Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Informação e bisbilhotice

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JB & MINISTÉRIO PÚBLICO

Ana Lúcia Amaral (*)

A indigência mental que grassa na maior parte das redações de jornais e revistas deste país bem pode ser constatada numa manchete de primeira página. A do Jornal do Brasil de 11/3/01 é expressivo exemplo: "Gravação de conversa com ACM divide Procuradoria da República". No miolo, na página 3, o título principal é: "Brindeiro é a vidraça da vez".

Procurando manter "na pauta" um assunto fora de foco ? se o procurador da República Luiz Francisco agiu bem ou não em ter gravado a conversa da qual participou com o senador Antonio Carlos Magalhães [veja remissão abaixo] ? o jornal carioca pratica um "grampo" que poderá lhe causar sérias dificuldades.

Tendo logrado invadir a rede de comunicação dos membros do Ministério Público Federal, publica em sua primeira página manchete chamando a atenção sobre conversas mantidas entre colegas procuradores da República. O digno de nota é que o jornal ou qualquer de seus profissionais não têm seu endereço ali inserido. Ou seja : "grampeiam" ? pois não fazem parte da conversa ? e ainda publicam!!!

Embora haja muito ainda a ser disciplinado no que tange a este tipo de comunicação eletrônica, o fato é que o Jornal do Brasil não deve estar utilizando os expedientes mais éticos, para se dizer o mínimo.

Deixando de lado a forma como teve acesso à conversa entre pessoas que se conhecem, que têm em comum uma mesma profissão e integram uma mesma instituição, não têm os profissionais que trouxeram o texto para as suas páginas a menor idéia sobre como funciona aquela, e como se dá o debate sob a ótica jurídica. Trocando em miúdos: não conhecem e não entendem o que noticiam.

Se o jornal soubesse que há cerca de 600 procuradores na ativa, e se contassem quantos participam, normalmente, das discussões naquela rede, veria que o número é bem reduzido. Para fins estatísticos, talvez não fosse uma amostra significativa para concluir sobre possível "divisão".

Se estivessem habituados os "jornalistas" ao debate jurídico, não se impressionariam com a eventual divergência. É da expressão popular o dito "cada cabeça, uma sentença".

Se fossem mais eficientes, ou se não tivesse o jornal como última função prestar alguns "serviços" ao Planalto ? entre eles o de achincalhar uma instituição para retirar credibilidade de trabalho que causa os mais sérios embaraços até à presidência da República ? deveriam os jornalistas do JB ter trazido outras conversas sobre outros aspectos mais importantes. Talvez por não conseguirem acompanhar a discussão jurídica tenham perdido uma boa oportunidade de conhecer as grandes preocupações do procuradores que integram a instituição Ministério Público Federal.

Por não conhecerem os "jornalistas" do Jornal do Brasil as várias linhas de formação de um profissional do Direito, não conseguem entender as diferentes abordagens de um mesmo assunto. Enquanto há os mais formalistas, há os que se preocupam com a dificuldade de regras formais resolverem fatos da vida de forma mais urgente e eficaz. Além de diferentes formações, são pessoas das diversas regiões do país, com histórias de vida distintas, sem falar em gerações distintas. Não há, assim, o pensamento único tão ao agrado dos governos pouco afeitos à democracia.

Servilismo ao poder

Ainda que haja discordâncias sobre se deveria ter sido ou não gravada/divulgada a conversa com o senador ACM, o fato que parece ser o mais relevante é que há discussões internas sobre o que se faz e como se faz. O Ministério Público é ainda uma instituição em construção ? eis que a atual configuração só se deu em 1988, com a nova ordem constitucional. Embora existam muitos membros que já estavam no antigo Ministério Público, ocorre que uma nova Constituição não muda, como um passe de mágica, as mentalidades. Uma instituição em construção é composta de diferentes "obreiros". Se soubessem os responsáveis pela matéria de capa da referida edição do Jornal do Brasil da história das pessoas cuja conversação invadiram, a compreensão da leitura dos textos talvez mudasse a manchete.

E outro dado para o qual não parecem ter atentado foi para ausência de pessoas ? na instituição ? acima do bem e do mal. Por mais relevantes que tenham sido os serviços de colegas procuradores da República, não auferem eles qualquer imunidade. Outra coisa difícil de se observar em outras instituições…

Talvez esteja esta leitora de jornais esperando muito dos jornais. Talvez não seja apenas ignorância sobre o objeto sobre o qual se noticia. Talvez seja tão-somente servilismo ao detentor do poder de plantão. E tal servilismo não é exclusividade do Jornal do Brasil. O jornal O Globo é outro bom exemplo.

"Porco chauvinista"

Na edição de 2/3/01, o colunista Márcio Moreira Alves dá mostra desse servilismo. Sob o título "Palavras e gírias", refere-se a outra manchete daquele jornal ("Enrolado em fitas"), outro tratamento fora de foco de assunto que deveria ter levado os "caras pintadas" às ruas novamente. Ao se referir ao procurador da República Luiz Francisco de Souza, compara-o ao personagem Quasímodo. A referência clara à aparência física de alguém para tentar desqualificá-lo é expressão do mais desprezível preconceito. Se um jornalista, com os anos de experiência que tem, expressa comentário nitidamente pejorativo sobre a compleição física de alguém, e com tamanha desenvoltura, que tratamento podemos esperar aos portadores de deficiência por parte dos menos "ilustrados" neste país?

O claro desiderato de achincalhar uma instituição, que tantos incômodos vem trazendo ao poder central, fica nítido, mais uma vez no mesmo artigo, ao associar o jornalista, acima citado, a figura de uma prostituta ? a pessoa que toma conta de um bordel, ou um "castelo" ? a uma procuradora da República [veja retranca MULHERES, no Caderno da Cidadania, nesta edição]. Creio que nem um "porco chauvinista", na expressão antiga de antigas feministas, seria capaz de tanto. Em termos de preconceito, o jornalista conseguiu superar seu próprio score. Parece o jornalista não saber a diferença entre uma e outra, bem possivelmente por nunca ter tido a oportunidade de conhecer uma procuradora da República, como nunca deve ter conhecido um procurador da República o responsável pela capa do Jornal do Brasil.

(*) Procuradora Regional da República, associada ao Instituto de Estudos "Direito e Cidadania"

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