Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Gerald Thomas

BIG BROTHER BRASIL

"Big Brother", copyright Jornal do Brasil, 29/01/02

"Estréia hoje, na Globo, o Big brother Brasil. Fiquei surpreso com a escolha da Marisa Orth como apresentadora. Para a Globo, a escolha é o passo certo: o carisma, a precisão e a inteligência dessa mulher são fenômenos inexplicáveis. Ela é a cara do Brasil moderno e viável. É esse o Brasil que a Globo deveria se empenhar em construir.

Amo Marisa Orth a distância. E dentro da atriz, enxergo uma autora, torta e neurótica como os melhores autores. Mas, ao contrário dos grandes autores, ela é belíssima. E, assim como ela ainda não encontrou a autora, ela também tem dúvidas quanto a sua beleza. É nessa linha tênue, que divide sua beleza estranha de um intelecto que reluta em soltar o berro primal da autora, que reside o seu descomunal talento. Ele sempre nasce da confusão ou da inadequação ao sistema. Mas entender e transformar essa aparente contradição num conceito, já cortou a orelha de Van Gogh ou fez com que Rimbaud não quisesse mais continuar vivendo.

Se vocês a enxergam somente como uma comediante, estão enganadíssimos! Ela combina sua agressividade com a emoção de uma ufanista celebrando a humanidade e reúne, com uma grafia paradoxal – como um desenho de Escher -, todos os pontos inexplicáveis de dois fenômenos sem resposta possível: a própria vida e o Brasil.

Como definir carisma? Impossível.

Sempre me perguntam qual é o ingrediente secreto que diferencia um ótimo ator de um ator genial. Eu também não sei. Mas nesses anos todos vivi no teatro, como um curioso observador de pessoas estranhíssimas (eu inclusive), que sofrem da deformação da auto-imagem. E concluo que nessa deformação resida a ambição, o talento e a incrível capacidade de ??universalizar??, através de um único personagem, todas as questões humanas. O que alcançar esse estágio, conquistou a genialidade.

O que separa a Marisa dessa genialidade é simplesmente uma questão de tempo. Tempo pra ir buscar esse autor e tempo pra entender melhor a incrível dinâmica entre seus vários egos. O controle dessa esquizofrenia é, talvez, o segredo do grande ator.

Mas tudo isso está dito – obviamente com muito mais brilho – no Anti-Édipo do Deleuze e Guatari.

E, já que estou falando bem da Globo, não poderia deixar de citar os estrondosos desempenhos da Nanda e do Luís Fernando. É uma pena que não exista uma palavra precisa para acting em português. O comediante tradicional não é um actor, por escolha, já que ele oportuniza cada situação (daí o termo ??sitcom??) da maneira exigida pela circunstância. O ator oportuniza o personagem e enxerga tudo através desse prisma. Pois a Nanda e o Luís estão revolucionando esses conceitos. E isso, em pleno horário nobre. Vocês estão divinos.

Nem tudo que eu escrevo sobre a Globo é em tom de fúria. O que eu critico (e a perda no Ibope confirma isso) é essa ??popularização?? burocrática, isenta de qualquer instinto artístico, desse período que começou com a saída do Boni. A Globo nunca esteve tão frágil como agora. E essa fragilidade nasce e reside numa total e absoluta falta de ideologia e compromisso com a própria arte televisiva. E o artista maior dessa arte televisiva chama-se Boni. Mas a sensibilidade extraordinária do Boni se nutre da vida e de seus mistérios inexplicáveis e não dos livros de contabilidade.

A televisão do mundo inteiro entendeu que uma emissora é um corpo temperamental, com suas euforias e depressões, e faz parte do coletivo. Uma empresa não faz parte do coletivo e essa neurose de entregar a chefia para um contador ou administrador pode ser a solução correta para todo tipo de indústria, mas não a televisão. Ela é um corpo artístico, destacado de seu dono, mas tem que ter a cara dele. Não é à toa que Silvio Santos está ganhando espaço. A sua emissora tem a cara dele.

Vejo que o Faustão não está encontrando a parceria que merece. Não se pode comandar um comandante. Estão tentando tirar a cara do Faustão do programa que é a cara dele. Mas o público não é tão facilmente ludibriável e os recentes fracassos da emissora residem no simples fato do povo perceber que a Globo não é mais dele, e que virou uma ditadura da economia e da total insensibilidade artística. Devolvam o Faustão. Ele é bom demais pra ter seu talento seqüestrado.

