Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Fita-bomba e leviandade máxima

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GRAMPOS & ROLOS

Imagine o leitor que este Observatório publique um texto nos seguintes termos:

No submundo da política e da mídia circula a transcrição de uma fita-bomba contendo uma conversa telefônica onde o publisher de um importante jornal (ou revista) dá instruções a um operador do mercado financeiro na véspera da publicação pelo seu veículo de uma grave denúncia envolvendo importantes figuras da República.

A transcrição desta fita é impublicável. Divulgá-la seria péssimo jornalismo. Mas não podemos deixar de registrar que a boataria é intensa. E confirma as revelações recentes relacionando a divulgação de denúncias por parte da imprensa com os fabulosos lucros obtidos por pessoas que, sabendo de antemão o que vai ser publicado, tiram partido das suas repercussões.

Pode ser uma fraude. Pode não existir a tal fita. Mas essa é a história que está sendo regurgitada das trevas da política e da mídia.

Mutatis mutandis, com alterações factuais e sentido similar, a aberração acima foi publicada no sábado e repetida na segunda-feira (24 e 26 de março) na nobilissima Página Dois da Folha de S.Paulo, assinada por um dos seus articulistas sediados em Brasília [veja Aspas, abaixo].

Os tablóides sensacionalistas ingleses estão despachando uma equipe de especialistas para fazer um curso de treinamento na imprensa brasileira.

ASPAS

"O dossiê encontra o grampo", copyright Folha de S. Paulo, 24/03/01

BRASÍLIA – Circula em Brasília o que pode ser uma bomba ou apenas uma farsa grotesca. Trata-se da transcrição de um suposto grampo telefônico de conversa entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Mendonça de Barros, que ocupou o cargo de ministro das Comunicações em 98.

O tema dessa suposta conversa é explosivo: dossiê Caribe.

O papel com as frases que seriam de FHC e Mendonça é só um ?teaser?. A fita custa até R$ 20 milhões. O valor varia conforme o interlocutor.

?O presidente não comenta falsificações?, disse o porta-voz Georges Lamazière depois de informar FHC sobre o conteúdo do material.

Quem mercadeja a gravação são os suspeitos de sempre -gente que foi ligada à antiga comunidade de informações à época do regime militar (64-85). O material foi oferecido a pelo menos um político, que diz ter recusado o negócio.

Para talvez dar credibilidade ao produto, o diálogo está no meio de transcrições de conversas reais captadas pelo grampo do BNDES. A Folha obteve cópia integral do que seria esse novo trecho.

Como se recorda, o grampo do BNDES foi realizado em 98. Possivelmente na época do leilão da Telebrás, ocorrido em julho de 98.

Os casos do dossiê Caribe e do grampo do BNDES estouraram juntos, em novembro de 98. O governo soube da existência do dossiê pelo menos um mês e meio antes da sua publicação. A pessoa que tenta agora vender essa nova peça das gravações dá a entender que a suposta conversa entre FHC e Mendonça de Barros teria ocorrido em algum momento entre julho e outubro de 98.

Da forma como foi obtido pela Folha, esse material é impublicável. Seria necessário ouvir a fita (se é que existe fita) e submetê-la ao trabalho de um perito.

Caso contrário, será apenas um boato a mais contra o governo FHC."

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