Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Eugênio Bucci

QUALIDADE NA TV

ASPAS

"Show de horrores não é jornalismo", copyright Folha de S. Paulo, 28/10/00

"Recentemente, o programa de auditório animado pelo senhor Carlos Massa, o Ratinho, do SBT, exibiu cenas em que uma criança é torturada por um adulto. São imagens que chocam e estarrecem, um apelo típico do sensacionalismo policialesco que grassa na televisão brasileira.

Havia justificativa jornalística para que fossem postas no ar? Nenhuma. Havia, como sempre há, a justificativa comercial, a da audiência a qualquer preço. E havia também, naquele episódio em particular, uma explícita motivação eleitoreira: ao final da exibição da tortura, o apresentador repetiu os bordões que são a marca do candidato do PPB à Prefeitura de São Paulo, Paulo Maluf. Aliás o dueto entre o animador e o político, ao longo da campanha, mostrou-se bastante afinado: em seu horário eleitoral, Maluf usou trechos do Programa do Ratinho. Um reforçando o outro.

Quanto a justificativas jornalísticas, nada.

Uma cena de tortura pode, e deve, ir ao ar quando constitui notícia de interesse público, isto é, quando a sua revelação desmascara desvios da autoridade pública que, em vez de proteger, viola os direitos humanos. Ou ainda quando sua revelação, desde que estritamente factual, não teatralizada, ajuda na identificação de criminosos que ameacem a comunidade. Por exemplo: dar visibilidade a atrocidades que sejam cometidas por policiais contribui para corrigir excessos e para melhorar a polícia. Outra coisa é promover o show de horrores com base em crimes isolados, cometidos por pobres desgraçados ou loucos, já identificados pelas autoridades (a propósito, registre-se que o torturador da criança já se encontrava preso, como o próprio animador cuidou de avisar). Aí não há notícia, não há informação nem há jornalismo. Eticamente, portanto, a exibição de uma cena de tortura como aquela é inteiramente inaceitável.

De resto esse senhor, o Ratinho, não dispõe de credibilidade jornalística. Ele mesmo declara que seu programa ‘é de variedades, não jornalístico’ (‘O Estado de S.Paulo’, 27/10, em reportagem de Elizabeth Lopes).

Buscou abrigar-se na categoria ‘show de variedades’ quando ficou demonstrado que uma das ‘denúncias’ de sequestro e assassinato exibidas por ele (e usadas por Maluf na propaganda do horário eleitoral) era uma fraude. A vítima cometera suicídio, segundo consta em inquérito policial. Como todos sabem, nem mesmo um programa de ‘variedades’ tem o direito de mentir para a opinião pública, mas a alegação parece servir de salvo-conduto para o sensacionalismo barato.

Há ainda um agravante: a vítima da sessão de tortura era uma criança. Embora não diretamente identificada, ela foi exposta a uma situação humilhante diante da platéia nacional, o que só piora a barbaridade que já sofreu. Isso, no entanto, não incomoda os responsáveis pelo programa. O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 18, diz que ‘é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor’, mas eles não ligam. E, no final, a platéia ainda bate palmas.

Apelações como essas, que degradam duplamente as vítimas da violência, degradam também a todos nós. Rebaixam os padrões da nossa convivência. No fim da história, todos somos vítimas do show de horrores. (Eugênio Bucci, 42, é jornalista, secretário editorial da Editora Abril e autor de ‘Sobre Ética e Imprensa’, Companhia das Letras)".

"Maluf e Ratinho dividem estilo e opiniões", copyright O Estado de S. Paulo, 29/10/00

"E o rato rugiu novamente. Depois de uma temporada de hibernação, em que conteve os instintos e deixou de freqüentar as manchetes como protagonista destacado da baixaria na televisão, eis que Carlos Massa ressurgiu, para desempenhar seu habitual papel. Desta vez, seu palco não foi apenas o SBT, mas também o horário eleitoral gratuito da capital paulista, onde ele brilhou como artilheiro de Paulo Maluf em sua cruzada antidrogas, antiaborto, antidireitos humanos e pela moralidade pública, que tão sinceramente defende. Os principais bordões publicitários do candidato foram ecoados pelo apresentador, que teve participação diária na pútrida reta final da campanha, e terá certamente influído na decisão que muitos eleitores tomarão hoje.

