Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Estrela Serrano

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Alarme na primeira página" copyright Diário de Notícias, 4/3/02.

"A primeira página do DN de 22 de Janeiro passado era de molde a causar alarme. De facto, um medicamento mortal à venda em Portugal, como se dizia na manchete, é uma notícia assustadora. O pós-título era, contudo, menos pessimista, ao precisar que se tratava de um produto antitabaco suspeito de provocar a morte de 61 pessoas, na Europa. A abertura da notícia esclarecia que Portugal não vai retirar do mercado o medicamento em causa ? o Zyban ? indicado para deixar de fumar, acrescentando que por cá, o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) registou 13 notificações de reacções adversas, nenhuma delas fatal, não sendo, por isso, possível determinar uma relação de causa e efeito com a ingestão do fármaco.

O leitor que procurasse o desenvolvimento da notícia encontraria, na secção Sociedade, mais alguns pormenores sobre casos relacionados com a tomada do Zyban: na Alemanha, quatro mortes em 330 mil pacientes a quem o medicamento foi prescrito; na Grã-Bretanha 57 pessoas que tomaram Zyban morreram desde Junho de 2000, data da sua introdução no mercado. Ainda, segundo a notícia, em Portugal, o Infarmed procedeu a alterações da posologia do Zyban propondo-se, comunicar aos profissionais de saúde e ao público, em geral, qualquer informação de segurança, adicional.

O leitor, jornalista João Paulo Oliveira, não apreciou o tratamento dado à notícia. Afirma, mesmo, que o seu autor não deu, sequer, uma notícia, dado que todos os medicamentos à venda, em Portugal e no mundo, são potencialmente mortais, se administrados a determinado doente em determinadas circunstâncias. Dá o exemplo da vulgar aspirina, que tem no cadastro mortes por perfuração gástrica e não requer, para a sua aquisição, receita médica, ao contrário do tal ?medicamento mortal?. J. P. Oliveira refere, ainda, que a notícia alude a um produto antitabaco?, quando, realmente, se trata de um produto não contra o tabaco (…), mas contra a dependência causada por esta erva, e considera que a expressão por cá, com a sua carga adversativa (…), convoca uma ideia de negligência, além de que só faria sentido se no Reino Unido e na Alemanha o medicamento tivesse sido banido.

O director do DN, Mário Resendes, admite que o título da primeira página, embora, em teoria, esteja correcto, pudesse ter uma formulação mais prudente. A questão levantada por este título de primeira página é uma questão recorrente nas queixas dos leitores.

De facto, não é raro que temas puxados para a capa tenham, depois, no interior do jornal, um tratamento mais prudente. Se na capa se tivesse optado pelo título e pós-título dados, à mesma notícia, na página interior, que eram, respectivamente, Zyban à venda em Portugal e Infarmed registou 13 reacções adversas ao medicamento (…), mas nenhuma delas foi fatal, não existiria razão para reparos. A que se deve, então, a passagem do medicamento, da condição de suspeito de mortalidade à condição de (categoricamente) mortal, como sugere a primeira página?

A resposta está, efectivamente, na página em que aparece a notícia. Na primeira, predomina o drama e a encenação ? o medicamento é mortal ? na página interior, há contenção, prudência e rigor: nenhuma das reacções ao medicamento, em Portugal, foi fatal. Será isto uma inevitabilidade? A experiência recente de leitura de primeiras páginas do DN, diz-nos que, se não é impossível, é, pelo menos difícil, ao DN, escapar à tentação de títulos vistosos, sonantes, dramáticos e chamativos, enquadrados, muitas vezes, por ousadas soluções estéticas, abrangendo uma combinação de imagens, cor e dimensão de caracteres (soluções que neste caso concreto, não foram utilizadas).

Esses títulos funcionam como uma espécie de chicotada psicológica de interpelação do leitor. A provedora não duvida do mérito de algumas dessas soluções gráficas que têm contribuído para o sucesso do jornal e lhe granjearam, mesmo, recentemente, importantes prémios. Mas não crê que seja impossível, ao jornal, conciliar a criatividade da sua equipa artística com o rigor exigido à sua equipa jornalística.

