Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Fernando Rodrigues

GOVERNO LULA

“O vício da propaganda estatal”, copyright Folha de S. Paulo, 12/11/03

“Há algo errado em um país capitalista no qual 7,13% do mercado de propaganda é dominado por governos e empresas estatais. Assim é o Brasil. Um levantamento em 14 países mostra que a propaganda estatal brasileira supera percentualmente a de Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e at&eeacute; a de vizinhos como Peru e Uruguai. Há explicações para essa anomalia -brasileira como a jabuticaba, diria Lula. O Brasil é grande geograficamente, tem população enorme e há dezenas de empresas estatais. O dever de informar (sic) obriga esses órgãos oficiais a serem grandes anunciantes. É um argumento ruim. Há anos a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a Petrobras, para citar só três estatais, fazem apologia na TV das ações produzidas pelo Palácio do Planalto. Até outro dia, a CEF falava na TV sobre o Bolsa-Família. Outro fato nebuloso por trás do alto percentual de propaganda estatal no Brasil é a relação promíscua existente entre algumas agências de publicidade e certos políticos. O marqueteiro faz a campanha eleitoral e depois vence (sic) licitações no governo de seu cliente-político. Não foram Duda Mendonça (com Maluf e Lula) nem Nizan Guanaes (com FHC) que inventaram essa praxe. A mídia é muitas vezes cúmplice. Parte significativa dos meios de comunicação também se viciou nessa boca-livre sem fim que são as propagandas estatais -58% do R$ 1,018 bilhão gasto em publicidade pelo governo federal (administração direta e indireta) em 2002 foi parar nas contas de emissoras de TV. É difícil precisar se jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil são frágeis porque aceitam receber esse dízimo infinito ou se aceitam recebê-lo porque são frágeis. Uma coisa é certa: no Planalto, PT e PSDB são idênticos na prática de se aproveitarem dessa situação.

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Lula aceitou o convite de Maurício Corrêa (STF) para discutir a reforma do Judiciário. Eis aí um acerto do presidente da República.”

 

“O melhor outubro”, copyright Folha de S. Paulo, 13/11/03

“A televisão voltou às manchetes retumbantes. De Boris Casoy:

– O melhor outubro desde o Plano Real.

É o emprego na indústria paulista que dá sinais retumbantes de recuperação.

Como da vez anterior, a insatisfeita Fiesp divulgou os números com reservas esforçadas, do gênero ?tudo vai depender agora do consumo?.

Mas nem a diretora responsável pelo anúncio se conteve e acabou descrevendo a alta no nível de emprego, de acordo com a CBN, como ?extraordinariamente forte?.

O procurador se entusiasmou, na Globo:

– É um momento de alegria e satisfação ver que o Judiciário teve a coragem de cortar na própria carne.

Mas ficou nele o entusiasmo.

A decisão de ?aposentar compulsoriamente? o desembargador Eustáquio da Silveira, investigado pelo suposto ?envolvimento num esquema de venda de sentenças?, veio com um complemento:

– Apesar da aposentadoria, ele continuará recebendo salário integral.

Comentário ouvido na própria Globo:

– Como punição, até que não é tão má. Aposentadoria compulsória, com vencimentos que chegam à integralidade, mas o resultado não foi tão ruim assim. Está na lei.

De todo modo, ainda não foi desta vez que ?o exemplo foi dado? -outra expressão que se ouviu na Globo.

Após alguns dias de aparente harmonia entre governadores tucanos e ministro petista, a segurança assistiu a uma troca de acusações.

Geraldo Alckmin e Aécio Neves cobraram recursos federais que estariam atrasados. Márcio Thomaz Bastos afirmou que não estão e reagiu, segundo o Jornal Nacional:

– O ministério não é uma tesouraria.

Em meio ao bate-boca, o noticiário registrou ?novos ataques à polícia?.

A entrevista coletiva de um dos chefes das forças americanas no Iraque, anteontem, adiantou o que viria pela frente. Ao dizer que os combates levariam muito tempo, ele falou em ?guerra?, não em choques ou terrorismo.

E guerra foi o que se viu ontem, com o ataque às forças italianas e o contra-ataque punitivo dos Estados Unidos a um prédio em Bagdá.

E a bandeira americana já voltou a tremular com destaque na Fox News.”

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“Estragaram a festa”, copyright Folha de S. Paulo, 12/11/03

“Quando a histeria policialesca se instala na televisão e no rádio, basta um delegado abrir a boca para encher manchete.

Com direito a cenas gravadas e distribuídas pela própria polícia, da invasão da festa, dos jovens acuados, foi bem o caso da operação de ontem.