Ratinho e Maluf dizerem as mesmas coisas, claro, foi apenas uma coincidência. Uma convergência de pontos de vista entre dois homens de notória responsabilidade pública. Assim como Maluf usar Ratinho em seu programa foi, obviamente, um mero recurso estilístico, uma opção que seus publicitários usaram e os de Marta Suplicy, não. Afinal, o próprio Ratinho declarou que autorizava o uso de sua imagem ‘por qualquer partido, qualquer pessoa’ e não fez como o Padre Marcelo Rossi, que recorreu à Justiça para conter a exploração desautorizada de suas opiniões. Portanto, não passa de insinuação maldosa a idéia de que houve ali algum acordo, político ou financeiro. O fato de Ratinho e Maluf terem se encontrado por duas vezes, durante a campanha, expressa apenas a profunda amizade que os une, não qualquer tipo de interesse. Todos os cidadãos de bem sabem disso.

O episódio em si acrescenta pouco ao que se sabe da estatura moral dos envolvidos. Especialmente quando o Programa do Ratinho mostrou cenas de um vídeo onde uma criança de 3 anos é brutalmente torturada.

O livreiro Egon Rangel, que distribuiu pela Internet um manifesto-desabafo contra a ‘reportagem’, resume o sentimento das consciências civilizadas diante dela. ‘Cenas deprimentes, provocando mal-estar em qualquer pessoa com um mínimo de dignidade’, escreveu ele. ‘Nunca vi algo tão aviltante, tão grotesco, tão sujo. Nunca vi alguém se valer de tal expediente para conquistar audiência e conseguir votos’. E pergunta: ‘Até quando um programa de TV como o do Ratinho terá impunidade para fazer o que bem quiser atrás de audiência e votos?’.

É aqui que cabe questionar a eficácia da portaria nº 796, baixada pelo Ministério da Justiça para conter os abusos na programação da TV. Como se sabe, os programas ao vivo estão desobrigados de se submeter à avaliação classificatória, que determina em que faixa horária devem ser exibidos.

Podem ser punidos, a posteriori, por infringência ao Estatuto da Criança e do Adolescente, mas estão livres do controle preventivo que a portaria institui. Fazem estragos à vontade, chafurdam na lama sem freios, confiantes de que a morosidade da Justiça deixará a sua eventual punição para as calendas, quando ninguém se lembrar mais do assunto e a pena será pequena, se houver.

E aí temos o paradoxo: um beijo de novela ou um homicídio de cinema podem ser proibidos antes de chegar ao público, mas o abuso de crianças em programas de auditório, não. Tenta-se conter a baixaria ficcional, simbólica, virtual. Mas permite-se que campeie solta a baixaria real, com brasileiros de carne e osso sendo abusados nos dois lados da tela, no palco e na poltrona. Certamente, há algo de muito errado nisso – e não é com a criança de 3 anos que apanhou. (Gabriel Priolli é jornalista, professor universitário e diretor da TV PUC)"

"Juiz diz que não irá punir Ratinho", copyright Folha de S. Paulo, 26/10/00

"O Ministério Público de Osasco não enquadrará o ‘Programa do Ratinho’, do SBT, nem o apresentador em nenhum crime ou infração pela exibição, na última segunda, de imagens de uma criança de 3 anos sendo torturada.

A transmissão das cenas chocantes teve grande repercussão anteontem e foi criticada pelo ministro da Justiça, José Gregori. O juiz da Vara da Infância e Juventude de Osasco, Renato Genzani Filho, responsável pelo caso, disse ontem à Folha que não haverá punição a Ratinho ou ao SBT pela exibição da fita. ‘Ele será punido se voltar a exibir as imagens. Mas não há o que fazer com o que já foi exibido’, afirmou.

A promotora Suzana Lúcia Alvim Miller, da Vara da Infância e da Juventude de Osasco (onde fica a sede do SBT), disse ontem que Ratinho ‘se resguardou de uma série de formas’. ‘Ele esperou até as 22h (para o início da transmissão), fez um aviso advertindo, mostrou a criança com o rosto distorcido e não deu o nome da menina. Vou analisar a fita, mas terei que tirar água de pedra para ver se conseguimos enquadrar em alguma coisa’, afirmou.

Genzani Filho disse também que ‘abusos como esse’ acontecem por um defeito da portaria (796) do Ministério da Justiça (de classificação etária para programas de TV). ‘Há uma brecha na portaria, que não classifica programas ao vivo. Aproveitando-se dessa falha, as emissoras cometem abusos.’

