Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Estamos todos piores

GREGORI E A TV

Antônio Brasil (*)

Seria cômico se não fosse trágico. O ministro da Justiça, José Gregori, em entrevista à FSP em 7 de novembro, diz que nos últimos anos a TV brasileira piorou, e que ele está com o "cabelo arrepiado" com a programação! Sem poupar adjetivos, ele prossegue dizendo que estamos numa fase escatológica: "Em todo programa tem que aparecer o banheiro. Palavrão virou vírgula." Essa linguagem emotiva e pouco objetiva é típica em avaliações do meio de comunicação mais importante do país. Agora, se ministro de Estado de um governo com instrumentos políticos para mudar a Constituição e que permanece no poder durante tanto tempo está "arrepiado", imaginem como devem estar todos aqueles que gostariam de ver um país e uma televisão melhores.

Assim como o futebol, falar mal de televisão no Brasil parece ser um esporte nacional. O ministro declara que tentou mas não conseguiu mudar um cenário pessimista. Ele parece dizer que a TV brasileira não tem mesmo solução. Devemos então fazer "justiça" e tentar avaliar por que será que a nossa televisão está desse jeito. Afinal, a televisão no Brasil seria mesmo de arrepiar? Quais seriam os responsáveis pela deterioração do meio televisivo? O público? Os produtores de TV? Ou, considerando que a televisão é um espelho do país, talvez não seja o país que tenha piorado nesses últimos anos? Talvez caberia à televisão brasileira ? sempre uma espécie de Geni do Chico Buarque, aquela em que todos atiram pedras ? mostrar de forma eficiente, mais uma vez, tudo aquilo que não queremos ver. Se a televisão piorou, o que dizer do país do ministro? Melhorou?

O "privilégio" do rádio

Não conheço todos os brasileiros, mas se alguém me perguntasse se estou melhor ou pior do que oito anos atrás não hesitaria. Assim como a pobre televisão brasileira, eu também estou pior. Nunca trabalhei tanto, nunca recebi tão pouco e nunca tive tantas dívidas e tão poucos sonhos! E não precisam culpar os terroristas e as guerras. Terrorismo de Estado começa com governos que legislam somente em causa própria ou até mesmo candidatos medíocres que assumem o poder mundial em eleições polêmicas e duvidosas.

Na mesma entrevista, José Gregori, já num clima de despedida ? ele segue para um exílio merecido e confortável na embaixada brasileira em Portugal, declara que as TVs não colaboraram numa tentativa "bem intencionada" de impor ou negociar uma regulamentação. "A concorrência é feroz e tudo gira em torno do ibope. É difícil contrapor à idéia de que só vê (TV) quem quer." Ele também critica a falta de participação e apoio da sociedade ? sempre a sociedade, que não teria respondido ou aceitado seus esforços para as "mudanças". Agora, diz ele, a única alternativa seria estimular uma parceria com o MEC para criar uma audiência mais crítica. Ou seja, o ministro da Justiça desiste de regulamentar o meio televisivo e diz que o jeito é mudar o público. O mais irônico é que a solução apontada por Gregori indica o caminho da educação do povo para melhorar a televisão.

Não é à toa que no Brasil experiências educacionais tão importantes e necessárias como o Telecurso Segundo Grau nunca dão certo. Além de serem caras e utilizarem metodologias duvidosas, estão sempre relegadas aos horários ociosos das madrugadas. Pobre telespectador que quer aprender alguma coisa na televisão. Essas "experiências" milionárias continuam sendo privilégios de acordos obscuros entre o governo, organizações privadas e grandes produtoras de vídeo. A educação pela televisão no Brasil é cara, pouco divulgada e pouco transparente. Quanto à eficiência, os índices oficiais de analfabetismo dizem tudo.

E já que é difícil contrapor a idéia de que só vê quem quer, ficamos imaginando por que será que cabe somente ao rádio o "privilégio" de possuir, hoje, uma Hora do Brasil e no passado, um Projeto Minerva de educação a distância. Apesar de todas as críticas relevantes, durante uma hora, todos os brasileiros são "forçados" a ouvir as últimas notícias dos poderes Executivo, Judiciário e parlamentar. O programa é terrivelmente "chato"! Mas é claro que também podemos desligar o rádio, ouvir uma fita ou assistir… televisão. Ao contrário do rádio, parece que não podemos nos desligar da TV. Como qualquer droga, a televisão entorpece e vicia, mas também faz o público se sentir melhor. Mesmo estando cada vez pior, segundo o ministro, deve-se fazer justiça (não pude resistir ao trocadilho)! Assistir televisão ainda parece preferível a ficar ouvindo intermináveis discursos de políticos se auto-elogiando e as últimas notícias detalhadas sobre distribuição de verbas do governo para cada um dos municípios brasileiros. É dose!

Todos em Portugal

Mas tem gente que ouve. E parece até que tem gente que gosta, além, obviamente, dos políticos e dos funcionários da Radiobrás. De qualquer forma, por falta de opções ou por qualquer outra razão, muitos acabam recebendo algumas informações importantes sobre o nosso país. É uma forma de educação num horário dominado pelas nossas telenovelas, que tanto deseducam. Quem não quer ouvir também pode desligar. Esse argumento nunca impediu os governos de preservarem incólume essa invenção tão democrática (sic) do Estado Novo da era Vargas.

Mas por que será que a televisão brasileira não possui um equivalente à Hora do Brasil? Já imaginaram um deputado qualquer criar um projeto de lei obrigando as televisões brasileiras a apresentarem diariamente, das 7 às 8 da noite, no horário nobre da nossa dramaturgia televisiva, um equivalente educacional à Hora do Brasil? Nem precisa imaginar. Concordo. Seria suicídio político. Mas assim como é uma "injustiça" obrigar o rádio a arcar de forma solitária com o ônus da informação oficial, seria mais "justo" impor igualmente à televisão um papel maior na educação brasileira.

Televisão é concessão pública, e cabe aos governos e à sociedade estabelecerem seus limites e suas obrigações. As autoridades não podem simplesmente desistir de cobrar dos proprietários dessas concessões uma atitude mais responsável, assim como nunca desistem de cobrar dos brasileiros cada vez mais impostos.

Talvez uma "Hora do Brasil na TV" não seja a solução. Mas desistir ou dizer que a televisão não tem solução é muito cômodo. Nem todos os brasileiros podem se mudar para Portugal e passar a assistir a uma televisão tão boa e educativa como a televisão portuguesa. Desistir do principal e único meio de comunicação de massa que, segundo as últimas pesquisas do IBGE, já alcança 98% dos lares brasileiros, é desistir do nosso futuro. Acusar, mais uma vez, a televisão brasileira por todos os nossos males é uma visão sensacionalista e simplista. No Brasil e no mundo, sem dúvida, não é só a televisão que está pior.

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de Vídeo e professor de Telejornalismo da Uerj e doutorando em Ciência da Informação na UFRJ