Quando eu comemorava o fracasso de As filhas da mãe, algumas colunas atrás, era isso que eu celebrava. Gente! Por favor! Não desejo NUNCA nenhum fracasso a nenhum artista. No caso dessa novela, se eu ofendi o elenco, mil desculpas. Não tenho porque atacar o Jorginho Fernando (que eu adoro) ou a Fernanda Montenegro (que, além de sogra, me deu um dos maiores prazeres na vida). Porque eu atacaria a Bete Coelho, minha ex-mulher e parceira vital durante tantos anos? Eu comemorei um fracasso obviamente oriundo de erros que surgem quando burocratas se metem a ser artistas.

É raro ver esse país homenageando aqueles que merecem. No Brasil, só homenageiam os mortos. Talvez se Klaus Vetter tivesse recebido uma única homenagem publica, talvez não tivesse se enforcado. Portanto vamos aprender a homenagear e achar um tom certo para esse ato simbólico. E no topo da minha lista de homenagens está Helena Severo. Essa mulher tem a dinâmica do realizador e, artisticamente, ela é visionária como poucos que vi, nesses países todos. Quem é do mundo teatral deve a vida a ela. Foi ela (contra tudo e todos, numa batalha solitária) quem trouxe o Rio ??de volta??, depois de 20 anos de marasmo e inventou um domicílio lindíssimo para a obra de Hélio Oiticica.

Se eu tenho reclamado da caretice cultural que adoenta o Rio, não é dela que estou falando. Aliás, foi justamente no período em que ela passou em São Paulo, preparando aquele magnífico evento/exposição Brasil+500, que o Rio entrou no luto cultural.

Teremos aí pela frente cada vez mais reality shows. Esse que estréia hoje, leva o nome do próprio veículo televisivo. No passado o termo Orwelliano era temido, hoje se brinca com as palavras, invertendo o sentido de tudo.

O Brasil tem muito o que lucrar enquanto o mundo está tentando recobrar os sentidos. O mundo está se destruindo, a corrida pelo armamento nuclear está fora de controle. É esse o momento de entendermos o poder da nossa cultura e o valor escondido dentro desse caótico Brasil. Esse é o grande desafio.

Tenho a certeza de que isso só vai acontecer quando o Brasil se entender como um ator, ou artista ou qualquer criador. Esse país precisa enxergar suas virtudes e aí, quem sabe, todos os seus defeitos não terão passado de um mero ensaio ou, na pior das hipóteses, um deslize temperamental de uma grande diva."

"Um início triunfal", copyright Época, 4/02/02

"Três meses depois do duro golpe na audiência que sofreu com o lançamento, pelo SBT, do programa Casa dos Artistas, a Rede Globo deu a volta por cima com sobras e em grande estilo. Na terça-feira, a emissora estreou o Big Brother Brasil, que reúne 12 desconhecidos numa casa especialmente criada no Projac, a cidade cenográfica de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Era grande a expectativa pela estréia, pois um fracasso poderia acentuar a aparente vitória da TV de Silvio Santos no formato reality show. Mas o BBB, como está sendo chamado, superou as previsões. No primeiro dia, o programa atingiu 57 pontos no ibope, com média de 49 pontos, superior aos 46 do último dia de exibição da Casa dos Artistas, em 16 de dezembro. No dia seguinte, a média subiu para 53 – prova de que a atração cativou a audiência.

A Globo não mediu esforços para que o BBB fosse uma tacada certeira, sem margem de erros. O investimento beira os R$ 20 milhões, entre produção e compra dos direitos da Endemol – empresa holandesa que criou o programa e acusa o SBT de plágio. Para acompanhar os competidores pela casa nos próximos dois meses, foi montada uma estrutura que inclui 38 câmeras e 60 microfones ligados 24 horas por dia. Se a parafernália, mesmo que em maior peso, é muito semelhante à da Casa dos Artistas, as inovações não deixaram a atração cair na mesmice. Surpresas de última hora deram o tom da semana de estréia. Como a prova apresentada logo no primeiro dia, em que o grupo entrou num automóvel achando que ali ficaria por apenas um minuto e, de súbito, soube que ganharia o carro o último participante que saísse, sem dormir nem ir ao banheiro. O vencedor, o baiano Adriano, só desceu do veículo 16 horas depois. Já não sai da casa de mão abanando.

