Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Fernando Martins

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Nem todos os erros têm desculpa fácil", copyright Jornal de Notícias, 23/3/03

"Chamar a Blair, Aznar e Durão chefes de Estado é um erro de difícil explicação!

Carlos Rocha não gosta das modernices do ?dossiê?, dos ?gangues? e de outras palavras que, recentemente, foram ?nacionalizadas? pela Academia, e que hoje integram o Dicionário da Língua Portuguesa. E, na continuidade do seu sentir, o leitor lamenta que o JN tenha enveredado pelo novo figurino ortográfico numa adesão tão rápida e assumida, que não encontra em outros jornais e revistas. Ainda se o Português não fosse, como é, fértil em significados? Para quê ?gangue?, se nós temos as portuguesíssimas ?bando, quadrilha ou associação de malfeitores?? E a verdadeira aberração do ?dossiê? deveria evitar-se com o recurso a ?arquivo, ficheiro? e tantos outros exemplos de sinonímia.

Carlos Rocha mostra ao Provedor a sua relutância na aceitação desses novos vocábulos. Mas não entende, e como tal não pode tolerar, erros como o da legenda que ilustra a manchete da última segunda-feira.

O tema era a cimeira dos Açores, e a palavra ?Ultimato?, fortíssima, a dominar toda a Primeira Página, era iniludível sinal da importância que o JN atribuía ao assunto: estava traçado o horizonte, num prelúdio de guerra que parecia infindável. Três pós-títulos emprestavam a clareza que a ?explosão? das oito letras não consentira. Depois, a foto, obtida na conferência de imprensa que se seguiu à magna reunião. Sob ela, a legenda em que Tony Blair, José Maria Aznar, Geoge W. Bush e Durão Barroso são apontados como ?quatro chefes de Estado?.

O leitor indigna-se, mas graceja: ?Então não é que a rainha de Inglaterra, o rei de Espanha e o nosso presidente da República foram exonerados, banidos ou seja lá o que lhes aconteceu?! Durão Barroso, Tony Blair, Aznar, chefes de Estado, mas desde quando? Ou será que o seu apelo ao desrespeito pelas leis internacionais vigentes faz pressupor o desrespeito pelas leis constitucionais internas, que o jornalista já subentende??

Ainda que aceitando as duas verdades de que ?não é a língua que faz o povo mas o povo quem faz a língua? e de que as línguas são domínios abertos às permanentes mudanças, reveladoras, elas próprias, da evolução das sociedades que comunicam através delas, também ao Provedor custa a aceitar neologismos e estrangeirismos desnecessários. Mas lá que eles existem, existem, vivos quanto baste para, em alguns casos, sepultar as portuguesíssimas palavras que vieram substituir. São uma realidade inelutável, que as novas tecnologias agravam, e que fez com que ilustres académicos, sob a coordenação de Malaca Casteleiro, decerto também eles com alguma relutância mas com muito realismo, acabassem por aceder a enxertar no Português seis mil novos brasileirismos, mil africanismos (de entre os quais o famoso ?bué?) e centena e meia de termos asiáticos.

Caso diferente é o da legenda! Naturalmente que não passou pela cabeça do leitor que se tratasse de uma manifestação de ignorância. O leitor só não entende! E o Provedor entende menos ainda, conhecedor da vigilância apertada que incide sobre a página que é, todos os dias, o rosto do jornal. É vista e revista vezes sem conta, pelo vértice da pirâmide da hierarquia!

Arriscar hipóteses, como por exemplo a de que a força do título concentrou todas as atenções, até as dos que tinham por missão vigiar todas as possibilidades de erro? São meras conjecturas!

Diz o povo, na sua sabedoria, que ?o que não tem remédio, remediado está?, e, por extensão, avança para o inexplicável com uma sentença paralela.

Ou, ainda com recurso aos aforismos, o reconfortante ?no melhor pano cai a nódoa?.

É, talvez, uma fuga para a frente demasiado simplista.

Mas inultrapassável porque espelha a realidade.

Uma certeza ficará: a de que o reparo, cada reparo, promove naturalmente uma atenção redobrada não só de quem incorreu num erro que também não consegue explicar, mas também de todos os que, tendo por missão rever meticulosamente as páginas mais delicadas de cada edição, deixaram passar um erro tão grosseiro."