977 do Corinthians, que tirou o clube do jejum de 23 anos sem conquistas. Os torcedores disputavam a autoria da promessa mais absurda, que seria publicada pelo NP. A manchete de 23 de outubro de 1977 anunciava o vencedor: "Vou comer 23 sapos se o Corinthians ganhar". Era um fanático que prometia devorar os batráquios cozidos com alho e limão.

** O NP foi pioneiro na publicação de colunas destinadas a minorias. O jornal foi um dos primeiros a ter uma seção GLS chamada "Espaço Gay", que estreou em novembro de 1983. Para marcar terreno, os jornalistas fizeram questão de criar também a "Coluna do Machão". Na mesma página ficava a coluna "Tudo sobre sexo", uma das primeiras a abordar educação sexual em jornais brasileiros.

** A cobertura de Carnaval do NP sempre foi um caso à parte: até os leitores de outras publicações não resistiam às toneladas de fotos picantes tiradas pelos salões de São Paulo, com suas hilárias legendas. Exemplos: "San Chupança", "Dona Celu Lite", "Olívia Nílton João", "alisando o pandeiro", "de lanterna na mão", "limpando língua com Bombril". As edições de Carnaval chegaram a vender mais de 200 mil exemplares na década de 80.

** Na época em que o Brasil acompanhava o calvário de Tancredo Neves, em 1984, o NP torcia junto para que o presidente escapasse da morte. Para azar da redação, Tancredo morreu após o fechamento da edição. Pior que não poder noticiar a morte do presidente eleito foi o jornal chegar às bancas com uma manchete que mais parecia uma piada de mau gosto. Com Tancredo já no IML, o NP anunciava na primeira página: "Médico americano quer Tancredo mais gelado". Era a tentativa de controlar a hipotermia do paciente ? quando este ainda estava vivo, obviamente.

** Em 1990, o Notícias Populares recebe uma injeção de sexo e sensacionalismo. Algumas manchetes publicadas nessa época: "Bicha põe rosquinha no seguro", "Aumento de merda na poupança", "Broxa torra o pênis na tomada", "A morte não usa calcinha". É dessa época também a manchete mais hardcore da história do NP: "Churrasco de vagina no rodízio do sexo".

** Em 1994, o Notícias Populares enviou Zé do Caixão para fazer a cobertura do GP Brasil de Fórmula 1. O Senhor das Trevas chamou tanto a atenção no primeiro dia dos treinos que a Associação dos Construtores cassou sua credencial. O NP não se conformou com a decisão. Na reclamação, acabou sobrando para Michael Schumacher: "Até o Schumacher, que costuma ser muito fresco, adorou o nosso convidado especial".

** Com o lançamento do jornal Agora, em 1999, pela mesma empresa que o editava, o NP foi desprestigiado. Sem dinheiro para melhorar sua estrutura ou grandes campanhas, a redação começou a fazer milagre com a minguada verba que era reservada ao jornal. Destaque para algumas chamadas para promoções de loterias ("Compre um presentão para a mulher da sua vida. Mas não esqueça a lembrancinha de sua esposa") e para o concurso que sortearia uma van de cachorro-quente ("O NP arranja a perua e você entra com a salsicha").

** O livro Nada mais que a verdade revela a verdadeira identidade de Voltaire de Souza, cronista que começou a escrever para o NP em 1990 e foi "promovido" na empresa Folha da Manhã, passando a assinar uma coluna no caderno "Ilustrada" da Folha de S.Paulo.