Na quinta-feira, terceiro dia do programa, mais uma inesperada quebra de protocolo: no intervalo da transmissão do jogo entre o Brasil e a Bolívia, à noite, foi feita uma votação com os telespectadores para decidir se os 12 competidores mereciam ou não assistir ao segundo tempo da partida. E eles foram contemplados com esse passatempo inicialmente não previsto na rotina da casa – onde não existem rádio, TV com programação (o aparelho só serve para contato com os apresentadores) nem relógio. A cada domingo, dois participantes são escolhidos pelo próprio grupo e o eliminado é apontado pelo público, por telefone e pela internet. O vencedor do programa embolsará R$ 500 mil. E, a cada semana, quem permanece vai faturando R$ 500.

Apesar dos prêmios, todos os participantes sabem que podem lucrar muito mais se conseguirem passar ao público uma imagem empática. Reality shows não são mais uma novidade no país e as revistas de celebridades estão cheias de remanescentes de edições de No Limite – o grande pioneiro do formato no país – e da própria Casa dos Artistas. Assim, era de esperar que nas primeiras horas que passaram isolados do mundo exterior os participantes do BBB pecassem pela ansiedade. Alguns deles nitidamente exageraram nas doses de estrelismo e na vontade de sobressair aos demais. Mesmo assim, a impressão que ficou da primeira semana foi de que a escolha dos participantes, feita num universo de 500 mil inscritos, foi feliz. O grupo surpreendeu desde o início pela disposição e pela alegria – contagiantes. Na casa do Big Brother Brasil, todo dia tem sido dia de festa.

A trupe lembra crianças de uma escola num recreio que não tem hora para acabar. É com câmeras que deslizam em corredores escuros, pilotadas por profissionais vestidos de preto, que cada canto da construção cenográfica é bisbilhotado. Numa sala com quase 100 monitores, os diretores do programa assistem a cada espirro dos participantes e decidem o que será levado ao ar. O que a Globo, famosa por seu padrão de qualidade que dribla excessos comuns na concorrência, vai ou não mostrar é o primeiro mistério do BBB. Desde a estréia, o erotismo ronda as conversas e os corpos sarados dos participantes prenunciam que algo mais quente vai pintar na tela da Globo – cenas de sexo foram uma constante em versões do Big Brother em outros países.

?O conteúdo do programa é de dramaturgia. A vida humana gira mesmo em torno de amor e sexo?, diz o autor de novelas Walter Negrão, que gostou do que viu na tela. Na Casa dos Artistas, o máximo que se viu foram insinuações por baixo dos lençóis. ?Eu não assisti ao Big Brother ainda. Não vi e não gostei. Igual ao nosso programa não vai ter?, disse Taiguara, um dos participantes da atração do SBT. Outro da trupe de Silvio Santos, o ator Alexandre Frota achou ?morno?. A ciumeira também está no ar.

Num primeiro momento, a principal diferença entre os programas é que, na Casa dos Artistas, os concorrentes eram famosos – mesmo que alguns parecessem ilustres desconhecidos, pela distância que até então vinham mantendo da mídia. No BBB, o grupo é anônimo – embora muitos circulem entre a fama, já que há dois ex-modelos de sucesso, dois dançarinos, um cantor e um cabeleireiro franco-angolano com algum nome no Rio. ?Num programa como esse, sendo artistas ou não, todos agem como personagens, atuam 24 horas por dia, o que iguala qualquer reality show?, diz a crítica de TV e professora de comunicação e artes da Universidade de São Paulo Esther Hamburguer.?O BBB não frustrou as expectativas, mas a apresentação de Pedro Bial e Marisa Orth me pareceu equivocada. Em alguns momentos, chegou a ser constrangedora, de tão artificial, e contrastou enormemente com a simpatia do grupo?, diz o crítico de TV Gabriel Priolli."

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"?Não buscarei o nu?", copyright Época, 4/02/02

"Boninho, de 40 anos, dirigiu duas edições de No Limite

ÉPOCA – O sucesso do Big Brother foi acima do esperado?

Boninho – Foi uma boa surpresa, embora todos na Globo acreditassem que haveria grande interesse do público. Melhor ainda foi o aumento da média de 49 para 53 no segundo dia, o que mostrou que não se tratava de curiosidade apenas. O público gostou do programa.

ÉPOCA – Quanto tempo você tem passado na ilha de edição?

Boninho – Uma média de 18 horas por dia. Tudo é muito rápido, a edição tem de ser feita sem podermos rever quase nada. Não há script, não há história, nós é que montamos para que haja um enredo, um sentido.