O desejo, legítimo, de atrair leitores não pode fazer-se à custa do rigor da informação. Porque, ainda que o leitor se sinta atraído, num primeiro olhar, pelo alarido da primeira página e decida, só por isso, comprar o jornal, se verificar que, afinal, se tratava de exagero, poderá ser levado, no futuro, a duvidar da fiabilidade das notícias do DN.

O sistema comercial, que caracteriza a organização dos media nas democracias ocidentais, possui as suas leis. Mas está por provar que os efeitos produzidos, no público, por determinadas opções jornalísticas que não têm em conta a sua sensibilidade, correspondam aos objectivos visados pelos responsáveis por essas opções.

Quando se trata de informar o público sobre questões tão delicadas, como as relacionadas com a saúde, não pode haver hesitações entre o rigor da informação e a tentação de um título esmagador. O julgamento do mercado ? tantas vezes invocado para justificar opções de cedência a gostos, teoricamente, mais populares ? vai, no médio e longo prazo, quase sempre ao arrepio dessas cedências. Acresce que o DN também é credor da sua própria história ? a de um jornal para quem os valores sempre se sobrepuseram aos imperativos do mercado.

Bloco-notas

Há um ano… ? A queda da ponte de Entre-os-Rios, ocorrida há um ano, provocou um dos maiores e mais vivos debates sobre o papel da televisão na cobertura de acontecimentos trágicos, envolvendo perdas de vidas humanas. Entretanto, outras tragédias ocorreram, como o crime de Fortaleza, no Brasil e o ataque terrorista, nos EUA. A TV voltou a estar no centro da discussão sobre os limites impostos pela deontologia à missão de informar. Recentemente, as televisões mostraram o corpo do líder da Unita, em grandes e demorados planos, exposto às moscas, de calças desapertadas e sem sapatos.

Tudo de novo ? Importaria perceber por que se repetem certos procedimentos que todos, nomeadamente, os profissionais de TV, reconhecem como errados. Sabe-se que, na cobertura de tragédias que ocorrem repentinamente, como o desastre de Entre-os-Rios, é impossível, nos primeiros momentos, dispor de informações precisas sobre o sucedido e que é difícil, às televisões, organizarem, imediatamente, um plano de cobertura pensado e estruturado. Por outro lado, eram, na sua maioria, jovens, os repórteres enviados para o local. Eles viveram as pressões profissionais dos editores e directores, bem como a concorrência dos colegas de outras TV?s. Foram contagiados pela emoção que a todos tolhia. Talvez, por isso, foram tão absurdas as perguntas que lhes ocorreram perante os familiares das vítimas ? únicas fontes disponíveis nessas primeiras horas. Mas, passadas essas horas, porque continuaram as TV?s massacrando os portugueses com directos intermináveis sem informação e com imagens repetidas à exaustão? E porque se repetiu tudo, nos casos seguintes?

O mercado ? As respostas a estas questões são, é certo, mais difícieis que as perguntas. Além de não existirem respostas definitivas. A televisão é um media demasiado complexo para poder ser analisado fora do contexto em que se insere. Mas teria sido possível, a directores e editores dos canais de televisão, evitar que os seus repórteres ficassem, como aconteceu, expostos a situações que não podiam controlar, à procura desesperada de imagens e discursos que satisfizessem uma audiência com algo de voyeur. A lógica das audiências ? que promove as emissões mais dramáticas ? não pode explicar tudo. O jornalismo perderia a sua razão de ser se se deixasse submergir pela realidade cínica do mercado. Carta de princípios O canal público francês, France-Télévision, vai ter uma carta de princípios. Didier Epelbaum, ex-provedor da France-Télévision, responsável pela organização da Carta, disse esta semana, num colóquio em Lisboa, sobre Falar televisão, que a ideia nasceu da ausência de referências que enquadrem as queixas dos telespectadores. As leis e regulamentos do sector, existentes em França, ou não são conhecidos dos profissionais ou são, pura e simplesmente, ignorados, muitas vezes com o argumento de que não são aplicáveis à dinâmica do audiovisual."