Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Gal Costa desafinou

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TROMBONE DE VARA
Gal Costa desafinou

João Carlos Teixeira Gomes (*)

Gal Costa, que já emitiu os mais afinados agudos da música popular brasileira (depois da divina Dalva de Oliveira), desafinou gravemente ao qualificar Antonio Carlos Magalhães de "pai da Bahia". Pegou mal e só faltou ser chamada de "mãe dos bajuladores" por vários dos seus colegas, em entrevistas publicadas pelo Jornal do Brasil. Gal pagou caro por andar em má companhia. Ela entrou de gaiata nessa história de solidariedade de alguns artistas e intelectuais baianos a Antonio Carlos, sempre cooptados por articulações palacianas de bastidores. Até o time do Bahia foi levado de roldão na impostura, pois estava em palácio apenas para ser homenageado pela conquista do campeonato do Nordeste. Velho torcedor do Vitória, Antonio Carlos não vacilou em pongar na popularidade do Bahia para tentar suavizar sua imagem, tão desgastada pela fraude no painel do Senado.

Solidariedades "espontâneas" como a da Gal talvez levem os leitores de outros estados a compreenderem melhor o que se passa na Bahia. Setores da mídia de Rio e São Paulo, pagando favores conhecidos, ajudaram a difundir a idéia de que Antonio Carlos Magalhães é um deus no Estado, dono de prestígio inigualável no resto do país. Parece que tudo na Bahia começou com ele. O servilismo dessas versões é potencializado pelo forte esquema promocional do carlismo, ainda agora presente na custosa propaganda que busca salvá-lo da cassação. O arsenal das mentiras sempre esteve amparado na técnica da propaganda hitleriana de repetição obsessiva do embuste para transformá-lo em verdade, tal como está exposto no livro Mein Kampf (Minha Luta), a bíblia do nazismo e seu manual de propaganda política.

Padrasto autoritário

Declarações infelizes como a de Gal podem contribuir, porém, para o conhecimento real dos fatos, quando devidamente analisadas. Em grande parte dos casos, as adesões ao senador fragilizado pela fraude, ao lado das decorrentes do seu império coronelesco de quase 40 anos de poder, resultam sobretudo de coações (ostensivas e insinuadas) sobre pessoas e instituições que não têm como escapar do cerco asfixiante do mandonismo, tão bem caracterizado por Alberto Dines no artigo "Pau-mandado, mandachuva ? o mandonismo em questão", publicado em 5/5, no Jornal do Brasil. Sofrem as pessoas coações que vão desde a chantagem emocional em torno da indefectível e endeusada "baianidade", até ameaças de isolamento ou supressão de apoio, no caso daqueles que, como certos artistas, precisam do Estado para suas apresentações ou mesmo para o carnaval oficializado da Bahia. As instituições são assustadas com a possibilidade de perda das verbas governamentais, o que explica, por exemplo, que o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia não tenha sequer protestado contra a mudança do nome do aeroporto Dois de Julho, a data sagrada dos baianos. Finalmente, empresas ou organismos privados que não cooperem podem ficar na mira das famigeradas devassas contábeis, que a todos amedrontam há longos anos, no reinado do carlismo. Eis, enfim, como são obtidas certas adesões "espontâneas", ao lado, como é óbvio, daquelas que podem sê-lo de fato.

É verdade que a Bahia tem um pai? Por aqui, nunca se cogitou dessa hipótese, desde Tomé de Souza, que fundou Salvador. Os baianos vivem mais preocupados com a falta de postos médicos, escolas, segurança pública, com o acúmulo, enfim, das questões sociais agravadas ao longo do carlismo renitente e opressor, que só fez aumentar a exclusão, o desemprego, a miséria social, o êxodo para os grandes centros, contrariando a propaganda que exalta "o orgulho de ser baiano". Dependendo, contudo, do ângulo do observador, fica até possível apontar baianos ilustres mais credenciados ao título inventado pela Gal. Por exemplo: na área política, Seabra, Juraci ou Mangabeira, líderes autênticos, bem mais ajustados às tradições de civilidade da política local, embora os dois primeiros também marcados pelo ranço autoritário que Antonio Carlos, com a sua conhecida arrogância, levou ao paroxismo. Muitos escolheram a figura tutelar de Rui Barbosa, enobrecido pelo culto da Lei e da causa pública. Nunca, porém, se cogitou de atribuir a Rui o título em má hora concebido por Gal Costa para lisonjear quem menos merece.

Não, a Bahia não tem pai, como jamais teve "prefeito do século" ou "inimitável governador", criações fantasiosas do aulicismo carlista para endeusar o seu líder. A administração pública é uma maratona no tempo, resultante da soma de esforços e capacidades. Ninguém constrói nada sozinho. Desde a redemocratização de 1945 para cá, sem estardalhaço ou autopromoção sistemática, governantes como Mangabeira, Regis Pacheco, Balbino, Juraci, Lomanto Jr., Luís Viana Filho, Roberto Santos e João Durval Carneiro, uns mais outros menos, legaram ao Estado obras da importância do estádio da Fonte Nova, Hotel da Bahia, Fórum Rui Barbosa, avenida Otávio Mangabeira, Escola Parque, colégios Severino Vieira e Duque de Caxias, Teatro Castro Alves, Maternidade Tsyla Balbino, Museu de Arte Moderna, Museu do Recôncavo, avenida de Contorno, avenida Centenário, Centro Industrial de Aratu e do Subaé, ampliação das obras do estádio Otávio Mangabeira, Museu de Ciência e Tecnologia, Pólo Petroquímico de Camaçari, Centro de Convenções da Bahia, Parque Ecológico do Pituassu, Hospital Roberto Santos, Hospital Central do Estado, Barragem e Adutora de Pedra do Cavalo, urbanização da orla de Salvador e muitas outras do mesmo relevo.

Todas essenciais ao progresso da Bahia, meritórias e indispensáveis, aqui citadas para lembrar aos brasileiros que a Bahia, ao contrário do que se afirma lá fora, não foi criada a partir dos quatro mandatos de Antonio Carlos Magalhães, três dos quais presenteados pela ditadura militar. Como governante, ele também deu sua contribuição, mas isso não o faz "pai da Bahia". No máximo, transformou-se num padrasto violento e autoritário, que oprime e infelicita o Estado por mais de quatro décadas.

Eis por que Gal Costa desafinou.

(*) Jornalista e o autor de Memórias das Trevas ? uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, Geração Editorial.

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