ÉPOCA – O que será censurado?

Boninho – Em princípio, não há nada que eles não possam fazer na casa. No contrato está dito apenas que será desclassificado o participante que agredir fisicamente outro ou que destruir deliberadamente alguma coisa da casa. O resto está liberado, inclusive sexo, embora isso não seja o que estamos buscando. Não acho que sexo aumenta a audiência.

ÉPOCA – Mas será mostrado?

Boninho – O público saberá que aconteceu. De que forma, não sabemos. Há critérios já estabelecidos pela emissora, mas não posso revelá-los. Tudo é decidido em cima da hora. Foi assim com a idéia de pôr em votação se os participantes iam ou não assistir ao segundo tempo do jogo do Brasil contra a Bolívia. A TV, até então, seria usada apenas como contato com os apresentadores.

Na Holanda, país onde nasceu o Big Brother, o programa já está na terceira versão. Na primeira, em 1999, chamada Big Brother – Back to Basics (voltando ao básico), nove participantes anônimos disputaram o prêmio de 1 milhão de florins (cerca de US$ 400 mil). Tinham de fazer o próprio pão, colher verduras numa horta e muitas vezes optar entre uma cota de leite e água quente para o banho. A audiência bateu todos os recordes da história da TV holandesa. ?O último dia de programa parecia jogo de Copa do Mundo no Brasil. Ruas vazias, o barulho da televisão em toda parte?, conta o brasileiro Mauro Braga, de 34 anos, que morou 14 anos em Amsterdã, na Holanda, e chegou a trabalhar numa produção da Endemol.

A segunda versão do Big Brother, em 2000, teve o subtítulo Vips e reuniu pessoas já famosas – atores, cantores e modelos. Durou duas semanas e não teve a mesma audiência. No fim do ano passado chegou ao fim a terceira versão, Big Brother – The Battle (a batalha). Novamente com anônimos, a audiência voltou ao topo. Boa parte do sucesso da terceira versão foi a curiosidade do público pela participante Kelly, um transexual.

Vinte e um países, antes do Brasil, compraram os direitos do Big Brother da Endemol. Durante o período de produção do BBB, havia uma equipe da empresa holandesa apoiando a emissora, mas apenas na parte operacional. O conteúdo do programa, as provas, a edição, tudo o mais fica a cargo da emissora brasileira, que pode ou não aproveitar idéias das versões realizadas em outros países.

Foi da versão americana que se extraiu a prova do automóvel. Mas deixar o público escolher se os participantes poderiam assistir ao segundo tempo do jogo da Seleção Brasileira foi idéia relâmpago dos diretores. Um jeitinho brasileiro."

 

"A estréia de BBB", copyright No. (www.no.com.br), 4/02/02

"A estréia de Big Brother Brasil foi um verdadeiro quinto dos infernos, uma barulheira dos diabos. Doze pessoas absolutamente histéricas dentro da casa mais dois apresentadores nervosos no estúdio – e todos falando ao mesmo tempo. Não deu outra: ?cala a boca!?, gritava um. ?Silêncio, por favor!?, pedia outro. ?Psiu!?, ?Não faz barulho!?, ?Fica quieto!?, completavam os restantes.

Não se entendeu muita coisa além dos gritos de ?aêêêêêê!?, uma voz feminina repetindo o bordão ?caraca? e um chorrilho de ?aí, galera, uh-uh?. Desde o surgimento dos personagens do núcleo São Cristóvão de O Clone, que só se falam por bordões, não se ouvia uma língua tão exótica e primitiva. Vogais e exclamações.

Se o país ficou espantado com a indigência mental dos quase famosos de Casa dos Artistas, os descolados de Big Brother prometem radicalizar o processo – mas isso você só vai perceber quando a Globo equilibrar o som dos microfone. São quase todos sagitarianos, são quase todos muito chatos e exagerados. Era tragicômico ouvir Núbia de Oliveira reclamando da luxúria dos que queriam muitos carros. Mas para se aborrecer com a tolice de anônimos não é preciso olhar pela fechadura. Basta ir na convenção de condomínio do prédio.

Todos demonstravam saber muito bem que se Alexandre Frota está escrevendo um livro na Ilha de Caras, se Supla já passou dos 300 mil discos e se Barbara Paz vai estrelar novela – eles podem ser os próximos a encher de vazio o noticiário do verão. Pareciam com corações e hormônios ligados na tomada diante da possibilidade divina de se tornarem os novos Mateus Carriére, as novas Maris.

