Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Flávio Aguiar

CARTAS ÁCIDAS

“O deve e o haver na guerra”, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 14/03/03

“O governo de Bush está com sua coluna do Deve absolutamente repleta, do ponto de vista político. Enfrentam uma grave crise interna, e precisam abrir novas possibilidades para abrir sua coluna do Haver.

Tenho até hoje um livrão que pertencia ao meu avô. Era o livro de contabilidade do Varejo Bromberg, de Porto Alegre. Quem conheceu, se lembra da loja. Pois eu usava o tal de livro como base para meus desenhos. À parte isso, eu olhava e ainda olho as colunas marcadas pelas anotações de meu avô, feitas com bico de pena, identificadas pelas palavras ?Deve? e ?Haver?. Meu avô fora contador, durante certo tempo, do Varejo. E meu pai, que também era contador, traduzia as coisas para mim. Uma ?coisa? eu não entendia: por que um dinheiro que saía era anotado na coluna do ?Haver?, e por que um dinheiro que entrava era anotado na coluna do ?Deve?. Assim: fulano de tal depositou um dinheiro para o Varejo. E isso entrava na coluna do ?Deve?. Depois beltrano de não sei quem recebeu uma soma do Varejo, e isso entrava na coluna do ?Haver?. Para mim tinha de ser ao contrário, o que se recebe é ?Haver? e o que se paga é ?Deve?. Pobre de mim. Meu avô e meu pai, que eram do ramo, embora por baixo, já estavam acostumados à verdadeira lógica da coisa: no mundo do capital financeiro, o que você despende gera uma obrigação de outrem, e portanto é ?Haver?; e o que você recebe gera uma obrigação (ou anula um direito que você tinha) e portanto é ?Deve?. Eu acho que essa lógica do ?Deve? e do ?Haver? pode nos ajudar a entender a circunstância da guerra cada vez mais prometida dos Estados Unidos contra o Iraque.

Guerra e contabilidade

O governo de Bush e os Estados Unidos estão com sua coluna do Deve absolutamente repleta, do ponto de vista político. Enfrentam uma grave crise interna, e precisam desesperadamente abrir novas possibilidades para abrir sua coluna do Haver. Uma das chave de leitura da questão, para meus olhos leigos, está no progressivo enfraquecimento do dólar frente ao Euro. Bush precisa não só dos poços de petróleo do Iraque; ele precisa estender a mancha verde do dólar pelo mundo. Nestes termos valem menos os gastos bilionários que a guerra imporá, tanto em despesas diretas como as conseqüentes, eufemisticamente chamadas de ?reconstrução? do Iraque. Estes gastos serão investimentos que gerarão prebendas, como as das companhias que já estão loteando poços e empreendimentos na construção civil. Mas além disso gerarão obrigações, das quais a maior será manter uma das principais reservas do ?ouro negro? no mundo na área de administração direta da ?mancha verde? do dólar e de seu apêndice britânico, a libra, que tem ares de nobre dignidade mas anda meio esfarrapada. É como se a guerra transformasse o líquido em barras negras de metal para serem depositadas em Fort Knox, no tempo em que o lastro em ouro era o tchans na economia. Quer dizer: a ocupação do Iraque vai cacifar Bush para disputar com a perspectiva da unificação da Europa. Posso estar cometendo erros em detalhes e em nomenclatura, mas acho que no mapa geral que estou ajudando a desenhar, com informações obtidas em muitas leituras, estou certo.

A contabilidade da imprensa

Diante deste quadro, certas manifestações que tenho visto pela imprensa ficam risíveis, se a situação na fosse trágica. O pensamento conservador anda se desdobrando, já não digo para justificar a guerra, porque ela não é justificável sob nenhum ponto de vista, mas para interpretar seus desdobramentos e antecedentes. Li uma das mais risíveis da parte de um historiador inglês que compara Saddam a Napoleão. Sem falar no caráter grotesco da comparação, que é um insulto para Napoleão, o comparador esquece que Napoleão nunca foi fabricado por agência britânica ou outra do mesmo modo que o poder de Saddam foi forjado pelo próprio governo norte-americano quando isto lhe interessava. Outra pérola que encontrei vasculhando aqui e ali foi a idéia de que de nada vale opor-se a guerra, porque esta já está decidida. É melhor procurar influenciar os Estados Unidos a criar de fato uma democracia no Iraque depois da hecatombe. Esta então é de uma grosseria em termos políticos que faz de quem a defenda uma espécie de palhaço global.