Era uma ?festa do PCC?, segundo a Band, uma ?festa de criminosos?, segundo a rádio Jovem Pan. Era ?a balada do ladrão?, segundo a rádio Bandeirantes.

Entre os detidos, ?75% era bandido?, no dizer de um diretor da polícia destacado pela Globo News.

A Rede Globo não ficou atrás. Seguiu no assunto até o Jornal Nacional, dizendo coisas como ?o serviço de inteligência descobriu que integrantes de uma organização criminosa comemoravam os ataques a delegacias?. E, claro:

– De acordo com um dos delegados, quase todos os detidos tinham passagens pela polícia… Segundo os investigadores, o grupo comemorava os ataques à polícia e o aniversário de um criminoso…

E tudo ?em uma casa de alto padrão?, uma ?mansão? com ?piscina, churrasco e aparelhagem de som?.

Mais ainda, ?na festa estavam cerca de 30 mulheres, duas delas menores?. Pior, na festa ?havia entorpecentes leves?.

Com tudo isso, no fim da tarde só dois dos ?quase 150? festeiros seguiam detidos.

O problema não é ter tantos investigadores, delegados e seus diretores falando à solta, mas a reprodução destrambelhada de suas palavras.

Da Globo News, indicando o que estava em jogo:

– A sub-relatoria de infra-estrutura detém o maior volume de recursos.

Falava da divisão do bolo entre os partidos no Congresso, na discussão do Orçamento do ano que vem. Com a infra-estrutura ficou o PMDB.

Foi ?um acordo para facilitar a aprovação?. Que vinha sendo dificultada.

O acordo saiu, mas não sem antes um peemedebista dizer que não fazia questão da infra-estrutura, já que o orçamento total da sub-relatoria de cidades é menor, mas ?é maior na parcela de recursos livres que podem ser alterados?.

Queriam ainda mais. E olha que Alexandre Garcia havia afirmado anteontem, durante o Bom Dia Brasil, que o PMDB ou parte dele ?quer mostrar que o partido agora é puramente doutrinário?.

Ok, os peemedebistas agora não querem nem recursos nem cargos, são ?puros?.”

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“Os que perdem causas”, copyright Folha de S. Paulo, 11/11/03

“Em meio à Operação Anaconda e às ações do PCC, a cobertura histericamente policialesca da televisão recebeu a pesquisa que jogou de vez o Judiciário no chão.

Da manchete de Boris Casoy:

– OAB divulga pesquisa mostrando o Judiciário com baixa credibilidade entre os brasileiros.

O destaque foi para o fato de ser uma das instituições de menor confiança, por razões como ?juízes envolvidos em escândalos, lavagem de dinheiro?. Ou então porque ?privilegia os ricos, e quem não tem dinheiro vai para a cadeia?.

Uma pergunta que passou despercebida na TV, até pelos programas de fim de tarde, foi a mais curta e grossa. Do site ?Consultor Jurídico?:

– O ditado popular de que ?a Justiça não existe para preto, pobre e prostituta? foi referendado por 52%.

Tem mais. Noventa e três por cento acham que advogados devem ser revistados nos presídios. Para 79%, juízes não devem ter tratamento diferenciado ao se aposentar. Por aí vai.

E olha que, como sublinhou o presidente da OAB, a pesquisa não mede o impacto de fatos mais recentes:

– Se feita hoje, a situação seria ainda mais grave.

Ao que parece, os números carregados não bastaram para abalar as vozes no Judiciário. Uma reação, no registro do Jornal da Record:

– O presidente do Superior Tribunal de Justiça atribui a posição da Justiça na pesquisa aos que perdem causas.

Vale notar que a OAB defende ardorosamente a reforma e o controle do Judiciário.

A imagem, recortada, esverdeada, trêmula, marcou a invasão do Iraque: a operação de resgate de Jessica Lynch. Mas ela própria, em entrevista à ABC, como divulgou a emissora, não gostou nada:

– Eles me usaram. É errado.

O telefilme sobre seu resgate, apresentado anteontem por outra grande rede americana, a NBC, vai no mesmo sentido de desmascarar o espetáculo, segundo relatos.

Mas já começa a reação. Agora o que dizem Fox News e cia. neoconservadora é que o telefilme foi fracasso de audiência. Jessica Lynch não é mais a heroína de antes.

De todo modo, as imagens que vêm do conflito no Iraque já são muito diversas.

Não só na Al Jazeera, mas na Fox News a atenção de ontem foi para as crianças e mulheres aterrorizadas em suas casas por soldados americanos.”