No primeiro programa a Globo não deu mole para nenhum deles. ?Está decolando bem!?, legendava Pedro Bial do estúdio fazendo o papel que na casa ao lado é de Silvio Santos. ?Que alto astral dos meninos!?, completava Marisa Orth absolutamente em pânico. Os locutores acabaram se destacando demais. Primeiro porque dava para entender o que eles falavam. Segundo porque o que um falava nem sempre era o que o outro concordava. ?Não é para anunciar agora, Marisa?, ?Não é nesse bloco, Marisa?, ?Você disse que não participaria desse programa, Marisa, mas agora já está com inveja dos meninos lá na casa?, cutucava Bial. Bial, sem dúvida, curte mais a Glória Maria.

A Globo joga todo o seu poder no projeto Big Brother Brasil e até a janela do Palio Weekend sentiu a tensão. Não fechou. A Fiat investiu R$ 4 milhões no patrocínio, mas quando Marisa Orth pediu que os participantes, trancados dentro do carro para uma prova, fechassem a janela, um deles teve que admitir por um dos cinco mil alto-falantes que rondam a galera: ?Não tá fechando! Não funciona!?

O primeiro programa, de um modo geral, também não funcionou. Os conflitos humanos, a grande gincana, ainda não foram deflagrados. Mas o final foi bom: os 12 dentro do carro, antes alegrinhos com a bagun&ccedilccedil;a de recreio, um sentado no colo do outro, recebem a notícia de que ganha o carro aquele que agüentar a situação por mais tempo. É quando finalmente ficam em silêncio e, tensos com a primeira dificuldade, param de gritar ?uh uh!?, ?aaahoooo!?, ?eeeeeeeeeehh!?.

Pode ser que o stress das provas, a alimentação rarefeita e os longos 60 dias vigiados por 34 câmeras dêem alguma expressão dramatúrgica a esses jovens adrenalizados pela possibilidade de resolverem a vida. Por enquanto movimentam-se como selvagens aculturados pelo indianista Alexandre Frota. A esperança de todos que curtem esse tipo zôo humano é essa: que logo, de preferência já no programa de hoje, virem bichos e se devorem. A arquitetura da casa vai ajudar. Ficou apertada para tanta gente.

Cada um dos participantes tenta desesperadamente aparecer mais que o outro e ser catapultado para, quem sabe, algo parecido com o comercial que os vencedores do Casa dos Artistas fizeram no intervalo para o Ponto Frio Bonzão. Estão super-atuando. São todos muito alegres, super animados, over desinibidos e, como qualquer pessoa com um perfil desses, desagradabilíssimos. Malas. Kleber pegou primeiro o papel de Alexandre Frota e disse que traça a boazuda Xaiene, candidata por sua vez a ser a nova Nana Gouvêa.

O grande problema da Globo vai ser diferenciar não só os personagens mas as situações para que não fique a impressão de que está no ar uma paródia da Casa dos Artistas. A brincadeira de pontuar as cenas com música engraçada, por exemplo, ficou na cola do SBT. Quando a black-model Vanessa, para não ser filmada com detalhes não tão pequenos à mostra, começou a botar a calcinha do biquíni por debaixo da saia, a lembrança de Patrícia Coelho na mesma situação era evidente – só que ainda por cima Vanessa não tem os coelhos que Patrícia tinha por baixo. Uma das saídas pode ser investir em gincanas, mas sem dar a impressão de que tiraram No Limite do Pantanal e jogaram dentro de uma casa em Jacarepaguá.

A primeira noite de BBB, apesar do ibope com pico de 57 pontos, deixou certa apreensão no ar. Problemas técnicos de som, superpopulação no vídeo, locutores com intervenções longas demais, pouco tempo para definição dos personagens. A sensação – ?psiu, ei, não grita? – foi de caos. Faltou uma edição que organizasse a balbúrdia para o telespectador e mantivesse os índios sob o controle de algum cacique na mesa de corte. A não ser que a Globo reinvente o jogo dos holandeses e jogue estrelas das novelas dentro da jaula, vai ser difícil agüentar os deslumbrados de Big Brother e sua língua – nada de verbo, substantivo ou adjetivos – só interjeições. Silvio Santos, que vem aí com uma casa dessas, só que cheia de Tiazinha e Feiticeira, deve ter dormido feliz."