Mas o show de incompetência ficou mesmo pela transmissão ao vivo da entrevista coletiva de Bush na semana passada. Bush é um mau ator. Ele diz uma frase e depois faz um silêncio enquanto seus olhos ficam se mexendo rapidamente para apreciar o efeito imediato na platéia próxima. A impressão que dá é que ele precisa colher uma reação positiva para então ?encaminha-la? ao telespectador. Em suma, é um personagem que não se deve levar a sério. Não digo que os jornalistas devessem se recusar a uma entrevista com o presidente dos Estados Unidos, pois isto seria um absurdo. Mas estou sublinhando o fato de que para um personagem destes as perguntas devem indicar algum tipo de dúvida, e de dúvida que o ponha em dúvida. O que se viu? Exatamente o contrário: perguntas que levavam tão somente a reiterações das afirmativas de Bush, particularmente daquela que ele insiste em dizer, de que não hesitará diante de nada para ?proteger? a Am&eacuteacute;rica (dos americanos). Será que não havia nenhuma espinha dorsal ali capaz de perguntar se ele estava defendendo a América ou o dólar, mesmo de um modo sutil? Se havia, não falou, ou talvez quem sabe eu não tenha sido capaz de decodificar a pergunta.

Finale

Há quem sinta saudade de Roosevelt e Churchill. É verdade. De certa forma eu também sinto. Mas sinto saudade, por exemplo, de Wilfred Burchett, o corajoso jornalista australiano que denunciou as atrocidades dos norte-americanos no Vietnã. (Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.)”

 

DIÁRIO DO COMÉRCIO

“Situação do Diário do Comércio continua sem solução”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 12/03/03

“A situação dos jornalistas do Diário do Comércio, um dos mais antigos de Belo Horizonte (completou 75 anos em 2003) continua desesperadora e sem perspectivas plausíveis de solução, pelo menos a curto prazo. Não existe, há anos, regularidade no pagamento dos salários e os funcionários recebem, no máximo, 60% de sua remuneração contratada, o que vem aumentando a cada dia o passivo trabalhista da empresa.

Diversos jornalistas com vencimentos a receber já se afastaram e muitos tiveram suas razões reconhecidas pela Justiça do Trabalho, mas a empresa não quita os débitos, desrespeitando decisões judiciais. O Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais (SJPMG), nos próximos dias, deverá marcar um encontro com o Ministério Público do Trabalho, para avaliar a situação e o processo que tramita no órgão contra a empresa, por diversas irregularidades e descumprimento da legislação em vigor.

O chefe de Redação, Fernando Lana, confirmou que a situação ?é drástica e desesperadora e se perpetua há vários anos? e não vê alternativas imediatas para solucionar o impasse financeiro da empresa. ?Apenas o décifit tributário do jornal está na casa dos R$ 20 milhões, o que é um dado assustador, mesmo sem contar o passivo trabalhista?, revela. Lana informou ainda que a direção do DC está articulando uma estratégia para se beneficiar do programa Refis, do governo federal, destinado a renegociar este tipo de débito fiscal, através de parcelamentos. ?O DC pretende obter esta benesse. Mas o problema futuro será obter receitas para saldar este novo tipo de compromisso, pois não será fácil sequer pagar as prestações estabelecidas pelo programa?, acrescentou.

?É uma batalha pesada, mas dela não podemos fugir, mesmo porque, no mercado mineiro, não existem oportunidades para os profissionais que estão aqui há décadas, suportando este impasse?, revela Fernando Lana. ?Não há oferta de trabalho em Minas e a crise é generalizada. O jeito é ir levando, na expectativa de algum milagre de criatividade administrativa. Impossível agora é abandonar o barco?, concluiu.”