A Folha apurou que o Ministério da Justiça está cogitando a possibilidade de classificar o ‘Programa do Ratinho’. A atração, que vai ao ar às 21h (para maiores de 14 anos), poderá ter de ser exibida mais tarde. O ministério iria basear-se em um artigo da portaria 796 que prevê que ‘programas ao vivo, quando não considerados adequados a crianças e adolescentes, estão sujeitos à prévia classificação etária e horária’.

Polêmica

O promotor Clilton Guimarães dos Santos, da Vara Central de Infância e Juventude de São Paulo, acredita que tanto Ratinho quanto o SBT deveriam ser punidos pela exibição das imagens. ‘Eles podem sofrer uma ação judicial por danos morais. As penas variam da suspensão da autorização de exibição do programa até a responsabilidade penal dos envolvidos.’ Em 98, Santos entrou com uma ação civil pública contra o ‘Programa do Ratinho’."

"No fundo do esgoto", copyright Veja, edição 1.673, 1/11/00

"Não tem mesmo limite a agressividade do apresentador Carlos Massa, o Ratinho. Na segunda-feira da semana passada, ele decidiu exibir em seu programa no SBT, veiculado em horário nobre, as cenas mais violentas já vistas na televisão brasileira. A Rede Globo também teve acesso às imagens, mas optou por não divulgá-las. Em um vídeo de quarenta segundos, uma menina de 3 anos aparece sendo torturada pelo criminoso paranaense Marcelo Borelli. As imagens mostram a criança sendo chutada nas costas e na barriga, chacoalhada pelo cabelo e obrigada a comer as próprias fezes. O espetáculo foi tão degradante que o Ministério da Justiça impediu que o vídeo voltasse a ser exibido no dia seguinte, como Ratinho anunciara. Borelli é apontado como o líder do seqüestro de um Boeing 737-200 da Vasp, ocorrido no Paraná no último mês de agosto. Preso em Brasília desde o dia 15, ele torturou a menina para vingar-se do pai dela, um integrante de seu bando que o teria entregado à polícia. Em entrevista a VEJA, Borelli demonstrou não ter nenhum remorso pela barbaridade que cometeu. Sua frieza é monstruosa. Entre outras coisas, ele declarou:

‘Sabe aquele papo do Maquiavel, de que os fins justificam os meios? Pois é isso. Fui traído pelo pai da menina, e no mundo do crime existe uma ética muito clara: traição nunca fica por isso mesmo. Queria enviar a fita com as cenas da filha dele sendo espancada para atraí-lo. Quando ele me encontrasse, a gente acertaria as contas. Bati na garota porque se tornou necessário, não porque eu gosto ou deixo de gostar de bater. Eu não me arrependo. Quando é para fazer justiça, a gente tem de ir em frente.’

‘Eu tenho um filho, o Nícolas, de 1 ano e 10 meses. Não gostaria que isso acontecesse com ele. Não sei se ele viu a fita, mas, se tiver visto, espero que minha mulher tenha explicado que esse tipo de coisa faz parte da vida do pai dele. Meu exemplo não é dos melhores, mas a realidade é feia mesmo.’

‘Sou contra esse negócio de ficar mostrando pancadaria na televisão. O mundo já é violento demais para isso. O importante é que cada mãe e cada pai explique o fato da maneira que acharem mais adequada. Eu, que não acredito mais na vida sem violência, diria a meu filho para pelo menos tentar não se envolver com o crime.’

Depois de exibir as cenas brutais, Ratinho desfiou seu blablablá cínico, exigindo a punição de Borelli. E advertiu os espectadores contra ‘pessoas que querem abrandar as penas de detenção’. Essa frase tornou-se recorrente em seu programa, desde o final do primeiro turno em São Paulo. É um ataque implícito a Marta Suplicy, a candidata petista à prefeitura paulistana. Ela defende a redução de pena para condenados que estudarem na cadeia. O apresentador desconversa quando o assunto é política. ‘Todos sabem que não simpatizo com a Marta, pois ela já tentou tirar meu programa do ar várias vezes’, diz ele. ‘Mas se tivesse de apoiar seu adversário, Paulo Maluf, faria isso abertamente. Ganho 3 milhões de reais por mês, não preciso de subterfúgios.’ Ratinho, no entanto, cedeu trechos de seu programa para ser usados na campanha eleitoral do pepebista. Uma de suas ‘reportagens’, sobre um seqüestro seguido de morte, serviu de pretexto para Maluf discorrer sobre segurança. Na semana passada, o jornal O Estado de S..Paulo descobriu que tudo não passava de armação: o suposto seqüestrado, na verdade, cometera suicídio."

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